ZECA PAGODINHO

O sambista mais querido do Brasil fala sobre sua rotina de resolvedor de problemas, seus cuidados com a saúde, o prazer de estar em família na sua Xerém e suas grandes paixões: samba, cerveja e o neto de 4 anos

 

Por Marcos Diego Nogueira 

Foto Daryan Dornelles

 

1050

Zeca Pagodinho mexe nos óculos que lhe permitem enxergar de longe e afirma: “Não consigo mais viver sem eles.” O acessório dá ao sambista o ar de sabedoria que apenas o chegar da idade costuma conceder aos homens. “Estou com 55, xará, tenho que me cuidar”, diz ele à reportagem de Status, em uma tarde ensolarada em seu amplo apartamento na Barra da Tijuca, uma de suas duas residências (a outra fica em Xerém, na Baixada Fluminense). Estamos no 26o andar. Mas Jessé Gomes da Silva Filho não deixou de lado a rotina de samba e cerveja. A música quase nunca para de tocar em alto e bom som pelo home theater da sua sala com vista para o mar. A cerveja se mantém artigo indispensável, sempre servida no copo fino e gelado. Acontece que agora Zeca faz caminhadas, come arroz integral e, segundo ele, diminuiu a frequência do mocotó – “só uma vez por mês”. Em contrapartida, perde o sono pensando nas injustiças sociais do Brasil. “Às vezes a gente chega até a perder a crença em Deus um pouco,porque não é possível, é tanta barbaridade”, desabafa, no tom agridoce que permeia toda a conversa, entrecortada pelas inúmeras chamadas de celular que recebe. Pai de quatro filhos e recentemente contemplado pela coleção Sambabook (que homenageia os grandes nomes do gênero), Zeca é um grande “resolvedor” de problemas, inclusive de pessoas que ele  nunca viu na vida. “Tem gente que me liga pedindo o telefone do Faustão ou para que eu ajude a ganhar a promoção do Luciano Huck. Tá de brincadeira!”, exclama, saindo por um momento do seu misto de alegria e preocupação. Esse estado de espírito é alimentado pela presença de Noah, 4 anos. Primeiro neto do sambista, o garoto foi homenageado na música “Orgulho do Vovô” e faz Zeca correr pela casa todo coruja, enquanto bate papo sobre a vida, cerveja, dieta, parcerias musicais e a paixão por quadriciclos.  Depois de uma breve galhofa com o garoto, ele se justifica: “Agora a minha vida é assim, profissão avô.” 

 

Seu telefone não para de tocar desde que nos encontramos. Existe algum momento em que ele fica em silêncio?

Nem me fale. Ontem eu tinha acabado de reclamar: “não aguento mais, tudo sou eu que tenho que resolver”, e recebi uma ligação pedindo para eu pagar um velório de alguém que eu nem conhecia.

Muita gente te liga para pedir dinheiro emprestado?

Não só para isso. Tem gente que quer falar com a Angélica, com o (Luciano) Huck, com o Faustão. Acha que eu sou amigão do Huck, que eu vivo na casa dele e ele vive na minha. Tem até quem peça para eu dar um jeito de ele ser sorteado nas promoções. Vou fraudar um sorteio? Não tenho nem intimidade com ele e, mesmo que tivesse, não ia pedir uma coisa dessas. Tem gente que diz: “Eu já mandei a minha carta e ela não sai.” Tu quer o quê, que eu vá lá naquele baú e fique procurando carta por carta até achar o seu nome? Porra! Já um gás que acaba, uma cesta básica, ou sei lá o quê, a gente vai resolvendo.

Como foi fazer 55 anos de idade?

Depois que você faz 50 anos, fodeu tudo. Tanto faz 55, 60 ou 80. Agora tenho que aproveitar tudo o que eu puder. Me aporrinhar menos e viver mais.

Quando você era jovem, imaginava-se onde está?

Não pensava em nada não. Nem pensava. Eu não consigo nem imaginar que eu estou aqui agora. Mas tenho neto para cuidar, minha filha de dez anos (Maria Eduarda) também. Logo vem outra neta por aí e depois outros.

No vídeo do seu aniversário você aparece tomando vinho. Abandonou a cerveja?

Eu continuo tomando a minha cerveja, mas no dia do meu aniversário eu comecei muito cedo a beber. Você sabe que, quando a gente abre uma cerveja, não para mais, né? Estava tomando desde as 11h30, quando os convidados não tinham nem chegado. Quando começo com a cerveja, engato mesmo. Aquele dia foi assim. Eu tinha ganhado uma caixa de vinho e resolvi fazer um brinde. Mas a cerveja continuou. Pode olhar em qualquer canto desta casa que você vai encontrar cerveja.

Você emagreceu visivelmente. Está fazendo dieta?

Tem que fazer, xará, estou com 55 anos. Tive que cortar pão, manteiga…Você ainda vai chegar nessa idade e vai ver. A Fran (cozinheira de Zeca) é que faz a minha comida e é uma viadagem danada. Só um pouquinho de coisa, arroz integral, uma boiolice do cacete.

Deve ser difícil conseguir manter…

Tem que conseguir. Vou morrer? E aí quem cuida do Noah ou da Duda? E tem que caminhar. Todo dia de manhã. Faço bicicleta também, fazer o quê? Eu não acordo tarde. Tenho acordado de madrugada porque quando não é o Noah é a Duda que está lá, dormindo comigo. Mas eu não posso ter horário certo para caminhar porque, se a pessoa descobre amanhã, já tem uma fila me esperando ali com CD pra eu ouvir, com conta de luz pra eu ajudar a pagar, enfim. Então, eu nunca posso ter horário fixo para nada.

Com a idade, a ressaca aumenta?

Não tenho esse problema, cara. Minha cerveja não dá ressaca não, por isso que eu gosto. Só se eu beber muito, aí eu quero ver. Mas, se beber como eu bebo, é tranquilo. Não sou pé de cana, sou cervejeiro. Minha cerveja tem que estar gelada, no ponto e no copo certo. Não é em qualquer lugar que eu bebo. Gosto de beber aqui na minha casa porque aqui ela (a empregada) coloca uma bandeja com dez copos ou doze e o cooler de cerveja fica aqui. Cada cerveja é um copo novo e fino. Tem vezes que eu chego na casa dos outros e tem aqueles copos grossões, de uísque, já não é o ideal.

Essa insônia de madrugada já resultou na composição de algum samba?

Já se foi o tempo que eu fazia isso. Acho que o lado do artista engoliu o compositor. Às vezes eu escrevo uns negócios aí, mas depois não sei nem onde estão. A última vez que eu fiz isso foi com a música que compus com o Djavan. Mas geralmente escrevo de tarde, quando estou tomando um grau aqui, aí eu fico fazendo uns negocinhos, escrevendo. Coisa de bêbado. E tem um negócio pior: a letra do Zeca Pagodinho bebendo é uma, e depois para entender o que eu escrevi fodeu tudo.

Tem que beber mais um pouco…

Isso, tem que beber de novo para poder entender a minha letra, saber o que eu escrevi.

Você citou o Djavan e o João Bosco. Na comemoração dos seus 30 anos de carreira, o Roberto Menescal disse que não quer mais saber de bossa nova, só de samba. Você já teve vontade de gravar outros estilos diferentes, como a Alcione, por exemplo?

Ah, não. Eu participo, já gravei com o Toquinho, etc. Eles me chamam e eu vou lá. Mas o meu disco é de samba, porque é onde eu sei navegar. E tem a minha rapaziada, os compositores a quem eu interpreto, que ficam dependendo disso, esperando, já que é onde eles ganham uma graninha e tal. A música não tem fronteira, a gente não pode ser aqueles carnes de pescoço que acham que só pode tocar samba quem é preto, que o branco não sabe. Tem gente que tem essas porras, eu não. Quando João Donato me chamou para gravar Sambou, sambou, perguntou se eu queria cantar com ele e eu disse: “Vambora.”

Muitas das suas parcerias acontecem assim de repente?

A história com o Djavan começou com a enchente em Xerém (em janeiro de 2013). Encontrei com ele em Miami e ele disse que não dava para conversar comigo porque eu sempre estava no telefone. Avisei que estava acontecendo um problema em Xerém e meu filho estava resolvendo, por isso não saía do celular. Ele disse: “Pega essa tristeza e faz uma música.” Falei: “Então é você quem vai musicar.” Fizemos Judia de mim.

Como foi esse episódio de Xerém? As coisas mudaram desde então por lá?

Não sei, não acompanhei mais. Porque a gente acaba sofrendo mais do que já deu pra sofrer. Uns dizem que receberam casa, outros que estão esperando até hoje. Tem outro que diz que a casa que recebeu é de papel, que, se der um soco na parede, a mão sai do outro lado. Então não sei como está hoje em dia.

Naquele dia você pilotava um quadriciclo…

Pilotava, não, piloto toda hora. Agora comprei um para o meu neto andar do meu lado.

STATUS 36 - ENTREVISTA

Pagodinho ajudando vítimas das enchentes do ano passado em Xerém,

Como é esse hobby?

Quadriciclo é melhor porque assim dá pra tomar uma birita e andar sem cair. Mas ando só em Xerém, é melhor porque tem uns becos, você vai na casa dos amigos ou sobe para dentro da mata. Esses dias comprei um para o meu pai, mas o dele é tipo daqueles de andar em shopping. Ele está com 86 anos. Aí, quando ele sai, eu vou atrás para ver onde ele está e encontro ele no botequim e minha mãe: “Tá vendo? Agora ele não quer voltar do botequim.” Eu digo: “Assim que está bom.”

Você está casado com a Mônica (Silva) desde 1986. Qual é o segredo para manter um relacionamento por tanto tempo?

Ah, deixa como está. Vou arrumar um problema que eu não conheço? Deixa esse aí que eu já conheço. Vou ficar inventando moda? Lá em casa, para você casar tem que ser para sempre. A minha família é toda assim, muito difícil ter alguém com dois casamentos. Acho que não tem. Quem casou, casou, ou então não casasse. Na saúde, na doença, na vida e na morte.

Você continua fazendo as festas para Cosme e Damião e São Jorge?

Eu faço, mas agora é na minha casa. Porque tem muita gente que quer ir, mas não tem fé em nada, não conhece nem o santo e só quer ir para dizer que foi à minha festa, sabe como é, para estar na lista. Eu faço festa para São Jorge porque ele me protege e tudo, me dá saúde até hoje. Então, quando faço uma festa, faço com devoção, e não para aparecer na revista.

Você andou viajando à Disney. Gosta de lá ou só vai por conta das crianças?

Ah, não gosto daquilo não. Quer dizer, não é que eu não goste, é que não tem nada para mim lá. Não vou ficar andando em parque. Eu gosto de ficar na rua, com bêbado, favela, botequim, conversa fiada. Vou ficar andando com Pateta, essas coisas? Mas as crianças gostam, então eu tenho que ir porque eu fico preocupado de acontecer alguma coisa, aí eu fico mais ou menos perto. Fico em Miami que tem um monte de brasileiro sambista. Fico tomando umas biritas com eles por lá e toda hora ligando para saber como estão as crianças. Às vezes pego um carro e vou até lá, passo um dia e volto.

STATUS 36 - ENTREVISTA

Visitando a Disney com a família

Há outro lugar do mundo que você conheceu recentemente e achou legal?

Já conheci alguns lugares maneiros. Mas, quando eu fiz a turnê na Europa, fui trabalhando e então fico muito preocupado em ficar rouco. O que acontece é que eu não saio, fico com medo de o show não render, eu estar cansado, então quase não vejo nada. Na verdade, gosto mesmo é de ficar aqui, no Rio de Janeiro, ou em Xerém.

O que você faz nas horas vagas?

Meus amigos, a maioria vive viajando. Arlindo (Cruz), Dudu (Nobre), (Jorge) Aragão, a gente quase não se vê mais. Acho que o que mais continua na ativa é Arlindo, que está mais em escola de samba, mais militante. Dudu também. Agora até o pessoal do Quintal do Pagodinho está viajando também, então só me restou Xerém, a barraca aqui embaixo, a comunidade do Terreirão, o Quebra Mar. Aí fico sabendo das novidades, como está a Portela, o Império, entre outras. Encontro mais as pessoas em premiação. Aí eu vou bem cedo que é para me encontrar com todo mundo. Não sou mais um cara da noite, porque não encontro mais ninguém, e eu gostava de ir para a noite para fazer música, para versar. Então, para eu ficar de bobeira, prefiro vir para casa. Quando eu coloco o pé para ir pra rua, aí eu chego de manhã, boto pra foder e não quero saber.

STATUS 36 - ENTREVISTA

Com seus parceiros de samba Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Sombrinha e Dudu Nobre,

Você tem acompanhado as manifestações do povo nas ruas? O que acha?

Não levam a nada. Só quebram tudo, prejudicam, igual o rapaz proprietário da loja que quebraram toda. Deram o maior prejuízo para um cara que é igual a todo mundo. E o motivo maior do manifesto não foi resolvido porra nenhuma. Eu fico muito triste. Ao mesmo tempo que eu não quero mais assistir ao jornal, tenho que saber como anda o meu país, e isso me deixa muito puto, principalmente quando é com as crianças, tipo roubo de merenda. Isso é muita maldade. Às vezes a gente chega até a perder a crença em Deus um pouco porque não é possível. Por que não acontece nada com esses caras? Será que Deus não existe?

Será que estamos sem saída, Zeca?

Teria saída se nós tivéssemos vergonha. Fico pensando como tem gente que não tem vergonha de trazer uma Copa do Mundo, uma festa dessa, enorme, para cá. Isso vai ser uma baderna, uma zona do caralho, com tudo ao mesmo tempo: derruba viaduto, Copa do Mundo, estrada fodida, arrebenta bueiro não sei aonde, um inferno. Um país rico desses não tem necessidade de ter criança na rua jogando bolinha e pedindo esmola. A arrecadação é muito alta e nada funciona. Cadê o dinheiro? Agora teve outro aumento para os políticos. Quero ver um trabalhador ganhar R$ 1,5 mil. Como o cara ganha R$ 29 mil e ainda quer mais um aumento? De que e para fazer o quê?

Quais são seus planos para a Copa do Mundo?

Não sei, pretendo viajar porque isso vai virar um inferno. Para você ir daqui ao Barra Shopping, vai levar cinco horas. Eu não quero estar aqui não. É em junho? Eu vou viajar. É bom que lá fora não vai ter ninguém, porque vai estar todo mundo aqui. Vou aproveitar que os hotéis e as passagens vão estar baratinhos e ficar lá sozinho. Europa, Miami, sei lá pra onde vou, mas vou torcer para o Brasil de outro lugar. Eu não sou espectador de futebol, mas Brasil, pô. Cresci indo ao Castilho, onde pintava as ruas, ficava aquela rapaziada fazendo churrasco, era uma festa com o Brasil campeão, tinha o Pelé. Hoje em dia está muito diferente. Muita briga. Por isso, televisão aqui em casa, só para ver desenho e jornal.

Sei que você gosta de assistir ao programa do Datena.

Porque a gente tem que saber o que está acontecendo, mas aí vai ficando triste. A gente desanima, né? Aí fico pensando como minha filha vai para a escola. Tem que ter carro blindado, não por mim, mas pelas crianças. O Brasil é rico em artes, todo mundo sabe cantar, batucar, fazer um artesanato, mas o País está se perdendo. Por isso gosto de Xerém, a gente fica lá calminho, meu portão é aberto, vão as amiguinhas da minha filha, os pais também, o pessoal fica na birita, no churrasco. Só não pode chegar lá com maldade, com conversa fiada, falando palavrão. Tem que chegar lá legal. Se chegar com vacilação, a gente bota pra fora. Mas todo mundo é bem-vindo no meu quintal.

Um dos seus maiores sucessos diz: “Se eu quiser fumar, eu fumo. Se eu quiser beber, eu bebo”. Você acredita que a descriminalização da maconha daria certo no Brasil?

As pessoas já fumam em tudo quanto é lugar. O problema não está aí não, está no desemprego, na fome e na falta de educação. A cachaça é uma droga filha da puta para quem não sabe beber. Por que não proíbem a cachaça? Nego atropela, mata, e ninguém proíbe a cachaça. Se é para proibir, proíbe a falta de educação, então. Se liberar, pune. Fez merda, é cadeia. Pronto.

Muita gente diz que você tem uma boa relação com o Lula. Vocês costumam se encontrar?

Claro que não. Vi o Lula umas duas ou três vezes na minha vida. Mas eu gosto dele, não sei por quê. Não tem gente que você gosta por gostar só? Por ele ser de Pernambuco, por gostar de tomar umazinha, é um cara que fala a nossa língua, mas não me pergunte por que ou se ele fez um bom ou mau governo porque isso pra mim passa batido.

E se alguém te ligasse pedindo o telefone dele, você não daria.

Eu não tenho e, se tivesse, não daria. Estou numa fase que não sei nem o meu número de telefone.

 

 fotos Thiago Lontra (Agência O Globo)  |  Murillo Tinoco (Divulgação)  |  reprodução