O HOMEM DE GELO

Ele viaja o mundo em busca de cachoeiras e picos congelados. Conheça O britânico Tim Emmett, autor da mítica escalada que entrou para a história e mudou os padrões desse perigoso esporte

 

Por Mario Mele

 

STATUS 35 - SANGUE FRIO

O ritual é sempre o mesmo. Toda temporada de inverno o inglês Tim Emmett, 40 anos, arruma as malas e parte para as Rocky Mountains, no Canadá, em busca de suas famosas – e imponentes – cachoeiras. Mas, ao contrário do que se possa imaginar, se banhar em quedas d’água é uma das últimas coisas que passam pela cabeça de Emmett. Sua obsessão é uma só: encontrá-las congeladas, de cabo a rabo, para que possa escalá-las até o topo. Há quem o chame de pirado, de excêntrico ou de sem noção – para fazer o que ele faz, às vezes, é preciso de um pouco de tudo isso –mas o fato é que Emmett é profissional. O britânico é autor da escalada em gelo mais difícil da história. Em 2012, ele venceu a Spray on… Top, uma escalada cem por cento na água congelada da Helmcken Falls, uma cachoeira de 141 metros dentro do Parque Provincial Wells Gray, no Estado de Colúmbia Britânica. “De longe, foi a minha maior conquista na escalada até hoje. A primeira vez que fiquei diante dessa cachoeira, pensei em dar meia-volta e ir embora, porque parecia impossível escalar ali”, conta Emmett à Status. “Agora ficou difícil até imaginar um projeto tão impressionante quanto esse. Talvez só em alta montanha.”

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Emmett em ação na famosa Spray on… Top

Não foi, de fato, uma tarefa fácil. Basta ver a epopeia que foi chegar ao topo da Helmcken Falls. Tudo começou em 2010, quando Emmett e o canadense Will Gadd formavam um dos times mais fortes da escalada em gelo. Foram eles que avistaram pela primeira vez a linha aparentemente “escalável” sobre o imenso véu de gelo da Helmcken. Na época, chegaram a decifrar os primeiros movimentos, mas ainda restava um longo caminho. Na temporada seguinte, Emmett e Gadd voltaram à arena congelada e ganharam mais um round. Pisar no topo era só uma questão de tempo. Na terceira temporada consecutiva, no entanto, Emmett não pôde contar com o canadense, que estava fora do país gravando um programa para um canal de tevê. Então, ele ligou para o esloveno Klemen Premrl, outro especialista em escalada no gelo, e pediu para encontrá-lo no Canadá.

Primeiro, a nova dupla teve que usar um detector de metais para achar os parafusos de segurança fixados nas duas expedições anteriores e que estavam por baixo do gelo. “Nunca me senti um aventureiro tão real”, brinca Tim. “Em determinado momento, me peguei escalando com três piquetas, uma furadeira e um saco de parafusos, além do detector de metais.” Depois de 12 dias procurando um caminho ao topo, bingo! “Não imaginei que pudéssemos vencer uma passagem de cerca de três metros de extensão sem agarras aparentes.” Eles ficaram horas procurando uma saída e só ao se aproximar é que Emmett se deu conta de dois minúsculos buracos, um ao lado do outro e cada um da metade do tamanho de sua unha do dedo mindinho. “Era isso ou voltar para casa.” Foi isso: ele cravou as piquetas e ficou pendurado, com as pernas balançando dentro do imenso cone de gelo a 120 metros de altura. “Senti que estava escalando sob o mais puro efeito da adrenalina”, lembra. Essa seção exigiu lâminas e braços fortes e, por isso, foi batizada de Wolverine, que em seguida ganhou uma inédita classificação WI 11. Para ter uma ideia, as mais difíceis escaladas em gelo do mundo atualmente giram em torno de WI 7+.

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Emmett, obviamente, não pretende ficar marcado por essa escalada e tem buscado outros feitos. Em abril do ano passado, por exemplo, ele se juntou ao amigo Neil Gresham, outro notável escalador inglês, para mais uma aventura heroica.

Em apenas um dia, eles completaram três vias clássicas no País de Gales – The Devil’s Appendix, Central Icefall Direct e Cascade –,cada uma com cerca de 130 metros de extensão e com embaraços técnicos e físicos, o que tomaria o dia da maioria dos experientes escaladores de gelo, mas não para Emmett e seu parceiro. Foi a primeira vez que essas três rotas foram escaladas por uma mesma equipe num único dia. Entre estacionar o carro e pisar no topo da última via, eles demoraram nove horas e meia. Essa é mais uma obra-prima da escalada em gelo que leva sua assinatura.

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Emmett (à dir.) costuma escalar com parceiros por uma questão de segurança

O INÍCIO DE TUDO 

Tim Emmet começou escalando árvores ainda criança e, aos 15 anos, já dominava a arte de se pendurar. Foi nessa época que ele parou na base de uma rocha e, pela primeira vez, olhou para cima tentando decifrar uma rota para o alto. “Fiquei tão feliz ao pisar em cima daquele bloco que nunca mais parei de escalar.” A escalada em gelo, contudo, só virou realidade para ele no fim da década de 1990, quando cursava zoologia marinha na Universidade de Wales, no norte da Inglaterra. “Eu via aquelas montanhas de North Wales cobertas de neve e procurava um jeito de me aventurar nelas”, conta ele, que na época era vendedor numa loja de equipamentos de escalada. “Puxei da prateleira uma fita VHS com o Jeff Lowe [visionário alpinista americano] e levei para casa. Em seguida, saí para praticar o que havia visto no filme e a bagagem que eu já tinha acumulado com a escalada em rocha me ajudou a evoluir rapidamente.” Dois anos depois, ele sugeriu ao amigo Neil Gresham, com quem completou a tríade da escalada em gelo em Gales, a inscrição na Copa do Mundo de Escalada em Gelo, que aconteceria na Áustria. Treinaram forte por três meses, mas, mesmo assim, Emmett não imaginava chegar às finais logo de cara. “Depois disso, passei a acreditar que realmente eu ia melhor no gelo do que na rocha.” E, entre 2002 e 2006, ele terminou todos os campeonatos mundiais de escalada em gelo entre os dez melhores do mundo. “Foi uma fase brilhante, em que troquei experiências com pessoas parecidas comigo e aprendi muito.”

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Emmett fazendo a manobra batizada de Wolwerine devido a sua dificuldade

Em 2006, Emmett ainda arrumou tempo para realizar um dos feitos mais notáveis da escalada big wall. Ele e Ian Parnell, outro grande escalador britânico, moraram sete dias nas paredes virgens do Kedar Dome, uma montanha de 6.830 metros no Himalaia, e abriram uma via que mescla técnicas de escalada em gelo e rocha. Em estilo alpino – o mais puro do montanhismo, no qual não é usado oxigênio suplementar –, a dupla enfrentou passagens expostas de altíssimo grau de dificuldade a mais de seis mil metros de altitude. Lá do alto, depois de conquistar o desafio, sentia-se incomodado. Não se conformava em perder um tempão montando sequências intermináveis de rapel para o caminho da descida. Por isso, depois que começou a praticar base jump, há cerca de dez anos, comentou com o amigo e escalador inglês Leo Houlding sobre sua intenção de quebrar o chato ritual de descida, saltando do topo com uma roupa wingsuit ou decolando com um parapente. Emmett botou o plano em prática e se tornou um dos pioneiros do para-alpinismo, o nome dado à modalidade que mescla voo livre e montanhismo. “O base jump é exatamente o inverso da escalada em gelo e, em minha opinião, mais perigoso”, compara. “Enquanto em um você tem que se mover lentamente, por pura precaução, no outro não há escolha: tudo acontece muito rápido.” Tim hoje sonha em escalar alguma montanha com mais de sete mil metros no Himalaia para, em seguida, decolar de wingsuit do topo, e já faz planos para isso. A julgar pelos seus feitos, não vai demorar para isso virar realidade.

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