A SUPERIOR INTELIGÊNCIA POLIGÂMICA

A complexa liturgia dos múltiplos acasalamentos na natureza estimula sensivelmente a inteligência dos indivíduos entregues à alegre e aventurosa poligamia

 

Por Reinaldo Moraes

 

STATUS 35 - PORNOPOPEIA

 

Qual o bicho mais inteligente da natureza? O homo sapiens, dirá você, puxando a brasa pra sua espécie. No entanto, você há de convir que certas atitudes torvas que caras como eu e você tomam na vida geram fortes dúvidas a esse respeito. Nos nossos piores momentos parecemos figurar entre as mais estúpidas formas de vida a se mover na crosta terrestre. Mesmo assim, sempre que acordo de uma noite de balada meio selvagem, na qual, aliás, posso ter me comportado de forma bem pouco sapiens, boto a consciência de joelhos e rendo loas ao gênio da espécie que inventou substâncias milagrosas que combatem a cefaleia, tais como o ácido acetil salicílico, a dipirona, o paracetamol e o sublime ibuprofeno.

Mas o que leva uma espécie como um todo adquirir mais ou menos inteligência que outras? Calma. Não vou sacar um Darwin aqui e abrir uma interminável discussão sobre a evolução das espécies. Cito apenas uma pesquisa levada a cabo pelos biólogos Brian Hollis e Tadeusz J. Kawecki, da Universidade de Lausanne, na Suíça, mencionada, dia desses, por Carl Zimmer no The New York Times, com discreta repercussão na imprensa brasileira. Os caras pegaram uma variedade da mosca drosófila (Drosophila melanogaster), aquela que vive de fruta podre caída no chão, e obrigaram um punhado de machos dessa espécie poligâmica a se tornarem monogâmicos. Fizeram isso simplesmente trancafiando um macho e uma fêmea no mesmo ambiente. O mosco e a mosca aprenderam o significado da velha expressão humana “Não tem tu, vai tu mesmo.”

Eis que, aprisionado contra a vontade num matrimônio monogâmico, o mosco drosófilo não tem mais que afastar os rivais na porrada nem fazer serenatas pra fêmea, como costuma fazer. E a fêmea, por sua vez, não precisa mais ficar observando com atenção o ambiente à cata de machos bem-sucedidos no mercado sexual da sua comunidade, de forma a garantir bons genes pra sua prole. Doravante, se aqueles dois quiserem ter vida sexual, vai ter que ser com o parceiro escolhido pelo cientista, e ponto final. Mas a monogamia forçada é só o começo das atribulações por que irão passar no laboratório dos biólogos.

O que os doutores Hollis e Kawecki fizeram na sequência foi submeter os dois grupos de drosófilas, o das naturalmente promíscuas e o das forçadamente monogâmicas, a um teste de inteligência. Primeiro submeteram ambos os grupos a um rude teste olfativo que consistia em introduzir as moscas num cano onde era soprado um odor intenso e desagradável de parafina queimada. Em seguida, chacoalhavam com violência o cano, provocando um efeito de terremoto dos mais desagradáveis pra qualquer um, mosca ou não mosca, de modo a associar as duas coisas: um determinado cheiro e a trepidação apavorante. Com os dois grupos de drosófilas assim condicionados, vinha a segunda fase do teste. As moscas de um grupo, e depois do outro, eram introduzidas em outro tubo que desembocava num tubo transversal, formando um T. De uma extremidade do tubo transversal vinha o cheiro associado ao terremoto. Da extremidade oposta chegava um cheiro diferente, sem nenhuma associação.

O que os cientistas constataram foi que as moscas monogâmicas seguiam em direção à extremidade do T que emanava o cheiro de parafina queimada, apesar de associado ao terremoto. Já as drosófilas poligâmicas, ao chegarem na bifurcação do T, escolhiam sem titubear a extremidade de onde vinha o outro odor, o que não se ligava à chacoalhação infernal. Em resumo: as moscas poligâmicas se mostraram muito mais inteligentes que suas colegas monogâmicas, que, mais burras, não pareciam ter aprendido nada com a experiência recente e entravam literalmente pelo cano errado. Resumo do resumo: a vida monogâmica tinha emburrecido as drosófilas.

E por quê? Óbvio: toda a complexa liturgia dos múltiplos acasalamentos na natureza estimula sensivelmente a inteligência dos indivíduos entregues à alegre e aventurosa poligamia, ao passo que a pasmaceira e a falta de novas emoções inerentes à vida monogâmica embotam o intelecto dos cônjuges exclusivos dentro de um matrimônio forçado e fechado.

A questão é: essa constatação científica, que vale pra Drosophila melanogaster, poderia se aplicar também ao homo sapiens? Os dois cientistas que realizaram o experimento puxam um discreto pigarro e respondem algo como “Bem, veja…”, furtando-se a nos dar uma resposta conclusiva, talvez porque integrem, eles próprios, matrimônios teoricamente monogâmicos e não querem arrumar treta com suas excelentíssimas consortes. Espero que o amigo leitor não espere de mim uma tal resposta, não aqui, pelo menos, mas aposto como em sua cabeça alguma conclusão deva estar ululando agora à sua revelia – certo?

Em todo caso, uma rápida comparação entre a vida dos bichos monogâmicos e a dos poligâmicos pode contribuir o seu tanto pra essa discussão. O castor, por exemplo, forma casais que vivem em industriosa monogamia até que a morte os separe. Só aí a fêmea ou o macho saem à procura de um novo parceiro ou parceira. Durante a vida em comum são absolutamente fiéis um ao outro, entregues ambos à rotina infatigável de construir diques em rios e riachos. Há quem os considere mais inteligentes que a média dos demais roedores por conta desse trabalho de engenharia a que instintivamente se entregam. O fato é que, inteligentes ou não, boa parte da população de castores virou gola de casaco de madame e a espécie já se encontra extinta em vários ecossistemas.

No outro extremo, o dos animais gandaieiros, está o golfinho, que, como o castor, vive num meio líquido e é também um mamífero. O golfinho é um pegador inveterado. Trepa várias vezes por dia com diferentes fêmeas e fora do período de fertilidade das companheiras. Trepa por trepar, e até com as donzelas de outras espécies, como alguns tipos de baleia e, pasme, com tartarugas marinhas! Esses caras são foda. São capazes de decapitar um peixe pra foder-lhe a carcaça. Juro! E mergulhadores já avistaram golfinhos com enguias enroladas em seus pintos duros a masturbá-los. Dá até pra pensar em ter um aquário com enguias em casa, né não?

Difícil aqui, pelo menos pra mim, decidir qual tarefa demanda mais inteligência: construir um dique ou convencer uma enguia a se enrolar no teu pau pra te masturbar. Pelo sim, pelo não, faça o teste você mesmo, se for casado. Primeiro, procure detectar o seu QI atual. Depois, tome um banho, vista uns panos bacanas, arrume uma boa desculpa em casa e caia de boca na balada pelo menos duas vezes por semana, esforçando-se ao máximo pra pegar geral. Depois de uns três meses, recalcule o seu QI e veja se ele não aumentou um pouquinho, mesmo que ao preço de ter seu saldo bancário rebaixado e sua vida conjugal bastante bagunçada. Mas, veja lá: na medida do possível, poupe as baleias, as tartarugas marinhas, os peixes decapitados e as enguias. E bom divertimento!