EIKE ANDA SÓ

Visitas a um vidente que se diz a encarnação de um dos reis magos, xícaras leiloadas para sanar dívidas, viagens em avião de carreira, medo de apanhar na rua e o cerco da polícia federal. Status conta detalhes da fase “pobre” do ex-magnata

 

 Por Eugênia Lopes, do Rio de Janeiro

 

 

STATUS 36 - PERFIL

“Eu avisei que ele ia perder muito dinheiro. Ele não acreditou, dizendo que tinha o suficiente para bancar até sua quinta geração.” O alerta partiu não de alguém ligado aos negócios da empresa, mas sim do mago Ubirajara, vidente do Rio de Janeiro, famoso por atender celebridades, atletas, políticos e empresários, entre eles Eike Batista. Era janeiro de 2013 e o dono do grupo EBX já vinha sofrendo alguns baques nos negócios, mas nada comparado à avalanche de más notícias que meses depois levaria as ações do grupo a uma queda sem volta. O mago, que garante ser a reencarnação de Gaspar (um dos três reis magos), conta que previu a derrocada financeira assim que o empresário sentou-se a sua frente. “Ele riu, claramente não levando meu comentário a sério”, conta Ubirajara, que cobra R$ 100 por uma consulta de 40 minutos. Na sala do casarão no bairro de Botafogo, zona sul carioca, uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida com quase dois metros de altura chama a atenção, assim como uma estátua do diabo e dezenas de garrafas de espumante espalhadas pelo ambiente. Na parede, uma foto cuidadosamente emoldurada mostra Eike Batista ao lado de sua ex-mulher, a estonteante Luma de Oliveira, em um camarote de Carnaval anos atrás. Questionado se o ex-bilionário ainda tem aparecido ali, o Mago desconversa: “Não tenho culpa se há fotógrafos na minha porta”, diz ele, referindo-se à notícia de que o empresário teria procurado por seus conselhos espirituais meses depois, quando já se encontrava no olho do furacão. Tarde demais para um milagre. As visitas de Eike Batista à Casa do Mago são um dos poucos hábitos remanescentes da época de vacas gordas. Mesmo depois da debacle financeira, o empresário mantém aceso seu lado místico de assíduo frequentador de mesas de videntes e jogadores de búzios. O empresário nunca escondeu seu lado supersticioso. Na década de 90, viajou até Cusco, no Peru, para encontrar uma vidente que leu seu futuro nas folhas de coca (conta-se que o ex-bilionário usou as informações para guiar seus investimentos). Mas, se Eike continua fiel a suas crenças místicas, o mesmo não se pode dizer de seus hábitos mundanos. Fundador de um conglomerado de empreendimentos nas áreas de petróleo, mineração, energia, construção naval e logística, o empresário hoje leva uma vida discreta, bem longe dos holofotes. Uma mudança e tanto para alguém que um dia foi considerado um dos personagens mais influentes do mundo dos negócios, mencionado em livros como World changers, do jornalista e ex-editor da revista Forbes John A. Byrne. Publicada em 2011, a obra coloca Eike na mesma categoria de empreendedores como Bill Gates, da Microsoft, e Jeff Bezos, da Amazon. Ninguém poderia imaginar que, em apenas dois anos, Eike sairia do céu para o inferno.

O mago Ubirajara, consultor espiritual de Eike

O mago Ubirajara, consultor espiritual de Eike

De sétimo homem mais rico do mundo, em 2012, com uma fortuna avaliada em US$ 30 bilhões, ele viu essa cifra despencar para cerca de US$ 300 milhões no início do ano, segundo a revista Forbes. Hoje, o rombo é muito maior: pelas contas da agência de notícias Bloomberg, seu patrimônio já estaria negativo em US$ 1,2 bilhão.Eike tenta demonstrar firmeza, mas um império derretido em tão pouco tempo acaba exercendo um forte impacto sobre a rotina de qualquer um, especialmente se essa pessoa é um exibicionista patológico, a ponto de deixar-se fotografar em sua mansão ao lado de uma Mercedes de US$ 1,2 milhão estacionado no meio da sala. Diante dos percalços e da nova realidade, o empresário que um dia sonhou ultrapassar Bill Gates no ranking da fortuna está abatido e até deprimido, segundo alguns amigos. “A família está preocupada”, conta uma pessoa próxima. Mesmo assim, garantem que o ex-bilionário tem esperança de equacionar as dívidas do grupo, que chegam a R$ 23 bilhões. PROCURA-SE Não é de se estranhar que Eike tenha sumido das colunas sociais e optado por uma vida de quase reclusão monástica. A corrida matinal ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas, a parada para um suco natural em uma lanchonete no Leblon, as idas a Brasília para se encontrar com políticos, tudo isso está fora da agenda. Nem mesmo para trabalhar Eike tem aparecido mais: achá-lo nos escritórios da empresa está cada vez mais raro. Até a Justiça tem tido dificuldades para localizá-lo. Em fevereiro, uma oficial de Justiça teve de devolver uma intimação à Justiça Federal depois de duas tentativas frustradas de entregar ao empresário o documento, referente a uma das ações movidas contra ele por acionistas minoritários. Na primeira tentativa, foi informada por um vigia que a casa estava fechada e que Eike havia se mudado para uma outra casa, na mesma rua, no bairro do Jardim Botânico. Chegando lá, disseram que o empresário havia viajado, sem previsão de retorno. O escritório de advocacia Jorge Lobo, que atua em defesa dos minoritários, teve de incluir o endereço comercial de Eike na intimação para aumentar as chances de encontrá-lo. Até mesmo os comentários no Twitter foram suspensos: com mais de 1,3 milhão de seguidores e assíduo usuário da rede social nos tempos de sucesso, há um ano Eike não escreve nem uma linha na ferramenta virtual, assim como não dá mais entrevistas, incluindo para esta reportagem. Procurado por Status, o empresário não retornou. “Ele sumiu”, resume Luciano Santos, que costumava vender água de coco para o ex-bilionário após seus joggings, na Lagoa, levando gorjetas de R$ 50. Com a derrocada de suas empresas, Eike viu-se obrigado a se desfazer de parte de seu patrimônio. Além da famosa Mercedes qua mantinha dentro de casa (a mesma que seu filho Thor dirigia na noite em que atropelou e matou um ciclista de 30 anos), o empresário já passou para a frente dois jatinhos, um helicóptero e seu luxuoso barco, o Pink Fleet, que era alugado para eventos na Baía de Guanabara. No final do ano passado, foi flagrado no Aeroporto Internacional do Rio despedindo-se de sua mulher, a advogada Flávia Sampaio, quando esta se preparava para embarcar para Miami em um voo comercial. O assento era na classe executiva – um luxo para a maioria dos mortais, mas certamente um baque para uma família acostumada a voar em uma aeronave privada, com quatro ambientes e capacidade para 18 pessoas.

 

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Nos tempos áureos, Eike fazia questão de exibir suas conquistas, como a Mercedes McLaren que mantinha estacionada na sala de sua casa

MESA NO CANTO

O empresário também reduziu drasticamente seu séquito de seguranças, que no auge chegou perto de duas dezenas, e hoje é de seis homens. Teatro, cinema, festas, nem pensar. Para ele, a noite carioca se resume a jantar em seu próprio restaurante, o Mr. Lam. “É o porto seguro do Eike. Por isso ele ainda continua indo lá”, diz um amigo. Apaixonado por comida chinesa, Eike investiu R$ 8 milhões em um suntuoso restaurante às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, com 49 mesas espalhadas por três andares. É ali que ele é visto com certa frequência, mas, ainda assim, com mudanças de hábito. Antes, era comum vê-lo acompanhado por convidados em uma mesa para dez pessoas, no centro do salão. Hoje, o empresário se contenta com uma mesa mais discreta, para quatro, encostada na janela. Apesar de tudo, ainda é visto cumprimentando clientes e até pagando a conta de alguns ilustres – como aconteceu recentemente, quando o jogador Ronaldo Fenômeno e seus companheiros de mesa tiveram as despesas no restaurante abonadas pelo dono. A queda de Eike levou à paralisação de projetos importantes, como as obras do estaleiro do Porto Açu, na região norte do Estado do Rio, e de restauração do tradicional Hotel Glória, que o empresário pretendia transformar em um dos dez melhores hotéis do mundo e acabou sendo vendido para um grupo suíço. Os investimentos de R$ 100 milhões nas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em favelas cariocas e de R$ 13 milhões por ano no time de vôlei RJX também foram interrompidos. E nem adianta apelar ao governo federal. De queridinho dos governos Lula e Dilma Rousseff, Eike passou a ser ignorado pelo Palácio do Planalto. Em março do ano passado, quando alguns sinais de problemas em torno de Eike começaram a surgir, o governo iniciou um verdadeiro plano de blindagem para isolar o empresário e, assim, evitar qualquer pedido de ajuda financeira. Até mesmo encontros casuais com a presidenta Dilma passaram a ser evitados. Foi assim, em meados de 2013, quando a presidenta preferiu não comparecer à inauguração da Zona de Processamento de Exportação (ZPE), no Ceará. Uma das empresas de Eike fazia parte do projeto e sua presença era dada como certa.

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Ao lado da presidenta Dilma Rousseff, em 2012, em evento no Porto do Açu. O complexo foi vendido no ano passado

A guinada do exibicionismo à reclusão tem seu motivo: o medo de ser achincalhado publicamente ou até de sofrer agressões físicas de acionistas que perderam suas poupanças por terem investido nos negócios de Eike Batista. “Ele morre de medo de sair na rua e ser agredido por um deles”, diz um ex-funcionário. “Me sinto traído pela promessa de lucro inalcançável”, diz o investidor Luciano Lima, 40 anos, funcionário da Prefeitura do Rio que perdeu R$ 80 mil. No mês passado, os papéis da OGX eram negociados a menos de R$ 0,25, bem distante do pico de R$ 22,  valor negociado em  outubro de 2010. As razões que levaram a esse declínio histórico ainda não estão totalmente claras, com fatos novos vindo à tona a cada dia, mas há consenso de que Eike prometeu demais. Negócios envolvendo a exploração petrolífera são naturalmente arriscados, mas os erros nas previsões da ex-OGX (que atualmente se chama OGPar e se encontra em recuperação judicial), braço petroleiro do grupo, estão fora de qualquer margem de erro. Um exemplo é o do campo de Tubarão Azul, na Bacia de Campos: em 2012, a OGX anunciou um volume de petróleo recuperável (que pode ser extraído com lucro) de 110 milhões de barris naquela região. Um ano depois, o volume já havia sido revisto para 43 milhões de barris. Depois de alguns meses desativado, o campo voltou a testes, mas corre o risco de fechar de vez.

Plataforma de petróleo do campo de Tubarão Azul, prestes a ser desativado.

Plataforma de petróleo do campo de Tubarão Azul, prestes a ser desativado.

Além de ter que conviver com o fantasma da dívida e com a animosidade de acionistas, Eike agora terá de lidar com a Polícia Federal. Um inquérito aberto no mês passado, a pedido do Ministério Público, coloca o ex- magnata como suspeito em crimes de lavagem de dinheiro, informação privilegiada e manipulação de mercado, esse último sujeito a pena de um a oito anos de prisão. “No início muita gente pensava que o problema era de má gestão, mas hoje está claro que estamos diante de um caso de fraude”, diz o economista Aurélio Valporto, um dos acionistas que resolveram recorrer à Justiça para reaver seu dinheiro. Indícios de crime, de fato, não param de surgir. Uma investigação feita pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) concluiu que Eike vendeu uma grande quantidade de ações da OGX poucos meses antes de a empresa anunciar a inviabilidade de vários de seus poços. Ao mesmo tempo, o empresário usava sua conta no Twitter para incentivar investidores a apostar em suas ações. Diante de uma maré dessas, difícil imaginar um mago que dê jeito. STATUS 36 - PERFIL     ­STATUS 36 - PERFIL