MASSACRE NO CONGO

Mais de 150 guardas florestais mortos nos últimos anos, guerrilheiros que exploram riquezas e matam gorilas para extrair suas patas, e um conflito que parece não ter fim. Estivemos no Virunga, o mais antigo e perigoso parque da África 

 

Por Yan Boechat, do parque nacional do Virunga (Congo)

 

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Ao longo dos últimos dez anos, os corpos de 15 gorilas das montanhas foram resgatados e enterrados pelos guardas florestais do Virunga

O dia começou tenso na escura, enlameada e miserável cidade de Goma, a capital da província do Kivu do Norte, no violento extremo leste da República Democrática do Congo. Era terça-feira, 15 de abril, e, desde sábado, informações desencontradas indicavam que o Nyamuragira, o menor dos dois vulcões vizinhos a essa cidade de mais de um milhão de habitantes na fronteira com Ruanda, havia entrado em erupção. De acordo com rumores, a lava já vazava da cratera, ameaçando cortar as estradas que ligam Goma às férteis terras aos pés dos vulcões, o que comprometeria o abastecimento de alimentos. Para aumentar o nervosismo que pairava no ar, no final daquela manhã chegou a notícia de que a milícia islâmica radical ADF, um dos 30 grupos armados que transformaram uma das mais ricas regiões da África no palco do maior conflito armado do mundo desde a Segunda Guerra Mundial, havia realizado um ato terrorista contra um comboio de soldados do exército congolês. Ao menos três vidas foram acrescidas à macabra conta que registra quase seis milhões de mortos nesta complexa guerra que já dura quase 20 anos.

Soldados fortemente armados controlam a estrada que liga Goma a Rumangabo, onde fica a sede do Virunga.  Após quase 20 anos de guerra , fuzis AK-47 e lanças-foguetes já são parte do cotidiano

As marcas de um conflito que já deixou mais de seis milhões de mortos em menos de duas décadas estão sempre presentes

Emmanuel de Merode havia chegado a Goma na noite anterior, após uma curta viagem para visitar a família na Bélgica. Passou o dia resolvendo problemas burocráticos. A noite já havia caído quando ele decidiu vencer os 60 quilômetros – e as quase duas horas de viagem em uma esburacada estrada formada por restos de lava – que separam Goma do vilarejo de Rumangabo, a sede do Parque Nacional do Virunga, o mais antigo dos grandes parques africanos e casa de quase metade da população remanescente dos gorilas das montanhas, os maiores primatas do mundo e que só são encontrados nessa região da África. De Merode, um príncipe belga que, há seis anos, assumiu a árdua tarefa de ser o responsável por conservar esse paraíso encravado no caos, decidiu ignorar tanto a erupção que se anunciava quanto os riscos de se viajar à noite em uma área tão perigosa. Sua intenção era acordar cedo no parque e dar continuidade ao trabalho de treinamento de novos guardas florestais. Na quinta-feira, dois dias depois, ele tinha uma entrevista marcada com a reportagem de Status. Mas não deu tempo.

Da estrada, em uma noite clara e de lua cheia como aquela, é possível ver a fumaça sempre colorida de vermelho pelo reflexo da lava que borbulha na cratera dos vulcões que compõem o horizonte de Goma, o Nyamuragira e o imponente Nyiragongo, que destruiu parte da cidade com uma grande erupção em 2002. De Merode, entretanto, não conseguiu admirar o espetáculo. Pouco tempo após entrar na zona rural dessa região desprovida de luz elétrica, água encanada ou do mais rudimentar sistema de saneamento básico, três homens surgiram à frente de seu carro e abriram fogo contra ele com fuzis AK-47. Ele recebeu cinco balas calibre 7.62. Uma no peito, duas no estômago e duas nas pernas. Ainda assim, sabe-se lá como, conseguiu sair do veículo, esconder-se em uma vala e chamar a atenção de um homem que passava pelo local, minutos depois do ataque. Levado ao hospital, De Merode foi operado por médicos da ONU e, logo em seguida, transferido para Nairobi, a capital do Quênia. Cinco dias após ser baleado, o príncipe belga, que optou por dedicar a vida para proteger o parque, enviou uma nota oficial agradecendo a todos que salvaram sua vida e informando que estava ansioso para voltar ao trabalho. “Infelizmente, esse não é um incidente raro no Virunga”, escreveu ele. “Nossos guardas florestais têm sido alvos constantes.”

 

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Soldados fortemente armados controlam a estrada que liga Goma a Rumangabo, onde fica a sede do Virunga. Após quase 20 anos de guerra , fuzis AK-47 e lanças-foguetes já são parte do cotidiano

 

PATAS DE GORILAS

De Merode teve sorte. Ao longo das últimas duas décadas, mais de 150 dos guardas florestais comandados por ele não desfrutaram do mesmo destino. A conta de “rangers”, como são chamados os fiscais do parque, que perderam a vida em serviço para salvar os gorilas cresce de forma permanente desde o início dos sucessivos conflitos que devastaram o leste do Congo após o genocídio que deixou quase um milhão de pessoas da etnia tutsi mortas em Ruanda. No Virunga, quase todos morreram pelas balas disparadas pelos fuzis Kalashnikov, uma arma que de tão comum nessa parte do mundo parece estar absolutamente integrada ao cenário congolês. Hoje, com uma nota de US$ 50 na mão, compra-se, com facilidade, um AK-47 nas ruas de Goma.

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São cerca de 700 “rangers” os responsáveis por fiscalizar e combater os invasores do Virunga. Todos carregam um AK-47

No Virunga, são quase 700 rangers, todos armados com o famoso fuzil criado na antiga União Soviética. Mesmo com o armamento, que inclui também RPGs (Rocket Propelled Grenade) e metralhadoras calibre 0.50, os rangers não têm conseguido deter inteiramente os grupos armados que invadem o parque para explorar suas imensas riquezas, que vão desde o marfim dos elefantes que o habitam, passando pelas densas florestas que são derrubadas para serem transformadas em carvão, até as patas dos gorilas gigantes, vendidas por pequenas fortunas a milionários chineses que acreditam estar diante de uma espécie de símbolo mágico de poder. Mas a matança de gorilas se deve, sobretudo, à demanda por esse tipo de carne na África. De acordo com a organização não governamental World Wide Fund for Nature (WWF), é difícil saber exatamente o número de gorilas mortos, já que muitas vezes seus corpos são escondidos. No entanto, no Virunga, 15 corpos de gorilas assassinados foram recuperados e enterrados pelos rangers nos últimos dez anos. Parece pouco, mas não é:  para uma espécie com baixa taxa de reprodução, como os gorilas, qualquer perda é extremamente significativa. “É uma tarefa arriscada, mas que precisa ser feita”, diz David Nezehose, um jovem ranger que iniciou sua carreira como fiscal do Virunga e já viu um colega ser morto em uma emboscada em janeiro.

Mais do que o lar de boa parte dos cerca de 600 gorilas das montanhas que ainda existem no planeta, o Virunga é o mais antigo e o mais diverso dos parques naturais africanos. Seus cerca de 7,8 mil quilômetros quadrados guardam áreas tão distintas quanto densas florestas tropicais, savanas tipicamente africanas, os maiores lagos de lava do mundo, além de montanhas com altitude superior a quatro mil metros, topos cobertos de neve e, é claro, de cerca de oito vulcões, sendo dois deles ativos. Uma vastidão de animais habita essa gigantesca área de conservação que abrange parte dos grandes lagos africanos, como o Lago Edward, e que faz fronteira tanto com Uganda quanto com Ruanda, países que também abrigam os poucos gorilas das montanhas ainda existentes. Hoje, estima-se que 20% de toda a população de hipopótamos do mundo, por exemplo, viva no Virunga, assim como mais de 720 espécies de pássaros, elefantes e o ocapi, o excêntrico animal que parece uma mistura de zebra e girafa. “Há uma enorme variedade de animais que interessam aos caçadores e estamos buscando todas as maneiras de impedir que eles continuem com a matança”, diz Marlene Zähner, especialista suíça em treinamento de cães para regaste, que montou uma unidade canina de combate aos caçadores no Virunga. “Estamos treinando os animais há dois anos e agora eles estão prontos para entrar nessa guerra em defesa do parque”, diz ela.

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O Virunga é o parque mais antigo da África e abriga quase metade da população remanescente de gorilas das montanhas do mundo

O grupo de soldados fortemente armados que patrulha a entrada do vilarejo de Rumangabo faz os visitantes lembrarem-se, também, que em meio a toda essa exuberância convivem o horror e a barbárie de uma das guerras mais letais da história. A forte presença militar está em toda parte, dentro e, principalmente, fora do parque. Na estrada que liga Goma ao Virunga existem inúmeros check-points militares e uma infinidade de sentinelas armados na beira dessa que um dia já foi uma importante rodovia ligando a capital da província do Kivu do Norte à fronteira com Uganda e o Sudão do Sul. Hoje, a N2 é um caminho esburacado e escuro por conta dos restos de lava que compõe o terreno. Ao longo de toda a estrada, pequenas comunidades agrícolas se aproveitam das terras férteis da base dos vulcões para produzir toda sorte de vegetais que vão alimentar Goma. São agricultores que ainda não fazem uso de qualquer maquinário para trabalhar a terra, para semear ou para colher. Não há, também, uso de fertilizantes ou agrotóxicos nessa região isolada da África.

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CAMPO DE BATALHA

E é fácil entender a razão. O Virunga, que se manteve fechado aos turistas nos últimos dois anos – foi reaberto em fevereiro – por questões de segurança, está no centro de uma guerra. Hoje, mais de dez grupos armados permanecem instalados dentro do parque, saqueando seus recursos naturais a fim de financiar suas causas políticas. Há desde o antigo exército ruandês – o principal responsável pelo genocídio de 1994 –, que se transformou em uma milícia, passando por radicais islâmicos, até simples comerciantes de marfim ou peles de animais.  “Só no mercado de carvão produzido dentro do parque são movimentados US$ 35 milhões por ano e outros US$ 30 milhões apenas com a pesca ilegal”, diz Jean Baptiste Roelens, diretor da WWF no Congo. Jean é um francês que se mudou há pouco para o Congo. Hoje ele vive em Kinshasa, a capital desse imenso país com mais de 65 milhões de habitantes e dono do menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos 186 países do mundo. Jean escolheu viver no Congo para tentar defender o Virunga de sua mais nova ameaça: a exploração de petróleo. Neste mês, a companhia inglesa Soco iniciou os estudos sísmicos de uma ampla área do parque. A empresa recebeu o direito de prospectar óleo em cerca de 80% do território do Virunga e está esperançosa em encontrar riquezas semelhantes às descobertas em uma área vizinha em Uganda. “Eles garantem que não irão atuar na área dos gorilas das montanhas, mas, mesmo assim, a exploração de petróleo em uma área tão sensível como essa pode ser ainda mais desestabilizadora, além de ser contra a lei, já que estamos falando de um patrimônio mundial da humanidade”, diz ele.

O príncipe Emmanuel de Merode se tornou diretor do Virunga em 2008 e até ser baleado, em abril, raramente se ausentava do parque

O príncipe Emmanuel de Merode se tornou diretor do Virunga em 2008 e até ser baleado, em abril, raramente se ausentava do parque

A WWF, em parceria com outras organizações ambientais, como o Greenpeace, e governos como o da própria Inglaterra, da Bélgica, Alemanha e o Parlamento Europeu, está em uma campanha aberta e agressiva para tentar pressionar a Soco a desistir do Virunga. A companhia, no entanto, parece determinada a dar continuidade ao projeto de encontrar petróleo no parque. Nezehose, o jovem congolês que acabou de se tornar um ranger no Virunga , não tem armas para enfrentar a gigante britânica. Mas, garante ele, os demais inimigos do parque estarão sob sua mira daqui para a frente. “Nós não desistimos, vamos atrás deles”, dizia ele apenas dois dias antes de De Merode quase ter perdido a vida na emboscada na estrada entre Goma e Rumangabo. Apesar de só ter entrado agora para o exército particular do parque, Nezehose está acostumado a toda violência que transformou esse pedaço do mundo em um constante campo de batalha. Na verdade, para quem vive por aqui, não há quem não esteja. Sejam eles soldados, príncipes ou gorilas.

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Na sede do Virunga foi criado um cemitério para os gorilas assassinados que tiveram os corpos resgatados. Na mesma área, gorilas órfãos (à esq.) são criados por funcionários do parque

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