REDE EM FÚRIA

Terreno propício ao anonimato, a internet tem ajudado a potencializar boatos, a desinformação e o rancor em cada um de nós. Saiba como os rumores se propagam e seus perigosos efeitos

 

Por Nathalia Ziemkiewicz

 

STATUS 37 - VAI ENCARAR?

“Olha lá, é ela, a mulher do retrato falado.” Fabiane de Jesus, 33 anos, não podia imaginar que seria confundida com uma sequestradora de crianças. Foi covardemente morta a socos, pauladas e pontapés quando estava a caminho de casa.

“Hoje de tarde dou um jeito nisso. Não vou ser mais estorvo pra ninguém.” Giana Laura Fabi, 16 anos, não aguentava mais os insultos de desconhecidos, depois que uma foto sua com os seios à mostra foi parar na internet. Suicidou-se com uma corda no pescoço.

 “Você sabia que o presidente é muçulmano? A mídia abafa isso.” Comentário no Twitter feito por um estudante do Estado de Illinois, EUA, sobre a “verdadeira” religião de Barack Obama.

Fabiane, Giana e Obama têm algo em comum. Todos eles foram, cada um à sua maneira, vítimas de um vírus comum e potente que costuma circular na internet e que, tudo indica, está longe de ser erradicado. Não se trata de uma praga tradicional, dessas que infetam computadores, mas sim de um mal mais complexo, movido a rancor e desinformação e que pode destruir a vida de uma pessoa. Que o digam os dois filhos e o marido de Fabiane Maria de Jesus, espancada e morta pelos próprios vizinhos, na cidade de Guarujá, em São Paulo. No dia 28 de abril, um retrato-falado atribuído a uma mulher suspeita de sequestrar crianças para rituais de magia negra havia sido publicado em um site noticialesco da cidade e, apesar dos alertas de que se tratava de um boato, a notícia ainda assim se alastrou como uma praga nas redes sociais. Sete dias depois, Fabiane estava morta e só então a versão verdadeira veio à tona. Segundo a polícia, não havia sequestradora alguma, tampouco rituais de magia, e o retrato-falado em questão havia sido feito pela polícia do Rio de Janeiro, há dois anos, na busca por uma mulher acusada de roubar um bebê.

Fabiane de Jesus, morta depois de um boato

Fabiane de Jesus, morta depois de um boato

TERRA DE NINGUÉM

Fabiane não foi a única vítima de uma rede em fúria. Ainda que seu caso tenha chegado ao limite do inacreditável, o fato é que a internet tem se tornado um terreno fértil para a raiva, o preconceito e a falta de informação. Levante o mouse quem nunca teve um amigo no Facebook compartilhando aquele velho boato ou mesmo defendendo uma atitude ou uma causa violenta? E o que dizer dos comentários que costumam acompanhar notícias on-line, quase todos carregados de julgamentos e ofensas? A adolescente Giana Laura Fabi não suportou ler os e-mails, posts e comentários extremamente grosseiros que inundaram a internet depois que fotos suas com os seios à mostra vazaram na rede pelas mãos de um namorado. Em novembro passado, ela foi encontrada enforcada em seu quarto, na pequena cidade de Veranópolis (RS). “Hoje de tarde dou um jeito nisso”, foi sua última mensagem no Twitter, anunciando um trágico fim. “Por permitir o anonimato, a internet nos encoraja a expor nosso lado mais obscuro e preconceituoso”, afirma Claudio Bertolli Filho, antropólogo e professor da Unesp. “Nela, surge uma personalidade humana bem diferente daquela que exercitamos no cotidiano.” No dia a dia, existe um autocontrole (e uma boa dose de medo) que nos impede de dizer, na cara do chefe, o que pensamos dele, assim como comentários e xingamentos homofóbicos não são feitos diretamente a um gay. O receio das consequências – a perda do emprego, um processo judicial – é um freio que praticamente inexiste na esfera virtual.

Giana Fabi, que se matou em novembro

Giana Fabi, que se matou em novembro

A ONG Safernet, voltada ao combate a crimes virtuais, realizou uma pesquisa que revela esse “outro lado” dos internautas. Dos entrevistados, 61% disseram se comportar de forma diferente nas redes sociais, enquanto 10% acham normal “zoar e xingar” pessoas na internet. O fato de a grande rede ter nascido e se estabelecido como um território propício ao anonimato tem grande influência sobre esse comportamento obscuro, mas, segundo especialistas, engana-se quem imagina estar em uma terra sem lei. “Se ficar configurado que a pessoa incitou a violência ou a prática de atos criminosos divulgando informações e despertando nos outros esse sentimento, ela pode responder por isso juridicamente”, diz Rosane Leal da Silva, doutora em direito pela Universidade Federal de Santa Maria e pesquisadora de crimes virtuais. Segundo ela, não é preciso ser exatamente o autor de uma mentira ou de uma incitação violenta para ser acionado legalmente. “Quem repassar a notícia, compartilhar ou a divulgar também está sujeito a um processo de calúnia e difamação”, diz a professora.

As redes sociais ajudaram a reverberar o rumor sobre o fim do bolsa família, no ano passado

As redes sociais ajudaram a reverberar o rumor sobre o fim do bolsa família, no ano passado

Na prática, porém, ainda é difícil identificar e indiciar culpados. Em maio passado, houve confusão em diversas cidades do Nordeste depois que boatos sobre o fim do Bolsa Família chegaram às redes sociais, levando muitos a correr para agências da Caixa Econômica. A Polícia Federal chegou a abrir uma investigação para apurar a origem do boato, mas concluiu que as redes sociais haviam apenas “reverberado” a mentira. Em 2005, os fabricantes de leite, assim como a Tetra Pak, fornecedora de embalagens longa-vida, foram bombardeados com dúvidas sobre uma possível repasteurização do leite. Donas de casa de todo o Brasil passaram a acreditar que o leite, depois de vencido, voltava para a fábrica para ganhar uma nova embalagem. Mesmo sendo economicamente inviável (o valor da caixa supera em muito o do leite), a mensagem assinada por alguém que “ficou sabendo de fontes seguras” circulou pela rede por meses. Até mesmo o governo federal, por meio do Ministério da Agricultura, viu-se obrigado a intervir, desmentindo o que não passava de uma lenda urbana. A disseminação de boatos que podem causar danos na área de saúde e em outros serviços básicos à população não é restrita ao Brasil. Durante a onda de manifestações que dominou diversas cidades da Inglaterra em 2011, não foram poucos os rumores que intensificaram ainda mais o clima de pânico entre a população. Uma mensagem disseminada no Twitter chegou a garantir que os animais do zoológico haviam sido libertados pelos manifestantes.

 

VERSÃO QUE FICA

Prédio da Esalq, tido como a fazenda do Lulinha

Prédio da Esalq, tido como a fazenda do Lulinha

A internet não inventou o boato, mas potencializou seu alcance e seu efeito nocivo, sobretudo com o uso de imagens manipuladas e fora de contexto. Durante meses, a imagem de uma fazenda na região de Valparaíso (SP), avaliada em R$ 43 milhões, circulou pelo Facebook como pertencente a Lulinha, filho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Esse boato surgiu em 2008 e até hoje tem gente compartilhando a mentira”, diz o analista de sistemas Gilmar Lopes, autor do blog e-Farsas, especializado em conferir (e muitas vezes desmentir) rumores na web. Foi ele quem desmascarou a farsa da “fazenda do Lulinha”, que, na verdade, se trata de um prédio da Escola Superior de Agricultura (Esalq), em Piracicaba. “O pior é que muita gente ainda veio me acusar de petista quando desmenti o tal post”, conta. A política tem sido arena fértil para a boataria virtual. Que o diga Barack Obama. Em 2007, passou a circular na internet um e-mail questionando a religião do então pré-candidato à Presidência dos Estados Unidos. Em público, dizia a mensagem, o candidato se diz cristão, “mas secretamente ele segue o islamismo”. O e-mail trazia ainda a foto do anel usado por Obama em seu casamento, com a inscrição: “Não há Deus senão Alá”. Apesar de a história ter sido veementemente desmentida pelo próprio candidato, a versão mentirosa seguiu como verdadeira para muitos americanos mesmo após Obama chegar à Casa Branca. Segundo uma pesquisa da Pew Research Center, realizada em 2010, um em cada cinco americanos dizia que seu presidente era, sim, muçulmano. Para a socióloga Maria Victória Benevides, as pessoas tendem a ver na internet um ambiente espontâneo e verdadeiro, ao mesmo tempo em que olham as mídias tradicionais cada vez com mais desconfiança. “A internet ganhou tal legitimidade que, muitas vezes, caímos feito patinhos nas armadilhas dela”, diz.

Barack Obama, em fotomontagem, vestido como muçulmano

Barack Obama, em fotomontagem, vestido como muçulmano

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