PAULO MIKLOS

O músico e ator fala da sua carreira no cinema, das críticas do Lobão sobre os Titãs, da antiga rixa com o Ira!, da copa do mundo e de sua participação em um comercial de tevê exaltando a seleção Canarinho

 

Por Tom Cardoso

Foto Luiz Maximiano

 

STATUS 37 - ENTREVISTA

 

Dos oito titãs originais – hoje a banda virou um quarteto –, o versátil Paulo Miklos talvez seja o que tenha tido mais motivos e argumentos para deixar o grupo.  Não deixou e, provavelmente, não deixará, mesmo que tenha cada vez mais conciliado a carreira de roqueiro cinquentão com a de ator (em filmes como O invasor, Estômago e É proibido fumar), de showman (ele apresenta um programa de variedades na TV Mix) e, eventualmente, de garoto-propaganda. A imagem de Miklos cantando, em tom ufanista, a canção Mostra tua força Brasil, tema de um comercial do Itaú, patrocinador da Seleção Brasileira, ganhou o País e há quem diga que não combina muito, em tempos de manifestações, com o vocalista de um grupo que começou a ganhar notoriedade a partir de um disco como Cabeça dinossauro (1986), que afrontava instituições como a família, a igreja, a polícia e o capitalismo, e que ainda hoje não baixou a guarda, como se comprova ao ouvir o novo trabalho da banda, Nheengatu, contestatório do começo ao fim. “Não me importo com as críticas. No fim, até os chatos, os patrulheiros, torcem para o Brasil ganhar a Copa.”

STATUS 37 - ENTREVISTA

Formação original dos Titãs

Qual é o verdadeiro Paulo Miklos, o otimista e ufanista do comercial da Copa ou o cético e crítico contundente de Desgraça (Cansei da fome, do crack/ Da miséria e da cachaça/ Cansei de ser humilhado/ Sou o mensageiro da desgraça), canção do novo disco dos Titãs?

Sou um prestador de serviço como você. Preciso trabalhar para sobreviver. Sou um cantor popular, este é o meu ofício. E a música do Jairzinho é linda, eu canto ao lado de uma artista que admiro muito (Fernanda Takai) e sou um apaixonado pelo futebol desde que assisti, aos 11 anos, o Brasil de Pelé ganhar a Copa de 70. O comercial é uma exaltação ao talento do jogador brasileiro e não uma exaltação ao País.

Então, na Copa, nada de “mensageiro da desgraça”?

O Brasil vivia sob uma ditadura militar terrível em 1970, com tortura e censura, e mesmo assim muita gente que lutava pela liberdade soube separar as coisas e torceu para aquela seleção maravilhosa ganhar o tricampeonato.

Qual a sua opinião sobre o “Não vai ter Copa”?

Eu acho ótimo. Acho que as manifestações são um grande avanço da nossa democracia. Eu sei muito bem o que acontece nos bastidores da Fifa, da CBF, mas acho que é um exagero sequestrar do brasileiro o direito de torcer pela seleção do seu país. Até os patrulheiros vão, no fim, torcer pelo Brasil. Eles não me enganam.

O Lobão disse outro dia que os Titãs não eram mais os mesmos da época do Cabeça Dinossauro, do estilo contestatório. Afirmou, inclusive, mais de uma vez, que vocês haviam virado a “banda do Carequinha”…

O Lobão é como os nossos piores críticos: é sempre preferível que eles continuem falando mal da gente. Quando alguém fala bem, elogia, a gente se sente péssimo. Imagina o Lobão fazendo grandes elogios aos Titãs. A gente ficaria apavorado.

Tem acompanhado o Lobão colunista da Veja?

Não. Mas fico feliz em saber que ele chegou lá (risos).

Não seria uma boa hora para uma nova versão de Nome aos bois (canção emblemática dos Titãs, que enumera os grandes vilões da história, de Hitler a Pinochet, de Khomeini a Mussolini)?

Aquilo foi uma brincadeira. Tem gente que não merecia estar na lista, que nem era tão filho da puta assim.

Quem, por exemplo?

O Dulcídio Wanderley Boschilia (ex-árbitro de futebol), o Ronaldo Bôscoli (compositor, produtor musical e jornalista). São duas figuras que nem mereciam estar na lista, na companhia daquela gente toda. Mas a graça da música, o charme, está justamente nisso, de tudo ser um pouco desigual. O Bôscoli, claro, não tem o peso de um Pinochet.

Segundo o Tony Bellotto, um dos autores da música, o Bôscoli entrou na lista de vilões da humanidade porque, anos antes, havia escrito uma coluna apoiando abertamente a prisão dele, Bellotto, e de Arnaldo Antunes, ambos por porte de heroína. O Bôscoli dizia, entre outras coisas, que os Titãs “tinham que dar bom exemplo à juventude”. Vocês continuam dando mau exemplo?

Nesse sentido, sim. A gente continua punk.

Qual é a sua posição hoje sobre as drogas?

Hoje não dependo mais de nenhuma substância. E acho ótimo. Estou mais saudável, confio mais na minha memória. Sofria um processo depressivo que só se agravava quando eu usava drogas. E achava que era justamente o contrário, que a droga era importante para dar esse alívio, para diminuir o meu estado depressivo. Quando percebi que ela só potencializava, pulei fora. Foi aí que eu escapei. Hoje sei que não posso beber uma gota de álcool que vai funcionar como um gatilho para eu tomar outras coisas.

O Nando Reis, seu ex-parceiro de Titãs, deu uma entrevista recente afirmando que a cocaína o deixava sempre mais produtivo, que compôs muita música boa sob o efeito da droga e que, inclusive, sente falta dela em seu processo criativo. Qual é a sua opinião sobre isso?

É uma questão muito individual. Eu nunca tive uma postura de patrulheiro e nunca vou ter. Cada um lida com a droga de uma forma diferente.

Você falou há pouco que os Titãs continuam uma banda punk, mas para alguns grupos, como o Ira!, por exemplo, vocês não passavam de um grupo de rock pop… Havia uma rivalidade aí, não?

Essa coisa era muito mais alimentada por eles do que pela gente. Os Titãs nunca tiveram vergonha de ser, em determinadas fases, uma banda pop. Mas antes de compor Sonífera ilha, a gente já fazia punk-rock no disco Televisão. Sempre fizemos um monte de coisa. Já o Ira!, não, tinha essa coisa de vender “integridade”, de ser a banda fiel às suas origens, fiel ao punk. Eles eram os roqueiros de verdade e a gente os caras que faziam “até MPB (risos)”. E o curioso é que se você levar ao pé da letra o lema original do punk, essa coisa do “do it yourself”, do “faça você mesmo”, a gente era muito mais punk do que os caras.

Por quê?

O Ira! era uma banda toda organizada. Os caras tinham amigos na imprensa, eram amigos dos críticos musicais, eram todos grandes músicos. O Edgar (Scandurra, guitarra) é um virtuose. Faziam tudo direitinho. A gente, não. Ninguém sabia tocar direito, nem o que ia fazer no palco. Era uma bagunça só e havia uma liberdade para testar outros formatos. Nunca fomos engessados. Nesse sentido, sempre fomos muito mais punks do que eles.

Os Titãs eram oito. Agora foram reduzidos à metade. Quais são as vantagens e as desvantagens de tocar num quarteto, e não mais numa quase orquestra?

O patrimônio artístico dos Titãs estava na sua formação. Não tenho dúvida sobre isso. A gente nasceu como uma espécie de coletivo de amigos, em que cada um tinha liberdade de tocar o instrumento que quisesse e qualquer gênero musical… No começo foi assim. Até que um dia a gente viu a Blitz tocar, que também tinha um perfil parecido com o nosso, os caras fazendo um puta sucesso e sem deixar de fazer aquilo que eles queriam. Pensamos: se os caras podem ter uma banda, a gente também pode. Aí começou de fato a bagunça.

Quem tocava o que até então?

Nem me lembro. Todo mundo tocava um pouco de tudo. Decidimos estabelecer o mínimo de organização. Ah, vamos ter dois guitarristas. Cinco caras se candidataram (risos). No fim, ficou mais ou menos combinado quem tocaria determinado instrumento, mas mesmo assim não era uma imposição. E tinha a história de todo mundo do grupo compor. Nas outras bandas, havia sempre um ou outro compositor, dois no máximo. Nos Titãs eram oito. E acho que essa característica enriqueceu artisticamente o nosso trabalho e acabou sendo a grande vantagem de integrar um octeto.

E as desvantagens?

Como todo mundo tinha liberdade para dar palpite na música do outro, se gostava ou não, se achava que deveria ser acrescentado ou tirado um instrumento, era muito complicado chegar ao repertório final do disco. E cada um gostava de um determinado tipo de música. Quando eu entrava com um solo de saxofone, atravessando as guitarras, os caras ficavam putos, mas no fim todo mundo se entendia.

A decisão era democrática?

Mais ou menos (risos).

Por quê?

Eu diria que funcionava como uma espécie de democracia de conchavos. Se eu conseguia, por exemplo, colocar uma canção minha no novo disco, isso não queria dizer que era certeza. Ela podia cair a qualquer momento. E isso acontecia porque um músico ligava para o outro e dizia: “Porra, cara, tô achando que aquela canção do Paulo não tem muito a ver com a concepção do disco, acho melhor entrar essa que eu compus com o Brito.” No dia seguinte, tudo mudava.

E você era bom de conchavo?

Eu procurava ser pontual. Porque bastava você chegar atrasado ao estúdio, durante os ensaios, para a sua música cair fora (risos).

Agora, com um quarteto, os conchavos tendem a diminuir…

É, pense no Congresso Nacional. São tantos partidos que fica muito mais difícil governar. Os Titãs passaram por uma rígida reforma política.

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Os quatro membros que ainda continuam na banda hoje em dia

Há algum risco de o ator engolir o músico?

Não, nenhum. As duas profissões são enriquecedoras e complementares. Tenho feito muita coisa, sobretudo para o cinema. Já tenho uma filmografia, algo impensável até pouco tempo atrás.

Contracenando com Mariana Ximenez em seu primeiro longa;

Contracenando com Mariana Ximenez em seu primeiro longa;

E o que vem por aí?

Vou participar do primeiro longa dirigido pela Marina Person, chamado Califórnia. O filme é ambientado nos anos 80, sobre uma adolescente, uma espécie de alter ego da Marina, que vive as descobertas sexuais em plena epidemia da Aids. Eu faço o pai da menina. Tem até um show dos Titãs no filme. Também vou participar de uma nova série de humor do Multishow, chamada Alucinadas, protagonizada por duas atrizes, a Luciana Fregolente e a Renata Castro Barbosa.

Com Glória Pires no filme é Proibido Fumar

Com Glória Pires no filme é Proibido Fumar

Você trouxe a versatilidade, uma característica da sua carreira como músico, também para o cinema. Já interpretou um malandro em O invasor, um grande bandido em Estômago, um cantor de churrascaria em É proibido fumar

É, agora vou fazer um taxista malufista num curta-metragem inspirado nas tiras do Caco Galhardo, dirigido pelo Tiago Vieira. Mas não me considero um ator versátil, longe disso. Preciso me tornar primeiro um ator. Sou um iniciante, que caiu meio de paraquedas nessa história.

Foi acidental?

Totalmente. Culpa do Beto Brant (cineasta). Ele dirigiu três clipes dos Titãs, achou sempre que eu tinha certo potencial como ator. Eu nunca dei muita bola para isso. Até o dia em que ele me convidou para fazer O invasor. Num primeiro momento, eu recusei. Já tinha visto todos os filmes do Beto, sabia que ele era um diretor seríssimo, com um trabalho respeitado, elogiado pela crítica. Ele insistiu tanto que quando vi já estava no set de filmagem do lado de outro maluco, que também não era ator, o Sabotage (rapper paulistano, assassinado em 2003).

– Não pensou em desistir?

Nem deu tempo. O curioso é que a gente, eu e o Sabotage, acabou fazendo do nosso jeito. A gente tinha nas mãos o texto do Marçal Aquino, que apesar de ser um grande texto, de um grande roteirista, não tinha muito a linguagem das ruas, da periferia, que era onde viviam os dois malacos do filme, os personagens interpretados por mim e pelo Sabotage. Antes da gravação, recriamos os diálogos, com uma linguagem mais autêntica.

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Com a esposa, falecida no ano passado

– E como essa mudança repentina foi recebida pelo elenco?

Sabe aquela cara de espanto do Marco Ricca e do Alexandre Borges durante todo o filme? Nada mais verdadeiro (risos).