MALABARISTAS DO SEXO

Como Felipão, arvorando-se em bedel do sexo alheio, pretende controlar o grau de malabarismidade de uma trepada do Neymar?

 

Por Reinaldo Moraes

 

 

STATUS 36 - PORNOPOPEIA

Sexo? Normal. Sexo normal? Aí a coisa se complica. Pra começar, o que seria o sexo anormal? Tirando pedofilia e toda forma de estupro e de práticas não consentidas na relação, pra mim pouco se me dá, por exemplo, se algum necrófilo gerontófilo incestuoso passou uma noite de amor carnal com a recém-falecida vovozinha dele. No máximo, eu evitaria dar a mão pro sujeito antes que ele tomasse um banho com algum bactericida poderoso.

Essa velha questão do que é normal, do que não é, em matéria de sexo, rebrotou na minha cabeça – a de cima, naturalmente – depois de ler o que o Felipão Scolari, o técnico da seleção brasileira de futebol, disse numa coletiva, mês passado, em Lisboa. Ao ser perguntado se ia liberar o sexo pros jogadores na concentração, Felipão mandou ver: “Se for sexo normal, sim. Se for normal, é normal, não é lá em cima no telhado. Normalmente, o sexo normal é feito de forma equilibrada, mas tem algumas formas, alguns jeitos, e outras pessoas que fazem malabarismo. Isso aí não.”

A galera presente à entrevista se espandegou de rir. Parecia texto da velha Praça da Alegria, pré-sitcom televisivo dos anos 60, com uma malícia algo ingênua e absurdete. Aquela insistência pleonástica no normal e na normalidade e a interdição do “malabarismo” sexual são mesmo hilariantes. Se for ver, há muito mais sacanagem nessas palavras, pelo que ocultam e sugerem, do que haveria numa conversa de boteco entre bêbados versando sobre sexo. Afinal, que pessoas eram aquelas que faziam “malabarismo,” segundo Scolari? E que malabarismos seriam esses? E o que, por Nossa Senhora da Aparecida, seria normal e o que seria anormal numa trepada?

E a pergunta que não quer calar: como Felipão, arvorando-se em bedel do sexo alheio, pretende controlar o grau de malabarismidade de uma trepada do Neymar, por exemplo? (Cito o Neymar porque é o único nome que eu conheço da atual seleção, pra você ver o quão purfa eu sou da futebolândia.) Já vejo o homem irromper no quarto do atacante quando o garotão está prestes a atacar sua parceira pulando de cima do armário ou do lustre com a pila em riste: “Desce já daí, Neymar! Sem malabarismos, cazzo! Olha, eu vou te mostrar como se faz sexo normal e equilibrado aqui com a sua namoradinha. Com licença, moça… não leve a mal… minhas intenções são puramente… hummm… didáticas. Fica olhando, Neymar. É assim que se faz, ó…”

Tá certo. O treinador tem que dar o exemplo.

Claro que a imprensa e a internet em peso deitaram e rolaram no episódio. Os humoristas, então, se esmeraram, tirando rios de verve instantânea das manguinhas de fora. O sempre atento e afiado Xico Sá cravou no mesmo dia: “Sexo pode. Ufa! Felipão adverte apenas contra os ‘malabarismos’. Os bambuais do Kama Sutra, o mais antigo livro do gênero,  nem pensar, amigo. A posição do canguru perneta, vixe, esquece (…)”.

Posição do canguru perneta? Confesso certa preguiça de ir procurar isso no Kama Sutra. Como será que se diz “canguru perneta” na língua híndi?

Tutty Vasques veio com essa no seu blog: “Felipão liberou a seleção para a prática de sexo ‘sem malabarismos’ durante a Copa do Mundo! Isso talvez queira dizer o seguinte: Cada atleta só poderá levar uma bola de cada vez para o quarto na concentração!”.

Opa: será que trepar com as duas bolas já seria malabarismo? E se algum atleta, reprisando a façanha do Ronaldo Fenômeno em 2008, resolver levar três travecos pro quarto? Aí já seriam oito bolas, contando com as do jogador. Muito malabarismo, sem dúvida, e muito pouco normal, como suponho que diria o mestre-escola Scolari. Nesse caso, até eu preferiria não estar com essa bola toda num quarto de hotel.

Enfim, quais práticas estariam em definitivo excluídas do cardápio ludopédico-sexual do Felipão? Por coincidência, andei lendo por esses dias um antigo livro todo feito dessas práticas antifelipônicas, digamos, livro esse que o nosso consagrado técnico bem faria em distribuir ao seu escrete como exemplos negativos a serem evitados. O livro se chama “Os 120 dias de Sodoma,” de autoria do divino Marquês de Sade (1740-1814), rei absoluto do sexo anormal, desequilibrado e malabarístico, que deixaria de pé as madeixas grisalhas do nosso técnico campeão do mundo.

A grande maioria dessas “paixões” , nome que o Sade atribui às formas aberrantes de sexo praticadas por seus personagens, é de tirar o apetite do leitor, por sua desbragada escatologia, sem falar na imoralidade revoltante que rege a conduta dos quatro personagens principais desse romance proibidão. Pra começar, os quatro nobres milionários, que formam uma espécie de clube privado de libertinos, mandam sequestrar um bando de garotos e garotas da nobreza e das altas castas da sociedade francesa, com idades que vão de 12 a 16 anos. Juntam a eles suas esposas, que vêm a ser as filhas de seus próprios companheiros, numa calculada e incestuosa promiscuidade. Adicionam ao elenco quatro cafetinas contadoras de histórias eróticas derivadas de suas ricas experiências pessoais na mais desbragada putaria parisiense. Agregam umas velhas bruxas celeradas que servirão de guardiãs da garotada, mais uns garotões de programa bem dotados, algumas cozinheiras e empregadas, e se trancam com essa turma toda num castelo isolado na floresta negra suíça para se dedicar à mais doida e criminosa libertinagem já narrada na literatura mundial. Sangue, suor, esperma, fezes e outros fluidos e secreções humanas comparecem aos borbotões nas páginas do divino Marquês. E, dor física, bien sûre, muita dor e muita humilhação que os quatro cavaleiros do apocalipse sexual infligem em doses generosas a seus escravos indefesos, justificando com louvor o adjetivo “sádico” e o substantivo “sadismo” incorporado a todas as línguas modernas. Aquilo sim é malabarismo sexual, meu caro Scolari. O resto é papai e mamãe de camisinha e pijama, com a luz do abajur apagada.

Cito apenas uma das “paixões” narradas no monumental livro do Sade – monumental no sentido da magnitude demencial das sacanagens ali descritas, mas também pela excepcional qualidade do texto. Trata-se da historieta de um ricaço necrófilo que costumava percorrer as ruas de Paris na companhia de uma meretriz muito bem vestida em busca de um velório na casa de alguém. Insinuando-se no ambiente fúnebre com sua assistente, o figurão fazia-se masturbar por ela com a máxima discrição possível ao lado do defunto. Esse era o grande barato do cara: praticar sua sacanagenzinha em meio ao luto da família e com o objeto do luto ali espichado no caixão. A cereja do bolo era conseguir, no final, ejacular na cara do falecido, homem ou mulher, o que decerto requeria muita prática, habilidade e ousadia.

Imagine só a cena: a tia de alguém mortinha no caixão e um sujeito que ninguém conhece, provavelmente trepado num banquinho, com a piroca dura na mão frenética de uma quenga, a despejar esperma na cara da saudosa finada. O que diria mestre Scolari, especialmente se a tia fosse dele? Bom, meu caro, eu não queria estar por perto para ouvir. E nem você, imagino.

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