ANJOS E DEMÔNIOS

Mais de 100 grupos satanistas atuam hoje na Itália e são capazes de tirar o sono do vaticano.Fomos até lá para entender o que está por trás desse fenômeno

 

Giovanne Marchionne, de Roma

 

STATUS 35 - TOP SECRET

 

San Pietro della lenca, nos arredores da cidade de L’Áquila, região central da Itália. Localizada no alto de uma montanha, a construção do século 12 não contava com seguranças e tampouco com alarmes. Não parecia haver necessidade, já que a presença do tesouro nas dependências da igreja nunca fora alardeada. Foi assim até aquela manhã de sábado, quando o pároco José Abuy percebeu que duas janelas haviam sido arrombadas. A caixinha de esmolas estava intacta, assim como a porta da sacristia, mas a relíquia havia sido levada. Com a polícia devidamente avisada, o assunto despertou não apenas a atenção dos moradores,  mas também da imprensa internacional. As primeiras notícias chegaram a falar em uma ampola com sangue, mas logo ficou claro que se tratava de um pedaço de tecido da túnica que o pontífice usava durante o atentado que sofreu, em 1981. Foi graças à polícia italiana, porém, que o mistério ganhou definitivamente contornos de thriller: segundo investigadores, havia fortes indícios de que o roubo estivesse ligado a rituais satânicos.

Bastou a suspeita para a internet ser inundada com as mais variadas explicações. Estudiosos lembraram, por exemplo, que o dia do furto (25 de janeiro) coincidia, no calendário satânico, com o nascimento do demônio Volac, considerado o grande presidente do Inferno. No dia 26, duas pombas libertadas pelo papa Francisco durante uma cerimônia em nome da paz da Ucrânia foram atacadas ainda no ar por um corvo e por uma gaivota. Até mesmo o raio que caiu sobre o Cristo Redentor cerca de dez dias antes e que danificou o dedo da estátua foi levantado como indício de um “período macabro”.Por fim, após seis dias de investigação, a polícia encontrou os ladrões: três jovens de 18, 24 e 26 anos, com histórico de envolvimento com drogas e pequenos delitos e que, provavelmente, nem sabiam o valor do que haviam levado. Mas, ainda que a motivação satânica tenha sido descartada, ficou a pergunta: por que esta teria sido a primeira e principal hipótese levantada pela polícia?

STATUS 35 - TOP SECRET

De fato, não se trata de um delírio das autoridades. Nos últimos 20 anos, a Itália tem sido palco de diversos crimes em nome de Satã. “É preciso distinguir os satanistas entre dois grupos. Alguns são organizados, têm nome, endereço e site na internet e dificilmente estariam envolvidos em roubos e assassinatos. O que preocupa mesmo as autoridades policiais são os grupos clandestinos, geralmente formados por jovens que se reúnem para promover rituais caseiros”, diz o sociólogo italiano Massimo Introvigne, autor de mais de 60 livros sobre religião. Estima-se que existam 100 deles espalhados pelo país, muitos com histórico de crimes de pedofilia, maus-tratos de animais, violência sexuale, em casos mais raros, sacrifícios humanos. Um dos exemplos mais famosos é o do grupo conhecido como Bestas de Satanás, formado por jovens de 16 a 23 anos da periferia de Milão e de Varese. Em 1998, eles mataram a facadas os colegas de seita Chiara Marino, 19 anos, e Fabio Tollis,16, em um dos crimes mais chocantes da história recente da Itália. Ambos foram esfaqueados incontáveis vezes e enterrados vivos em uma área isolada, enquanto os assassinos dançavam e cantavam ao redor da cova. Entre eles estavam Nicola Sapone, Mario Macioni e Andrea Volpe, este último responsável ainda pela morte de sua ex-namorada Mariangela Pezzotta, em 2004, considerada por ele a “reencarnação da Virgem Maria”. Os três assassinos foram condenados à prisão, junto com outros cinco integrantes da seita.

STATUS 35 - TOP SECRET

O episódio está longe de ser o único. Também em 1998, a jovem Nadia Roccia, 18 anos, foi morta por duas amigas da mesma idade, que admitiram ter cometido o crime como um “presente a Satanás”. Em 2000, três garotas menores de idade, da cidade de Chiavenna, região da Lombardia, assassinaram a freira Maria Laura Mainetti, 61 anos, também em nome de Lúcifer. “O satanismo em si não é crime, pois existe total liberdade de culto no país. O problema é que, em 1981, a Corte Institucional italiana aboliu o crime de plagio”, diz o cientista social Giovanni Panunzio, coordenador de um grupo nacional que luta contra os movimentos ocultistas. Na Itália, o termo se refere à submissão de uma pessoa a outra, até que a vítima não encontre mais forças, sejam físicas ou psicológicas, para se livrar. Segundo Panunzio, diversos crimes em nome de seitas satânicas são cometidos graças a essa relação de submissão. “A pessoa se envolve de tal forma que acaba seguindo ordens de um suposto líder”, diz o especialista.

DISQUE – DEMÔNIO 

A preocupação com a proliferação das seitas fez o padre italiano dom Aldo Buonaitto criar, em 2002, um número 0800 dedicado exclusivamente a denúncias envolvendo seitas ocultas e para assistência a pessoas que se sentem aprisionadas por facções. Segundo estimativas do governo, cerca de 240 mil italianos caíram nas armadilhas das seitas nos últimos dez anos e a maioria ainda sente dificuldade para livrar- se delas. De acordo com a Comunidade Papa Giovanni XXIII, liderada por dom Aldo, a maioria das vítimas é formada por adultos com nível de instrução médio para alto e está no norte da Itália, sobretudo em Turim (ver quadro na pág. ao lado). “Recebemos em torno de 1.300 chamadas por ano. Em geral, são pessoas desesperadas, com problemas econômicos, de saúde ou afetivos”, diz dom Aldo, que participa da comunidade desde sua fundação e que, hoje, precisa andar escoltado em função de ameaças de morte. “Estamos falando não apenas de seitas ditas satânicas, mas também de seitas pseudorreligiosas ou mágico-esotéricas”, diz.

Os católicos tentam contra-atacar, à sua maneira. Nos últimos 20 anos, estima-se que o Vaticano tenha quintuplicado o número de padres autorizados a promover rituais de exorcismo no mundo (o número exato é mantido em sigilo). Ainda que o tema seja controverso no meio acadêmico e padeça de comprovação científica, no seio da Igreja a purificação de uma alma dominada pelo demônio é um tema levado a sério e nem todo padre é considerado apto para a missão. Segundo o padre Giulio Savoldi, exorcista oficial da cidade de Milão, entre as exigências está uma força “sobrenatural”. “O homem escolhido para essa tarefa precisa saber buscar forças não apenas dentro dele mesmo, mas também de Deus”, diz. Além de conhecimentos em psicologia, o exorcista também é treinado para perceber a diferença entre uma possessão diabólica e uma doença mental. Em 1999, o ritual de exorcismo da Igreja Católica foi atualizado pela primeira vez desde 1614, reforçando a preocupação da instituição quanto a sessões falsas ou desnecessárias. Falar ou gritar com uma voz diferente do natural e em uma linguagem indecifrável estaria entre alguns dos sintomas de uma possessão verdadeira. “De cada mil pacientes que recebo, cerca de 10% estão realmente possuídos”, diz o padre Gabriele Amorth, exorcista da cidade de Roma. Aos 88 anos, ele é considerado o mais famoso exorcista do mundo, com mais de 50 mil sessões no currículo. “Às vezes o ritual dura apenas alguns minutos, às vezes algumas horas. Nos últimos 14 anos, tenho falado com o demônio diariamente”, disse o padre ao jornal britânico The Telegraph.

Além da Igreja Católica, existe outro grupo bastante preocupado com a proliferação de rituais violentos em nome do diabo: os chamados satanistas modernos. “Quem conhece a história e a filosofia do satanismo sabe quanto esses rituais com pessoas, animais ou coisa parecida estão longe de representar nossa crença. O verdadeiro satanista tem pânico dessas coisas”, diz Eder Sampaio, representante e sacerdote da Igreja Satanista da América Latina (Isal). Formado em matemática, Eder divide seu tempo entre o trabalho como analista de sistemas e a devoção ao satanismo, que inclui estudos, reuniões com outros seguidores e rituais. “Não se trata de rituais com pessoas ou objetos, como sugere o imaginário popular. Esses rituais são praticados em nossas casas ou mesmo ao ar livre. É uma experiência pessoal, e não uma catarse em torno de uma fogueira”, diz Eder. A doutrina básica do satanismo moderno está baseada na Bíblia de Satã, documento publicado pelo ocultista americano Anton LaVey, em 1996. Entre os preceitos estão a crença na relatividade moral (ou seja, não existe moral absoluta), no individualismo e na satisfação dos desejos (e não na abstinência).Além disso, os satanistas, sejam eles modernos ou tradicionalistas, rechaçam completamente a ideia de que Satã exista para fazer o mal, incluindo aí a possessão demoníaca. “Para nós, Satã representa a figura daquele que se opõe, que não aceita qualquer resposta e que faz questão de pensar por si mesmo”, diz Eder. A Igreja pensa diferente. Tanto é que essa batalha é travada até os dias de hoje.

STATUS 35 - TOP SECRET