BEZOS ANDA SORRINDO

O homem que criou a Amazon, a maior varejista online do mundo, também quer fazer entregas com drones na sua janela, acabar com as compras em supermercados e levar pessoas para a Lua. Conheça o empresário que inspira até Barack Obama

 

Por Rodrigo Caetano

 

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Jeff Bezos, dono de uma gargalhada que faz lembrar Louis Skolnick, o folclórico membro da fraternidade “Lambda, lambda, lambda” interpretado por Robert Carradine no clássico filme A vingança dos nerds (1984), queria encontrar um modo de conquistar mulheres. Introspectivo, mas brilhante, e, naquela década de 90, ainda solteiro, o americano adaptou uma fórmula usada no sistema financeiro para medir a sua chance com as garotas, no que chamou de “fluxo de mulheres”. Isso consistia em impulsionar a sua rede de contatos – novas oportunidades disponíveis – com a ajuda de aulas de dança de salão. Para tudo ele usava metodologia, tanto nas relações profissionais como nas pessoais. Bezos acabou encontrando sua esposa no ambiente de trabalho, longe dos sistemas analíticos e de todos os prognósticos que havia feito. Mas a afeição por dados e inovações se mantém mais firme do que nunca. Aos 50 anos de idade, o fundador da Amazon – maior varejista online do mundo, com vendas anuais de US$ 74,45 bilhões, e dono da 18a maior fortuna do mundo, com US$ 31 bilhões – está obcecado em fazer parte da vida das pessoas durante cem por cento do tempo.  “Coloque o consumidor em primeiro lugar, invente e seja paciente”, costuma dizer Bezos.

Não à toa hoje a Amazon é um colosso que abraça toda a internet. A cada segundo, mais de 300 produtos são comprados no site, por alguns de seus cerca de 150 milhões de clientes. Isso significa que a companhia movimenta US$ 140 mil por minuto. Sua força, aliás, não se resume às vendas online. Na verdade, é praticamente impossível não estar, de alguma forma, conectado a ela. Um terço de todos os usuários da internet, por exemplo, passa por seus centros de dados todos os dias. Seus serviços de computação em nuvem, o Amazon Web Service (AWS), hospedam mais de 500 mil servidores de empresas, como o Netflix, de filmes online; Nasdaq, a bolsa de valores americana; e órgãos governamentais como a CIA, o serviço secreto de informações dos Estados Unidos. E ela está apenas começando.

Da cabeça inventiva de Bezos saem ideias que, até pouco tempo atrás, pareciam apenas devaneios futuristas. Robôs voadores que fazem entregas na sua janela? Sim, a Amazon está prestes a lançar. Fazer compras pela internet sem usar um computador? Hoje é possível. “São poucos os empreendedores que conseguem enxergar potencial em algo que ainda não existe”, afirma Naldo Dantas, secretário – executivo da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei). “Investir em uma ideia desse tipo, então, é quase impossível.” Não para Bezos. Quando fundou a Amazon, em 1994, vendendo exclusivamente livros, a internet ainda era uma rede restrita a nerds e profissionais de informática. Abrir uma loja online era algo que quase ninguém considerava. Ele não só apostou na ideia, como elaborou um plano de longo prazo.

Após se consolidar no mercado de comércio eletrônico, a varejista se lançou em uma série de setores praticamente virgens. Em 2007, lançou o Kindle, primeiro leitor de livros eletrônicos, que revolucionou o mercado editorial americano. Hoje, são vendidos mais livros eletrônicos do que de papel. Mas foi em 2006 que Bezos realmente surpreendeu ao lançar a AWS. A inovação de Bezos revolucionou o mercado de tecnologia da informação ao oferecer a pequenas empresas e empreendedores individuais a mesma estrutura usada por grandes companhias multinacionais, por uma fração do preço. Sem precisar comprar uma única máquina, qualquer pessoa pode entrar no site da AWS e configurar um servidor em segundos. Não é exagero dizer que, sem o serviço da Amazon, muitas das empresas digitais que hoje valem bilhões de dólares nunca teriam existido. É o caso do Instagram. Desde o começo, o brasileiro Mike Krieger e o americano Kevin Systrom, criadores da rede social, comprada pelo Facebook por US$ 1 bilhão em 2012, utilizaram a nuvem da Amazon para desenvolver o aplicativo. É o caso também de sites como o Airbnb, de aluguel de quartos e apartamentos para temporada, avaliado em US$ 10 bilhões.

 

COMPRAS SEM ESFORÇO

Mas à medida que tem criado oportunidades, Bezos tem colecionado inimigos. Sua mais recente novidade, o Amazon Dash, inclusive, tem potencial para reunir uma série de oponentes poderosos no mercado varejista. O aparelho, que parece um controle remoto, lê o código de barras de qualquer produto e envia as informações para a Amazon. Imediatamente, a companhia registra o pedido e ordena a entrega na casa do cliente – em alguns casos, no mesmo dia. Trata-se de um supermercado portátil. Imagine o seguinte: você acabou de tomar o último copo de leite. Em vez de anotar na lista de compras, simplesmente aponta o Dash para ele, que a Amazon entrega. Ou imagine que está andando na rua e vê um produto que te interessa. Basta apontar o Dash, que ele já estará no seu carrinho de compras. A Amazon também lançou um aplicativo para iPhone que funciona da mesma maneira. Nesse caso, nem é preciso ler o código de barras. O Flow usa a câmera do celular para reconhecer os produtos pela embalagem. “Seria ótimo não usar o teclado do celular nunca mais”, afirmou Paul Cousineau, diretor de mobilidade da companhia, ao site americano Recode. “O objetivo é fazer nossos clientes irem do ‘eu quero’ para o ‘eu comprei’ em menos de 30 segundos.”

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O Amazon Web Service, serviço de computação nas nuvens, hospeda servidores de 500 mil empresas, como o Netflix e a Nasdaq, e de órgãos governamentais, como a CIA

Para viabilizar o negócio, Bezos decidiu investir na própria rede de logística. Desde o ano passado, a Amazon testa o uso de veículos aéreos não tripulados, os chamados drones, para entregar produtos. A estimativa é concluir os trabalhos em até cinco anos. O maior obstáculo, na verdade, não é técnico. O problema está na regulamentação do espaço aéreo e em questões relacionadas à privacidade das pessoas. O voo mais alto do empresário, no entanto, deve acontecer fora da internet. Ele é o fundador da Blue Origin, startup que explora o mercado comercial de voos espaciais. No final do ano passado, a empresa anunciou a criação de um serviço “expresso” de envio de cargas em voos suborbitais, que chegam a até 100 km de altura. A ideia é oferecer a possibilidade de empresas e pesquisadores enviarem materiais ao espaço a um custo baixo, sem esperar meses por um espaço em uma plataforma de lançamento de foguetes. “Nós vamos pegar a carga na sua garagem, fazer a contagem e lançar”, afirmou Erika Wagner, gerente de negócios da companhia. “É isso, encher o tanque e partir.” Os planos de Bezos são ainda mais ousados. Assim como o sul-africano Elon Musk, dono da SpaceX, concorrente da Blue Origin, ele quer levar pessoas ao espaço e conquistar outros planetas. “Empresas como a Blue Origin e a SpaceX conseguem inovar em um ritmo muito acelerado”, afirma o professor brasileiro Nilton Rennó, chefe do departamento de ciências espaciais da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. “Elas não têm a burocracia de uma entidade governamental.”

 

INTERESSES POLÍTICOS 

Alguns movimentos de Bezos, porém, ainda não são bem compreendidos. No ano passado, ele fechou a compra do jornal Washington Post, que enfrentava problemas financeiros, por US$ 250 milhões. Em sua primeira intervenção como dono de um dos jornais mais influentes dos Estados Unidos, o dono da Amazon autorizou novos investimentos. A publicação contratará mais jornalistas e o número de páginas vai aumentar. O que o bilionário pretende fazer no setor ainda é incerto. Mas o fato é que Bezos tem uma agenda política intensa. Em 2012, o dono da Amazon doou US$ 2,5 milhões para a campanha de defesa do casamento gay no Estado de Washington. Uma semana antes de Bezos fechar a compra do Washington Post, o presidente americano, Barack Obama, visitou o centro de distribuição da Amazon em Chatanooga, no Tennessee. Obama, inclusive, já usou a varejista online como exemplo de eficiência. Ele afirmou que gostaria de ver o site do ObamaCare, plano de saúde público criado em seu governo, ser tão simples quanto “comprar uma tevê na Amazon.” É de se perguntar até onde Bezos pode e quer chegar. A julgar pela sua trajetória, bem longe.

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Na foto, o centro de distribuição da Amazon, no País de Gales. Este é um dos 50 endereços da companhia no mundo

Logo após se formar em Princeton, em 1986, o jovem Bezos foi trabalhar para alguns bancos de investimentos. Passou pelo Bankers Trust e pelo Merril Lynch, onde teve sua primeira experiência em uma startup. Junto com outro funcionário do banco, Halsey Minor – que mais tarde fundaria o CNET, um dos maiores sites de notícias de tecnologia dos Estados Unidos –, Bezos investiu seu tempo livre em um serviço que enviava informativos personalizados via fax. O negócio acabou depois que o Merril Lynch resolveu cortar o financiamento. Na época, o fundador da Amazon já era considerado um profissional metódico e ambicioso.

 

GARGALHADAS IRÔNCAS

A grande oportunidade de sua vida chegaria na década de 1990. Bezos andava frustrado com o mercado financeiro e pensava em abrir seu próprio negócio. Quando estava a ponto de largar tudo, conheceu uma pessoa que classificou de sua alma gêmea profissional: David Shaw. Alguns anos antes, Shaw havia criado um fundo de investimentos chamado D.E. Shaw. O diferencial da empresa era o uso de computadores e fórmulas matemáticas para tomar decisões sobre investimentos. Bezos trabalhou quatro anos para Shaw. Nesse período, conheceu Mackenzie Tuttle, a mulher com quem se casaria, uma aspirante a escritora que se tornaria a mãe de seus quatro filhos e a primeira contadora da Amazon. Ele também conheceu algo que mudaria sua visão do mundo dos negócios: a internet. Em 1994, Bezos decidiu abandonar seu emprego para fundar uma livraria online, a Cadabra. Como o nome não agradava a ninguém, ele decidiu procurar uma palavra melhor no dicionário. E assim nasceu a Amazon.

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Uma das características mais marcantes do empresário é a sua risada. Bezos costuma soltar sua sonora gargalhada mesmo sem motivo. Algumas vezes, no entanto, o tom pode ser irônico. Ele costuma rir quando é apresentado a ideias com as quais não concorda. A questão é que, na maioria dos casos, ele está certo. Uma vez, o então vice-presidente de suprimentos da Amazon, Bruce Jones,  apresentava um plano para melhorar a movimentação de cargas nos 50 armazéns que a Amazon possui ao redor do mundo. Antes que pudesse finalizar seus argumentos, ouviu do chefe uma longa gargalhada e um sonoro “vocês estão errados.” Em seguida, teve de ver Bezos, que não tinha nenhuma experiência no assunto, refazer todo o projeto em uma lousa. “Eu gostaria muito de provar que ele estava errado”, afirmou Jones, em depoimento ao jornalista e escritor Brad Stone, autor do livro A loja de tudo: Jeff Bezos e a era da Amazon. “Mas ele estava certo.”

O que pouca gente sabe é de quem Bezos herdou sua famosa risada. O empreendedor nasceu em Albuquerque, no Estado do Novo México, nos Estados Unidos, como Jeffrey Preston Jorgensen. Seu pai biológico, Ted Jorgensen, era um renomado artista circense, integrante de uma trupe de monociclistas, mas que sofria de alcoolismo. Quando tinha 3 anos, sua mãe, Jacklyn Gise, separou-se de Ted para casar com Miguel Bezos, um imigrante cubano que dava seus primeiros passos no mercado de petróleo, atuando como engenheiro da Exxon. Os três se mudaram para Houston, iniciando uma vida confortável, mas praticamente nômade, que levou a família para diversos Estados americanos, para países da Europa e da América do Sul. Foi somente em 2012, quando Stone conseguiu localizar Ted trabalhando em uma pequena oficina de bicicletas, em Phoenix, no Arizona, que ficou claro de onde Jeff Bezos tirou sua marcante gargalhada. “Jeff tem a mesma risada de Ted”, afirmou Darin Fala, enteado de Ted. Mas Bezos tem muito mais motivo para rir à toa.

 

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