O IMPÉRIO CONTRA – ATACA

Eles já disputaram territórios à bala e hoje estão lado a lado com um objetivo em comum: aterrorizar o Rio com ataques em série e causar pânico antes da Copa do Mundo. Entenda como os chefões do tráfico costuraram uma aliança para acabar com as UPPs

 

Por Luís S. Ramalho

 

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PM vasculha destroços no complexo de Manguinhos, onde traficantes incendiaram bases de apoio da UPP local e feriram comandante da unidade

 

A letrinha redonda,quase desenhada, em nada combinava com o teor incendiário do conjunto de cartas encontrado em um acampamento erguido em plena selva colombiana por guerrilheiros da Frente 16, a temida tropa chefiada por Tomas Molina, o Negro Acácio, um dos comandantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc. Era início dos anos 2000 e o autor dos textos era Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira- Mar. À época, o traficante brasileiro vivia sob proteção das Farc e defendia, nas missivas, a unificação das duas maiores facções criminosas do Rio de Janeiro: Comando Vermelho (CV) e Amigos dos Amigos (ADA). Beira-Mar ambicionava tornar-se o fornecedor exclusivo de drogas e armas para um comando único no crime organizado do Rio. As cartas, entretanto, foram apreendidas pelo Exército colombiano e acabaram nas mãos de autoridades fluminenses. Passados 14 anos, porém, o desejo do traficante –preso atualmente numa penitenciária federal em Porto Velho (RO) – parece ter se concretizado. Informações dos setores de Inteligência da Polícia Federal e das polícias do Rio indicam que integrantes das duas facções, históricos rivais na disputa por território e pelo mercado de drogas, acertaram uma espécie de armistício, passando a concentrar forças contra um inimigo em comum: as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), a mais famosa política de segurança pública do governo de Sérgio Cabral (PMDB).

Sob a influência de Beira-Mar, os integrantes das duas facções passaram a empregar táticas de guerrilha para levar terror às comunidades pacificadas. Neste começo de 2014, os ataques às UPPs se intensificaram. Bases policiais foram atacadas à bala e incendiadas. Em apenas 36 dias, entre fevereiro e março, quatro policiais foram alvo de tiros de fuzis em comunidades que integram o Complexo do Alemão. A mais recente vítima foi o subcomandante da UPP Nova Brasília, tenente Leidilson Alves. A trégua entre CV e ADA teria sido alinhavada por advogados que atuariam como pombos-correios, em um leva e traz de orientações dos chefões das duas facções, Marcinho VP, do CV, e Nem da Rocinha, da ADA, que cumprem pena em penitenciárias federais fora do Estado, e seus subordinados nas favelas. A explicação para o cessar- fogo entre as quadrilhas é simples. Desde o início do processo de pacificação, em dezembro de 2008, com a criação da primeira UPP no Morro Santa Marta, no bairro de Botafogo, elas vêm perdendo território e, por consequência, poder e dinheiro.

Nesse cenário, o Comando Vermelho foi o mais atingido, com 38 comunidades retomadas por forças de segurança, dentre as quais seus principais redutos: o Complexo do Alemão e a Vila Cruzeiro, ambos na zona norte da cidade. Antes da ocupação, em 2010, o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, se referia a essas localidades como “QG do império”. Em menor escala, a ADA também viu seu poder e lucros minguarem, sobretudo com a ocupação da Rocinha, em novembro de 2011. Com o cerco se fechando, as duas facções decidiram retaliar e escolheram como alvo os policiais lotados nas UPPs. As primeiras mortes aconteceram em 2012, exatamente nos dois principais redutos das quadrilhas. Uma soldado de 30 anos foi morta em julho daquele ano com um tiro, na comunidade de Nova Brasília, parte do Complexo do Alemão. Em setembro, foi a vez de a ADA partir para o ataque, matando um soldado de 24 anos. Dias depois, um sargento foi atingido por um tiro de fuzil no Morro da Coroa. Antes da ocupação, a favela localizada na região central do Rio vivia uma rotina de guerra, com as duas facções disputando à bala o domínio territorial. Em dezembro daquele ano, em novo ataque de remanescentes do CV no Complexo do Alemão, outro soldado foi morto numa emboscada.

” NARCOTERRORISTAS “

Até então, contudo, os ataques a policiais aconteciam de forma pontual. Isso mudou em meados de 2013, quando traficantes do CV mataram dois soldados, um lotado na UPP da Cidade de Deus, em Jacarepaguá, e outro na do Parque Proletário, na Vila Cruzeiro. Os PMs assassinados eram recém-  formados, como a grande maioria dos soldados presente nas Unidades de Polícia Pacificadora. Os ataques não frearam o processo de pacificação, como esperavam os chefes do CV, dentre eles Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, e Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, que tinham no Alemão e na Vila Cruzeiro suas bases de atuação. Presos em Porto Velho (RO), eles teriam contado com o apoio de Fernandinho Beira-Mar para selar um acordo com Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, chefão da ADA, que também passou pela penitenciária federal de Porto Velho antes de ser transferido para Campo Grande (MS).

Além de matar policiais, os grupos passaram a adotar métodos para gerar intranquilidade entre os moradores das comunidades. É o que o ex-comandante da PM fluminense, coronel Erir Ribeiro, passou a classificar como “ações de narcoterroristas”. Por trás dessas ações, segundo os setores de Inteligência, estaria Beira-Mar.

O traficante já havia manifestado apreço por ataques terroristas. Antes de ser preso na Colômbia, onde vivia sob proteção das Farc, ele contratou um assassino profissional para colocar uma bomba no carro de uma promotora de Justiça do Rio. O plano foi descoberto por agentes da DEA, a agência americana de combate às drogas. Para o ex-comandante da PM, os recentes ataques às UPPs têm um forte componente de terrorismo: “Essas ações vêm apresentando um elevado grau de organização. São ataques estudados e precisos, que resultam nas mortes de jovens policiais. O objetivo é desestabilizar o processo de pacificação, levando medo aos policiais e aos moradores. Para estes, fica a sensação de que a polícia nem sequer consegue garantir a segurança dos policiais“, diz o coronel.

No fim de março, Erir Ribeiro reafirmou sua tese quando traficantes do CV deflagraram uma série de ataques simultâneos, transformando em cinzas cinco contêineres usados como base de UPPs nas favelas que integram o Complexo de Manguinhos. A ação de guerrilha urbana pegou de surpresa os policiais das cinco bases da região. Numa intensa troca de tiros, o comandante da UPP, capitão Gabriel Toledo, acabou baleado na perna direita, juntamente com dois soldados. Na ocasião, nenhum dos envolvidos nos ataques foi preso.

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Nem da Rocinha, Fernandinho Beira-Mar, Elias Maluco e Marcinho Vp (da esq. para a dir.) planejam novos ataques no rio para acontecer dias antes de a Copa do Mundo começar

COMUNIDADES SITIADAS 

A sucessão de ataques obrigou a PM a interromper o tráfego de veículos na rua Leopoldo Bulhões por mais de seis horas. Nesse período, dezenas de moradores da comunidade permaneceram na rua, impedidos de retornar às suas casas. O trecho de pouco mais de três quilômetros da via, que antes da ocupação era conhecido por “Faixa de Gaza”, corta as comunidades de Parque Arará, Mandela e Manguinhos, todas antigos redutos do CV. Além de fechar a rua, os ataques dos criminosos deixaram mais da metade da comunidade às escuras. Nem os passageiros que seguiam para a Baixada Fluminense de trem foram poupados. Pelas redes sociais não faltaram relatos de gente obrigada a deitar no chão dos vagões para escapar de balas perdidas. Tamanho risco levou a concessionária a interromper a circulação de composições naquele trecho.

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No fim de março, ataques simultâneos transformaram em cinzas cinco contêineres usados como base das upps instaladas nas favelas do Complexo de Manguinhos

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Imagens captadas durante os ataques à Rocinha apontam para a participação de homens com treinamento militar junto aos traficantes

Diante da gravidade dos ataques, o governador Sérgio Cabral decidiu recorrer ao governo federal, solicitando o envio de tropas militares para ocupar o Complexo da Maré. O conjunto de favelas é localizado num ponto estratégico, entre a avenida Brasil e as linhas Amarela e Vermelha, principais corredores de acesso ao Aeroporto Internacional Tom Jobim, na Ilha do Governador. A decisão de antecipar a ocupação da região, segundo setores de Inteligência, deve-se a informações de que novos ataques partiriam de traficantes abrigados ali. Dessa vez, porém, criminosos do CV e da ADA atuariam em conjunto, fechando a Linha Vermelha e atacando motoristas nas semanas anteriores à Copa do Mundo, que começa em 12 de junho. “Temos convicção de que os ataques sistemáticos às UPPs foram determinados pelos chefões do tráfico presos”, afirma a procuradora do Ministério Público Militar, Hevelize Jourdan, que vai coordenar o monitoramento das ações militares durante a aplicação da Garantia da Lei e da Ordem (GLO), conjunto de regras que rege o emprego das Forças Armadas em ações de segurança pública.

A procuradora aponta para um componente ainda mais explosivo que vem sendo investigado sob sigilo: a aliança entre traficantes da ADA com policiais corruptos que, em meio ao processo de pacificação das favelas, tiveram os valores da propina reduzidos. Ao contrário do CV, que prefere tratar os policiais “a chumbo”, os integrantes da ADA sempre tiveram policiais corruptos como aliados. Foi assim, pagando uma espécie de mensalão a PMs, que Nem da Rocinha se tornou um dos traficantes mais poderosos do Rio. Preso em 2011, dias antes do início da ocupação da comunidade, transformada no principal entreposto de distribuição de armas e drogas da ADA na zona sul da cidade, Nem tinha quase um batalhão em sua folha de pagamento. Mas não eram apenas PMs que embolsavam o dinheiro do tráfico. Um agente da Polícia Civil, responsável pelo planejamento de operações na comunidade, também recebia quantias mensais para manter o chefão informado sobre ações na comunidade e acabou preso. As relações promíscuas de policiais com o chefão da Rocinha não terminaram por conta de sua prisão. Há fortes indícios de que a série de ataques promovida na maior favela da cidade em meados de fevereiro contou com a participação de homens com treinamento militar.

BADIDOS DE ELITE

A suspeita se baseia em imagens captadas por duas das 80 câmeras instaladas na Rocinha. As lentes mostraram a movimentação de um grupo de traficantes que passou parte da madrugada atirando contra patrulhas da PM e destruindo transformadores de energia elétrica. Apesar da falta de qualidade, as imagens revelam um grupo típico de traficantes com bermudas largas, descalços e sem camisa circulando armados pelas ruas. Ao fundo, surgem dois homens vestidos de preto, com os rostos cobertos por toucas ninja. A postura dos mascarados, enquanto circulam próximos aos demais criminosos, remete a homens com treinamento de elite. Quem admite é o ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope), Paulo Storani. Consultor na área de segurança, ele não tem dúvida de que os dois homens que aparecem nas gravações receberam algum tipo de treinamento. “Fica clara a diferença destes dois. A forma de andar, de portar as armas e, principalmente, o emprego de máscaras. Os outros não têm essa preocupação”, afirma Storani. “O problema agora é a polícia conseguir chegar a esses dois homens. Diante dessa série de ataques às UPPs fica evidente a fragilidade dos serviços de Inteligência, que deveriam se antecipar e evitar esses ataques”, critica o ex-capitão.

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Caminhão do Bope retira contêiner destruído em Manguinhos, em ataque que feriu o comandante da UPP e deixou os moradores sem acesso a suas casas

Poucas horas depois da gravação dos ataques, o coordenador-geral das UPPs, coronel Frederico Caldas, chegou à Rocinha. Era fim da madrugada e um grupo de moradores ligado ao tráfico acabara de atear fogo em um sofá na saída do túnel Zuzu Angel, impedindo o tráfego de veículos da zona sul à Barra da Tijuca. O oficial seguiu em direção à sede da UPP, onde encontrou a major Priscilla Azevedo, comandante da unidade. Depois de assistirem às imagens, eles seguiram para a localidade conhecida como Macega, um dos trechos mais pobres da favela. Lá, o comboio liderado pelos dois oficiais acabou sendo emboscado. Por muito pouco o coronel não foi baleado na cabeça. Caldas conseguiu escapar, protegendo-se num beco. Acabou ferido no olho. A major Priscilla sofreu escoriações. Passado o susto, o oficial admitiu que a presença dos dois homens de preto em meio aos demais traficantes despertou sua atenção: “Eles atuaram como ponteiros.“ No jargão policial, significa dizer que a dupla tinha função de liderar o grupo. Caldas, no entanto, evita fazer suposições. Segundo ele, as imagens foram enviadas aos setores de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública e às polícias Civil e Militar. Para ele, apenas o trabalho de investigação vai poder responder se por trás das máscaras se escondiam mercenários a serviço do tráfico.

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