VOAR E GOZAR É QUESTÃO DE DECOLAR

Tá lá a moça deitada na cama, peladaça, dobras das pernas enganchadas nos antebraços e pulsos, num improviso de cama ginecológica, pra poder arreganhar bem nhá Buçanha e nhô Cuzão pra câmera – as verdadeiras janelas da alma. 

 

Por Reinaldo Moraes

 

STATUS 37 - PORNOPOPEIA

 

 

Troço amador pra burro, a foto, do tipo que prolifera na internet em sites pornôs ditos “amadores”, dos quais se espera mesmo que sejam imagens toscas, padrão celular antigo com escassos megapixels.

Essa moça de quem estou falando, bem fornida na foto, deixando ver ao fundo seus peitos boludos, talvez siliconados, e a cara, se não bonita, ao menos agradável, que o pescoço sustenta, num esforço crispado de permitir que ela mire a lente da câmera, quase a esboçar um sorriso que também pode ser só um ranger de dentes provocado pela tensão muscular, essa mina, repito, se estivesse botando cara de agonia e dor, ou de gozo, você diria que ela está prestes a dar à luz. Ou sonhando que um ser bicaralhudo lhe vara os dois orifícios recreativos de uma só vez.

Mas não; ela não está em trabalho de parto, nem de gozo. Nem mesmo se oferece propriamente a um voyeur punheteiro. Pelo menos, não um voyeur de gosto convencional. Isto porque nota-se na composição da foto um pequeno detalhe perturbador, um adereço, chamemo-lo assim, que atribui ao conjunto um quê de dadaísmo anárquico mesclado a uma forma virulenta de humor negro, e não me refiro à tatuagem abdominal que é possível vislumbrar em seu corpo, embora o ângulo raso em relação à câmera não permita identificar o desenho. Não, não, o detalhe a que me refiro não é a tatuagem na barrigota da mina.

O detalhe ou adereço é um modelo de Boeing 777, idêntico ao Boeing B-777 da Malaysia Airlines que sumiu em 2014 com 239 pessoas a bordo na rota Kuala Lumpur- Pequim, e que houve por bem aterrissar de bico dentro da vagina da moça. Sim senhor, bem no meio da buça tinha um 777, tinha um 777 no meio da buça da mina, e com o “777” pintado no leme do modelo da aeronave, pra não deixar margem a dúvidas. Não se vê o nome da companhia que opera o modelo entuchado naquela xota, mas, se calhar, era a velha e boa Sacanair.

Que extremas condições atmosféricas, que estúpida falha técnica ou humana teria provocado aquele estranho acidente não se sabe. Mas quem postou a foto – num tuíter, no caso –, isso é bem sabido: foi o funcionário da US Airways responsável pela comunicação da empresa nas redes sociais, em resposta a uma cliente que reclamava do atraso de um voo doméstico, nos States. O texto do tuíter oficial, de caráter conciliador, convidava a passageira reclamona a clicar num link que a remetia justamente à imagem da franga assada com o 777 da suposta Sacanair enterrado de frente em sua vagina até pouco antes da linha das asas. Toda a primeira classe e parte da executiva estavam lá embucetadas. A imagem do aeroporto ginecológico ficou no ar por cerca de uma hora, antes que alguém na US Airways se desse conta da megacagada.

Volto a lembrar: a brincadeira tinha um fundo bem tétrico na verdade, pois a suposta graça estava em insinuar que o paradeiro da aeronave real sinistrada na Ásia tinha sido por fim esclarecido: o 777 malaio não estava no fundo do Oceano Índico, e, sim, no fundo da vagina de uma provável quenga performática que deve ter recebido uns 100 dólares pra se deixar fotografar naquela pose aeroginecomodelística. Ou então trata-se mesmo de alguma amadora tarada por aviação.

A foto foi, afinal, retirada da rede e em seu lugar veio a desenxabida retratação da companhia: “Desculpamo-nos por uma imagem inapropriada que compartilhamos num link em uma de nossas respostas. Já removemos o tuíte e estamos investigando.”

Até onde consegui apurar, o encarregado dos tuíters da US Airways, e também da coligada American Airways, tinha recebido momentos antes a foto fatal de algum engraçadinho e, em vez de apagá-la no ato, resolveu curti-
la mais um pouco, terminando por linká-la inadvertidamente na resposta à cliente injuriada, de nome Elle Rafter. Se é que foi mesmo um ato irrefletido. Vai saber se o tal funcionário não estava simplesmente de saco cheio de responder reclamação de passageiro injuriado e não resolveu mandar tudo pro caralho, depois de pipar um cachimbo de crack no banheiro, ou algo assim.

Eu daria uma mecha dos meus escassos cabelos brancos pra ver a reação da tal da Elle Rafter quando abriu o link e viu o aerobucetão. “Porra”, deve ter explodido a mulher, “é isso que a companhia sugere que eu faça?! Que enfie o avião no meu portão no1?!” Bom, dona Elle, pelo menos o diligente funcionário não sugeriu que a senhora o reposicionasse no portão no 2, logo abaixo. Aí era capaz de doer um pouco.

A foto original, diga-se de passagem, pode ser acessada dando uma busca pelos termos em inglês: “amateur girl crazy bizarre insertion”. A do avião é uma entre outras fotos de uma galeria exibindo formas bizarras de inserção vaginal, que incluem utensílios variados, como mangueiras de aspirador de pó, velas acesas e bonecas Barbie.

Como era previsível, o desastrado tuíte da US Airways com a imagem pornô, do tipo classificada nos Estados Unidos como NSFW (“not safe for work”, algo como “não é seguro abrir no trabalho”), tornou-se viral na internet e provocou uma enxurrada de tuítes graciosos, dos quais dou uma pequena amostra:

“Já iniciaram as buscas pela caixa-  preta do avião? Qualquer coisa, contem comigo.”

“Eu sempre disse que a US Airways oferece amplo espaço para as pernas.”

“A reportagem da CNN já ligou pra US Airways: ‘Ouvi dizer que vocês acharam um avião perdido?’”

“Ela deve ter agradecido a Deus que não se tratava de um 787 Dreamliner.”

“Parece que a US Airways opera com mais destinos do que a gente imaginava.”

E por aí vai. Essa história do avião embucetado me lembra um episódio ocorrido em 1995, esse sim fruto de uma molecagem do funcionário responsável por mandar mensagens aos painéis luminosos da rodovia Castelo Branco, que liga a cidade de São Paulo ao oeste do Estado homônimo. Num determinado dia daquele ano, os motoristas que chegavam à capítal, vindos do interior, se depararam com um primeiro aviso que dizia: “Atenção! Mulheres gostosas a 1 km!” Logo a seguir, outra mensagem luminosa: “Mulheres gostosas a 200 m.”
Findos os 200 metros, mais um aviso: “Mulheres gostosas: saída 26b.”

Não há nenhum registro confiável apontando quantos motoristas carentes ou apenas curiosos pegaram a saída 26b pra ver as mulheres gostosas que o município de Carapicuíba, às margens da Castello, tinha a oferecer, a julgar pelas mensagens. O que se sabe, ao certo, é que o funcionário da empresa que administrava a rodovia foi pro olho da rua. Se ainda estiver desempregado e for meu leitor, fica a sugestão: tem uma vaga de tuiteiro corporativo à sua espera lá na US Airways. Se você pegar esse job, não se esqueça de avisar a gente.