QUANDO DOIS É POUCO

Eles decidiram deixar a monogamia de lado para abraçar um, dois, três (ou até mais) parceiros. Status mergulhou no universo do poliamor e conta as vantagens (e dramas) do amor livre

 

Por Edu Graça, de Nova York
Fotos Jayme de Carvalho Jr

 

STATUS 37 - TOP SECRET

O americano Leon, entre as namoradas Fukumi e Kischa: elas se conhecem e aceitam o fato de que Leon gosta de ambas

É impossívelnão pensar na Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade. As histórias que surgem durante uma conversa animada em um típico bar do Lower East Side, em Nova York, giram em torno de narrativas em que João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili… Estamos todos em Manhattan, os nomes que permeiam a história são todos em inglês, mas a corrente de amor é a mesma daquela imaginada por Drummond. A diferença é que essa dinâmica não apenas ganhou um nome, como vem conquistando cada vez mais adeptos em países como Estados Unidos, Canadá e Austrália. Trata-se do poliamor, prática amorosa defendida por gente contrária à monogamia, com a aceitação de várias pessoas em um mesmo relacionamento. O conceito faz lembrar o do “casamento aberto”, no qual cada um dos parceiros pode se relacionar com quem bem entender, ou ainda o do “swing”, que permite a troca de casais em relações sexuais, mas o fato é que o poliamor tem regras próprias. E como.

Leon Feingold, 41 anos, é o mais falante do grupo. Ex-jogador de beisebol, alto, porte atlético, o nova-iorquino é dono de uma pequena imobiliária na cidade. A seu lado, Fukumi Kashiwagi, atriz de origem japonesa, 35 anos, bate um papo animado com Kischa F., escritora e jornalista, uma bela negra, mesma idade. As duas são namoradas de Leon. Na outra ponta da mesa, a amiga do grupo S.D. prefere não dizer nem a idade nem o nome por conta do ambiente conservador do hospital onde estagia.

Eles até vão ao cinema juntos, mas o sexo  não é a três

Eles até vão ao cinema juntos, mas o sexo
não é a três

A futura médica dividiu por algum tempo um namorado com a amiga Kischa, também receosa em revelar o sobrenome por conta de problemas em eventuais encomendas de texto por publicações mais tradicionais. “Há várias possibilidades de se exercer o poliamor, mas todas são centradas na oposição à monogamia e no veto a relações amorosas secretas. Para algumas pessoas, é um estilo de vida. Para outras, como eu, é uma orientação sexual. Já era poliamoroso antes mesmo de saber do que se tratava”, diz Leon.

No universo poliamoroso, o caso de Leon, Fukumi e Kischa é conhecido como “relação em V”, onde um homem (ou mulher) se relaciona com outras duas pessoas ao mesmo tempo. O sexo é a dois, mas os três mantêm uma relação amigável: vão ao cinema e são capazes até de frequentar uma festa juntos. Fukumi e Kischa não carregam os títulos de namorada e amante e tampouco dão crises de ciúme (pelo menos não com a frequência que era de se esperar). Elas aceitam o fato de que Leon está apaixonado por ambas – o que de forma alguma dá a Leon carta branca para se relacionar ou até transar com uma terceira mulher. A não ser, é claro, se Fukumi e Kischa concordarem. “Poliamor não é amizade colorida. Fazemos parte da mesma comunidade, mas posso garantir a você que não é como boa parte das pessoas imaginam, na linha do ‘ninguém é de ninguém’”, diz Kischa. Os três se

conheceram em um policoquetel, como são conhecidas as festas mensais da comunidade nova-iorquina. Na época, tratava-se de um grupo tímido, que se reunia em um espaço apertado no Greenwich Village. O evento ocorre agora no segundo andar – e se expande para a cobertura nos meses mais quentes do ano – do espaçoso The Delancey, no Lower East Side. Na noite fria em que a reportagem da Status esteve com os polis, mais de duas centenas de pessoas de todas as cores, opções sexuais, formas e idade brindavam o sétimo aniversário do evento.

 

TUDO EM FAMÍLIA

Em muitos casos, tudo começa como uma brincadeira: um casal, por exemplo, em busca de um terceiro alguém para apimentar o sexo e a rotina. O que era para ser esporádico, porém, torna-se frequente, até que todos se veem emocionalmente envolvidos. Foi assim com o casal Billy e Melissa Holder, de Atlanta. Eles se casaram em 1999 e, depois de acusações mútuas de traição, decidiram adotar uma relação mais aberta, com parceiros esporádicos, desde que o sexo fosse seguro e o outro estivesse ciente de tudo sempre. Apesar de toda a liberalidade, Billy, que é carpinteiro, e Melissa, professora pré-escolar, continuavam juntos na mesma casa, como um casal normal, dois filhos – até que, em 2008, conheceram o profissional de tecnologia da informação Jeremy Mullins. Ele e Melissa saíram algumas vezes, namoraram, mas o relacionamento ficou sério e Melissa sugeriu que ele fosse “oficializado” em uma relação a três. Billy conta que chegou a ter crises de ciúmes, mas que, de certa forma, também se sentia atraído por Jeremy. Hoje, os três dividem a mesma casa, as tarefas, as contas e até mesmo a criação da filha de Billy e Melissa, de 9 anos. Para evitar que sejam alvos de alguma denúncia de bigamia, cada um tem seu quarto, mas não é raro ver os três dividindo a mesma cama. Normalmente, o sexo é a dois – Billy e Melissa e Melissa e Jeremy –, mas o trio também curte uma transa a três. “Se eu sou bissexual? Já me questionei muito sobre isso e acho que posso dizer que sim”, diz Billy à Status. Quanto à convivência da filha com o trio, ele diz que a relação é tão natural e transparente que a menina curte o fato de ter “dois pais”. “Agimos de forma natural e contamos para ela aquilo que uma menina de 9 anos pode absorver”, diz.

STATUS 37 - TOP SECRET

Os americanos Billy (à esq.), Melissa e Jeremy moram juntos, dividem as contas, as tarefas domésticas e até mesmo a criação da filha, de 9 anos

O arranjo amoroso do grupo não para aí. Além de estar praticamente casado com duas pessoas ao mesmo tempo, Billy namora Lindsey, que por sua vez vive com Brian, também seu namorado.“O tempo, ou melhor, a falta de tempo, é um dos grandes obstáculos em uma relação poliamorosa. A logística para lidar com tantos parceiros pode ser bem complicada”, reconhece Billy. Pelo combinado, ele e Lindsey encontram-se uma vez por semana, à noite, e uma vez por mês os dois passam um fim de semana juntos (com a anuência de todos os outros parceiros, é sempre bom lembrar). “Também nos encontramos esporadicamente para um café,
durante a semana”, diz Billy. Segundo ele, as crises de ciúme são raras, mas ainda assim surgem de vez em quando. “Ninguém está imune ao ciúme. A diferença, acho, é que nós, polis, estamos abertos para lidar com esse sentimento de forma produtiva, e não destrutiva. Em outras palavras, se alguém não estiver satisfeito, conversamos sobre o assunto, tentamos mudar as regras, etc.”, diz.

Teoricamente, o poliamor tem todos os ingredientes para um relacionamento dar certo: confiança mútua, espaço para discutir insatisfações, igualdade de gênero, liberdade (ainda que limitada) para assumir mais de uma relação, com todo o direito de amar duas, três pessoas, e por aí vai. “Na vida real, porém, o ser humano é complexo, seja ele monogâmico ou poliamoroso”, diz à Status a socióloga americana Elisabeth Sheff. Autora do livro The polyamorists next door, ela vem pesquisando o tema há 15 anos e pode, inclusive, falar em causa própria. Seu interesse sobre o universo do poliamor surgiu justamente quando um namorado sugeriu que eles adotassem esse tipo de relacionamento. Elisabeth topou, mas, só depois de dez anos de muitas discussões e tentativas de impedir que o namorado tivesse outras namoradas, acabou chegando à conclusão de que sua “essência” era mesmo monogâmica. “Olhando para trás, consigo ver que eu nunca quis, de verdade, embarcar no poliamor. Mas, como eu não tinha consciência disso na época, acabei enterrando o relacionamento em uma série de regras sem-fim. O poliamor pode ser extremamente libertador, mas não é para qualquer um”, conta Elisabeth.

Depois de entrevistar 133 polis para sua pesquisa, ela chegou à conclusão de que o excesso de regras está entre as principais queixas de quem adota esse tipo de relação. “Cada relação poliamorosa é de um jeito e os arranjos são vários. Como não há uma receita, os parceiros precisam ir testando, errando, experimentando, discutindo e isso também desgasta”, diz a socióloga. Não à toa, uma das tiradas mais recorrentes entre os polis é a de que “no fim, falamos mais do que transamos”. Quanto à exposição dos filhos a esse novo tipo de formação familiar – uma preocupação recorrente entre os adeptos do poliamor –,a socióloga tem uma avaliação positiva. “Durante toda a minha pesquisa, me deparei somente com crianças confiantes, articuladas e seguras do amor que recebem de sua família.” Segundo ela, um dos lados positivos de uma família poliamorosa é o fato de que os filhos acabam tendo uma atenção maior dos pais. “Eles têm alguém a mais para ajudar na tarefa escolar, para andar de bicicleta”, diz. Para ela, o lado negativo está na separação, ou seja, quando algum dos adultos deixa a relação. “Mas isso é algo que acontece em qualquer divórcio, inclusive entre casais monogâmicos”, diz a especialista.

 

MÚLTIPLOS ARRANJOS

Se um denominador comum é a valorização do  sexo seguro e da apresentação pública de exames dos mais variados aos parceiros sexuais, as possibilidades de arranjos poliamorosos são muitas. Há casais que vivem juntos e dormem ocasionalmente na casa dos namorados, mas estes não participam da criação dos filhos. Há os que vivem em trio. Há relacionamentos exclusivamente heterossexuais, outros bissexuais. Há casos em que um dos parceiros principais tem múltiplos parceiros, o outro não. Em alguns, os envolvidos têm direito a vetar um parceiro, enquanto em outros o arranjo é engessado, parecido com o de um casamento tradicional. No relacionamento de Billy, Melissa e Jeremy, por exemplo, sair com alguém desconhecido para um sexo casual só é permitido se houver uma “DR”. Billy conta que, se estiver em uma festa e for convidado por uma mulher para esticar na casa dela, sua resposta provavelmente será: “Acho ótimo, mas posso te responder na semana que vem? Preciso checar com meus parceiros primeiro. Somos poli”.

O assunto tem ganhado cada vez mais destaque, sobretudo nos Estados Unidos, com reportagens em grandes veículos, como a rede CNN, e até mesmo em programas de televisão. Já em sua segunda temporada no canal pago Showtime, o reality show Polymory: married & dating revela as alegrias e os dramas de famílias poliamorosas. Outro que trata do assunto é o seriado Sister wifes, no canal TLC, cujo tema principal é uma família formada por um patriarca, suas quatro mulheres e 17 filhos. Para a educadora americana Anita Wagner, autora do site Practical Polyamory, o interesse sobre o tema está relacionado a uma desconfiança quanto ao casamento tradicional. “Estamos falando de uma geração acostumada ao divórcio, a ver os pais morando juntos sem estarem casados, enfim, acredito que essa geração esteja aceitando melhor algumas alternativas ao casamento convencional”, diz Anita. No Brasil, se alguém se apresentar como poliamoroso, é provável que cause algumas interrogações. O que não quer dizer que a prática seja inexistente no País. Pelo contrário: tanto existe que alguns trios estão recorrendo aos cartórios para regularizar a situação. O casamento no Brasil ainda é restrito a duas pessoas, mas é possível registrar um relacionamento a três (ou até mais) como uma união poliafetiva. “Se a união for um fato, se houver uma convivência contínua e pública, é possível registrá-la”, diz a tabeliã Claudia Domingues, que em 2012 registrou o primeiro caso no Brasil, na cidade de Tupã, no interior de São Paulo.

“Qualquer um de  nós pode aparecer com um novo parceiro”,  diz Leon

“Qualquer um de nós pode aparecer com um novo parceiro”,diz Leon

FAMÍLIA DO FUTURO?

“A instituição familiar está sempre em transição. O divórcio, por exemplo, já foi considerado inaceitável. E o que dizer, então, de uma família com mãe solteira? Família não é algo estático”, diz a socióloga americana. Ela admite, porém, que o assunto ainda é tabu. “Mesmo nos EUA, a maioria dos polis que entrevistei prefere ficar no anonimato, com receio do preconceito”, diz. O casal poli Henry, 43 anos, e Geneviève, 39, ouve nossa conversa no bar Delancey e resolve opinar. Eles contam que têm um filho de 10 anos, e que dividir a nova opção de vida com a família e os colegas de trabalho tem sido “gradual e penosa”. “Minha família é cristã tradicionalista. Foi dificílimo para eles entender nossa opção”, conta o casal, que sai com outros parceiros uma noite a cada fim de semana, sempre fora do lar. Se há algum programa durante os dias da semana, decide-se qual dos dois ficará em casa com a criança.

Henry e Geneviève jogam por terra a ideia de uma relação poli como um parque de diversões libidinoso: a fórmula, dizem, contém 60% de comunicação, 30% de capacidade organizacional e 10% de sexo quente. “Para mim, sexo não pode ser casual.Preciso ter uma conexão real com alguém para irmos para a cama”, diz Geneviève. O casal e o quarteto de amigos passeiam pelo coquetel com desenvoltura. A conversa com velhos amigos é mesclada com a busca nada disfarçada de se conhecer novas pessoas. “Em qualquer noite, podemos, tanto eu quanto Fukumi ou Kischa, aparecer com um novo parceiro. E vai ser tudo ok. Desde que seja feito com elegância, às claras, e que todos se sintam à vontade”, diz Leon.

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