OS BASTIDORES DO PRAZER

Passamos uma tarde no set de filmagem do X-Art, site que está revolucionando a pornografia na Internet e que acaba de chegar ao país

 

Por Bruno Weis  |  Fotos João Castellano

 

STATUS 36 - TOP SECRETS

As tchecas Kaylee e Lisa contracenam com mulheres e com homens, desde que sejam seus namorados na vida real

 

A porta do elevador se abre e não reparamos, eu e o fotógrafo que me acompanha nesta reportagem, no luxuoso apartamento localizado no 20o andar de um edifício de alto padrão no Itaim, na zona oeste de São Paulo. Não reparamos em sua decoração, nos móveis ou no tapete de zebra que orna o piso da sala. Nem na ampla vista da sacada do imóvel, voltado para o arborizado bairro do Morumbi. Por um instante, aliás, praticamente nos esquecemos que estamos em São Paulo, que vivemos no Brasil, que somos seres humanos e que vamos morrer um dia. Perdemos completamente a noção de tempo e espaço e, sobretudo, de que estamos ali, sim, caro leitor, que estamos ali a trabalho. A razão de ficarmos como Sandra Bullock e George Clooney no filme Gravidade é a cena que vemos assim que a porta do elevador se abre: três lindas moças nuas fazendo sexo em um sofá.

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Luz, câmera, ação: um balé de dedos, línguas e mãos hipnotiza o set

Vou descobrir seus nomes depois. Lisa está deitada no sofá, de longas pernas abertas. É uma morena de pele clara, cabelos lisos e olhos azuis. O nariz empinado lhe dá um certo ar aristocrata. Kaylee, morena e esguia, está de quatro, com o rosto entre as pernas de Lisa. Beija seu sexo. Por trás de Kaylee, com uma das mãos lhe tocando freneticamente, está Jenna, de pele muito branca e dentes frontais levemente separados, cara de menina travessa. As três se beijam e se masturbam em um hipnótico balé de mãos, línguas e dedos. Gemem sem parar, cada uma do seu jeito, no seu tom. Até que param por um instante. Olham para nós, paralisados no saguão de entrada, e sorriem: “Hi, guys, welcome!” E voltam cada uma para sua função.

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Sem cerimônia: Jenna é maquiada em plena transa

Sim, função. Apesar da cena luxuriante, as moças também estão ali em serviço. Estamos em um set de filmagem do site X-Art, um dos principais portais de sexo explícito dos Estados Unidos e que vem inovando na forma de tratar a pornografia na internet. Substituindo louras turbinadas e machos anabolizados por jovens que poderiam ser seus vizinhos de porta – e caprichando na locação, produção e edição dos vídeos –, o site vem ganhando fama e conquistando espaço no mercado. Apenas nos EUA, o X-Art tem 300 mil assinantes, o que corresponde a 85% de sua carteira de clientes em todo o mundo.  O faturamento anual da empresa gira em torno de US$ 100 milhões. Querendo mais, seus proprietários lançaram sua versão brasileira e aproveitaram a passagem por São Paulo para rodar algumas cenas, as quais Status foi convidada a acompanhar. Sim, meu amigo, estamos todos trabalhando. Tanto é que, assim que a cena do sofá termina, as meninas vão para a sacada fumar seus protocolares cigarros de intervalo de expediente (ou seria o tradicional trago pós-transa?), desfilando seus corpos nus de vaginas totalmente depiladas e seios sem silicone pelo set. Somos então apresentados ao simpático casal dono do apartamento e que também é o sócio brasileiro do empreendimento. Com toda a educação, dizem que preferem não se identificar “sabe como é, temos filho adolescente”, e que da posição de investidores anônimos estão muito animados com o investimento.

As três atrizes (ou modelos, como são chamadas ali) voltam ao sofá para mais uma tomada. Diante delas temos duas câmeras, refletores, microfones, um emaranhado de fios e quatro profissionais: um técnico de som, um cinegrafista, um diretor e, circulando sem parar pelo ambiente de câmera fotográfica em punho, a dona do negócio, Colette Pelissier, uma americana loira de meia-idade que foi amazona profissional, desenvolvedora de software e corretora imobiliária antes de lançar com seu marido, Brigham Field, fotógrafo profissional, o X-Art. O ano era 2007 e o mercado imobiliário americano já não andava muito bem. “Meu marido fotografava modelos nuas e eu comecei a notar que poderíamos ir além, fazer algo mais explícito. No começo ele não queria, a gente chegou a ter uma grande briga por isso”, relembra Colette. “A pouca pornografia que eu havia visto na internet não me interessava. Não achava bonito, simplesmente. Eu pensava que seria legal se alguém fizesse pornô com qualidade, beleza e sensualidade.” Nascia assim o conceito de “beautiful erótica”, que tenta resumir a estética “de comercial de margarina” que embala a mais franca putaria dos vídeos da empresa, publicados em uma média de quatro por semana.

 

BEIJO ROMÂNTICO E  BJ

Luz matinal, música suave, meninas em momentos de intimidade, sozinhas, em dupla, trio ou casais. Clima de romance, muitos olhares, beijos e risinhos. A equação da fina pornografia de Colette e companhia é mais ou menos essa. Ela chama o que faz de “porn reborn”, ou pornô renascido. Mesmo quando a ação propriamente dita começa, com os gemidos e orgasmos, o ritmo do filme é outro e, ao cabo, consegue passar ao espectador a gostosa sensação de espiar pela fechadura a vizinha gata em pleno ato. “O sucesso do site tem a ver com essa química entre os atores que conseguimos passar para as cenas”, palpita Jacob, o único ator presente no set paulistano e que, em breve, veríamos em ação. Ex-policial, o tcheco de 25 anos garante estar realizado ao fazer parte da trupe. “Estamos mudando a história da indústria pornô”, acredita ele, ressaltando que ali não vigora o “vai, vai, vai, mais forte, mais forte, mais forte” que resume o andamento da pornografia tradicional. Ao seu lado, Lisa, a morena de olhos azuis, me encara e sorri quando pergunto qual o segredo para ser feliz naquele ofício. “Todo mundo aqui gosta de sexo, então a emoção é mais natural.” Em seguida, ela me conta que é casada e planeja trazer seu marido para o negócio, “pois não trabalho com outros homens”. Isso mesmo, Lisa só faz cenas sozinha ou com outras meninas. Logo fico sabendo que ela não é uma exceção entre as colegas de firma.

Colette confirma que prefere desse jeito. “Somos como uma família, eu realmente me preocupo com as meninas e quero saber se estão felizes ou, talvez, cansadas para determinada filmagem”. Ela explica que geralmente as atrizes selecionadas – muitas delas não por coincidência na República Tcheca, onde a profissão de atriz pornô carregaria estigma social muito menor do que na maioria dos outros países – começam posando nuas e fazem suas primeiras cenas sozinhas, se masturbando. “É como uma iniciação sexual.” Depois, as meninas participam de cenas lésbicas com uma ou duas garotas para, só então, contracenarem com homens. “Mas há situações em que o namorado acha que consegue fazer o trabalho, e na hora percebe – e todo mundo vê – que realmente não consegue. E isso tem um custo, pois tudo é caro: a locação, os profissionais, viagens, hotéis. Mas é o risco que topamos pagar.” Pagar caro para Colette parece ser parte do negócio e um estilo de vida. Ela mora em uma mansão em Malibu, Los Angeles, só viaja de primeira classe e, em São Paulo, estava hospedada em uma das melhores suítes do Tivoli Mofarrej, nos Jardins. Sua mais cultuada contratada, a tcheca Caprice, chega a receber US$ 10 mil por dia de filmagem.

É hora de filmar a sequência entre Jacob e Jenna, a americana que largou há dois anos e meio a rotina de garçonete em Boston. “Eu não tenho namorado, não acredito em relacionamentos. Para mim, basta uma boa amizade e uma boa química sexual para estar feliz. Sou aberta, curto todas as garotas. Gosto de filmar com homens e mulheres, de preferencia com todos ao mesmo tempo”, ri ela. Silêncio no set. Eles se tocam, rindo, como que se aquecendo. “Vamos lá, um beijo apaixonado e depois BJ”, pede François, o diretor francês encarregado de conduzir o show. BJ, no jargão dali, é blowjob, o nosso querido boquete. Colette fotografa, exclamando “awesome” dezenas de vezes. Jenna capricha no BJ. Faz uso do indefectível piercing na língua – adereço onipresente entre as atrizes que conheci – para deixar Jacob no ponto. Luz ajustada, outra tomada. Ele se concentra, ela faz uma careta divertida. Antes havia perguntado ao jovem tcheco como ele fazia para garantir o instrumento de trabalho ajustado. “Não uso Viagra, é muito forte. Tomo um gel à base de sidenafil que funciona por uma hora e meia apenas”, revelou o ator.

Jacob mostra o gel vaso-dilatador que o ajuda em cena e, ao lado de Lisa, repõe as energias depois do expediente

Jacob mostra o gel vaso-dilatador que o ajuda em cena e, ao lado de Lisa, repõe as energias depois do expediente

“Façam contato visual”, pede François. Jenna arma uma ponte, com o corpo atlético a toda, convidando-o para retribuir o sexo oral. Ela geme alto. Na primeira posição, ela cavalga sobre ele de costas. Parece que estamos assistindo a dois jovens praticando uma espécie de ioga sacana, tamanho é o desempenho físico da dupla. Pausa para água, arrumar o cabelo. Colette ajusta a base no rosto de Jenna, sem que ela desengate de Jacob. É engraçado ver o sexo ser tratado assim, tão sem cerimônia. Não há camisinha em cena. Jenna me conta que todos os atores da empresa fazem testes de sangue a cada 45 dias. Desprotegidos e penteados, os atores partem para a próxima posição, a clássica papai-mamãe. Se beijam. Parecem exaustos. “Vamos mudar o ângulo e depois cumshot”, avisa o diretor. “Jacob, honestamente, você pode gozar agora?” Jenna se ajoelha enquanto ele se masturba de olhos fechados. “Please cum on my face”, recita ela. “Na hora tento me lembrar das cenas mais quentes que fiz recentemente”, me contaria Jacob logo depois. Ou seja, uma cena alimenta a outra, penso. “Mas tive dificuldade desta vez, muita gente no set, não estou acostumado. Não é fácil, mas felizmente consegui”, comemora o rapaz, em busca de um roupão e um prato de filé à parmegiana guardado na cozinha.

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