AS VÁRIAS FACES DE DAVID CARR

Ele foi viciado em cocaína e crack, precisou ser internado várias vezes, perdeu amigos e quase ficou sem poder ver as filhas. De junkie assumido a um dos mais poderosos colunistas do The New York Times, a vida desse americano, que vem ao Brasil para a FLIP, agora vai virar filme em Hollywood

 

Por Ronaldo Bressane

 

STATUS 38 - PERFIL

 

“Adoro festas. Mas é melhor não tomar nem um golinho. Posso sair algemado.” Assim respondeu David Carr quando perguntado por Status se iria provar a famosa cachaça Maria Izabel ao chegar a Paraty, onde participa da Festa Literária Internacional. Colunista do The New York Times, onde faz crítica de mídia, cultura e música com notável sagacidade, Carr vem debater o futuro do jornalismo. Mas não há como não apelar a seu passado para puxar conversa: no livro A noite da arma (Record), Carr detalha com sinceridade impiedosa os longos tempos em que traiu amigos e amores, queimou dinheiro, o senso de noção e o respeito de colegas, e por pouco nunca mais conseguiu olhar as filhas nos olhos – de tanto chafurdar na birita e cheirar caminhões de cocaína (e ocasionalmente vendê-la).

“Eis o que mereço: hepatite C, uma pena a ser cumprida em prisão federal, HIV, um frio banco de parque, uma morte prematura e vazia. Eis o que tenho: uma bela casa, um bom emprego, três filhas lindas”, conta Carr. Como aquele cara se transformou nesse cara? A resposta tem pouco mais de 400 páginas. Carr começou a cheirar cocaína aos 21 anos. “Foi mágico; de súbito, eu tinha feito a descoberta mais importante da minha vida. Meu Deus, posso ver! Fusão a frio no banheiro; a melhor coisa de todos os tempos. Minhas endorfinas pularam com aquela nova oportunidade, abraçando-a e sentindo todos os seus esplêndidos recantos.” No começo de 1986, experimentou freebase, mistura de cocaína e heroína, e, depois, o crack. “A fumaça tornou-se um foguete farmacológico em aproximadamente quatro segundos e meio.” Alguns dos truques dos mafiosos que Carr aprendia de noite – como trapacear, lidar com a polícia, com vagabundos, criminosos, advogados e armas – o ajudavam em seu trabalho jornalístico durante o dia, e assim, apesar da dependência, ele foi progredindo no ofício.

Ambos os mundos começaram a colidir em 1986, quando fez uma reportagem detalhada em um grande centro de desintoxicação – mais tarde, voltaria para lá como paciente. Mas, na maior parte dos anos 80, controlando bem os negócios na pequena Minneapolis, reinava: tinha um emprego, cocaína e amigos. Quando fez 30 anos, um amigo lhe deu alguns cogumelos e o levou até os fundos de um bar para uma rápida cheirada. A porta se abriu e Carr viu uma banda, serpentinas e mais de 100 pessoas – roqueiros, atores, traficantes de drogas, advogados, jornalistas e mafiosos – usando camisetas em que se lia “Sou amigo íntimo de David Carr.”

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Fichado pela polícia

Após quatro internações, o jornalista estabilizou-se, combinando a vida de jovem escritor talentoso, que vivia dando furos de reportagem, com noites sombrias povoadas de gângsteres, e aos pouco tornou-se um fornecedor estável da comunidade criativa de Minneapolis, vendendo pequenas quantidades de cocaína para músicos, atores e garotos da night. Divertido e festeiro, ele tinha as conexões certas e os bolsos lotados de pó. E não namorava mulheres: fazia reféns. “Casei com Kim por todas as razões equivocadas e rapinei nossa conta bancária.Havia noites em que eu chegava e ia para a cama ao lado dela como uma pessoa normal e, quando ela adormecia, eu escapulia da cama e ia para um beco do outro lado da rua encontrar uma mulher que conhecia”, diz sobre sua primeira esposa. Afirma ter trapaceado com pó para conquistar mulheres e melhorar sua aparência – “longe de ser bonito, tenho um rosto que parece esculpido em purê de batata, e minha ideia de exercício é correr dois metros.”

O americano com sua terceira esposa, Jill

O americano com sua terceira esposa, Jill

Uma noite, em uma festa para um traficante, conheceu Anna, que tinha um ilimitado suprimento de cocaína. Ele a ensinou a fumá-la; ela o ensinou a injetá-la. No ano seguinte, Anna daria à luz um par de meninas. “Estávamos fumando crack no dia em que rompeu a bolsa d’água de Anna, e as gêmeas nasceram prematuras em dois meses e meio, com menos de um quilo e meio cada uma. Amigos boicotavam nossa casa: tínhamos nos tornado um cruel e científico quadro de progressão da dependência.” Ambos terminaram em tratamento e as filhas foram para lares provisórios. Como só Carr conseguiu ficar sóbrio em sua última internação, ele conquistou a guarda das gêmeas. “Depois disso (ele ainda se casaria novamente, com uma bela loura chamada Jill, com quem teve mais uma filha), vivi apagando incêndios a maior parte das duas últimas décadas, por conta das promessas que a reabilitação traz – com a sorte, a diligência e o destino guiando-me para uma vida além de todas as expectativas.”

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Carr foi preso pelo menos nove vezes por posse de drogas e bebdeiras, mas nunca por tráfico

Com suas filhas gêmeas

Com suas filhas gêmeas

 

AMNÉSIA SELETIVA 

Por conta da cheirantina, que lhe turvou para sempre a memória (David Bowie – que, aliás, chegou a tocar em uma festa de Carr – já confessou o mesmo problema), o jornalista entrevistou penosamente mais de 60 pessoas para reconstituir a lembrança de jacas & mancadas em série. A Noite da Arma é uma admirável volta à cena do crime; usando métodos do jornalismo e técnicas da ficção, Carr faz um retrato fiel de seu filme queimado. Apesar das abomináveis atrocidades cometidas em nome de um último tirinho rebatido com meia garrafa de vodca,o Carr que emerge do livro é uma mistura de Dylan Thomas com Tim Maia: pode lamber o fundo do poço, mas o humor irlandês nos faz rir quando ele se enxerga na sarjeta. Além dos problemas com a cadeia por conta das drogas (ele foi preso pelo menos nove vezes em apenas 18 meses entre 1987 e 1988, sempre por posse de drogas, brigas e bebedeiras, mas nunca por tráfico), Carr ainda descreve a luta pela guarda das filhas e o modo quase milagroso como sobreviveu a um câncer. Se, como dizia Rimbaud, “o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria”, ter se tornado um colunista poderoso coroa essa trajetória de exorbitâncias. Depois de ficar limpo, Carr foi galgando postos em redações de jornais em Minneapolis, depois em Washington, e então foi trabalhar em um site chamado Inside.com. Em seguida virou redator das revistas New York e AtlanticMonthly, até que em 2002 foi contratado como repórter e colunista de mídia do The New York Times. Seu livro virou best-seller nos EUA, pagou os estudos das filhas e está sendo roteirizado: caso entre com sucesso para a aparentemente infinita indústria de filmes de superação americana, adicionará outro parágrafo à sua história.

Se é verdade que a verdade é a me-lhor droga, seu livro A Noite da Arma é uma bela confirmação. Mesmo tendo sido tão viciantemente honesto sobre seu passado, quando olha para seu livro agora lê algo embaraçoso ou terrível?

– Acho que quase toda página no livro é profundamente embaraçosa para mim. Na verdade, eu nunca li o livro de novo; quando o fiz, sempre fingi que o protagonista fosse outra pessoa – que foi a forma como na verdade eu escrevi. Sou um pai e um marido que vive no subúrbio, corta a grama do jardim e sai de vez em quando para ver um show de rock em Nova York.

E gosto de pensar que tenho pouco em comum com aquele cara do livro, que batia em pessoas, volta e meia era preso e colocava qualquer coisa em seu nariz e em sua boca. Ele é, nessas páginas, meio que um monstro. O que, em algum nível, eu também sou.

Guerra às drogas ou legalização das drogas?

– Sou extremamente cético em relação à legalização da maconha nos Estados Unidos. Me preocupo que isso poderia aumentar o consumo e que a erva seja hoje tão mais forte do que era quando eu costumava fumar. Mas também tenho de dizer que não vejo nada demais nas variadas formas que a legalização tem tomado. E acho extremamente importante revisitar as leis que levam as pessoas à prisão – como os muitos tipos e durações de sentença. Os EUA estão agora no seu limite máximo de pessoas que podem ser engaioladas, então precisamos racionalizar nossa abordagem em relação às drogas de todos os gêneros, incluindo os narcóticos.

Você assina seus e-mails com a lúcida citação de Hunter S. Thompson:“Apele a Deus, mas reme para longe das pedras.” Acha possível alguém escrever como Thompson em qualquer revista ou jornal de hoje?

– Acho que Michael Hastings trouxe algo daquele espírito de reportagem antes de morrer (Carr escreveu sobre ele recentemente em sua coluna). E acho que o ethos de Thompson revive em um monte de blogs, nos quais os repórteres estão preocupados em contar a verdade, ou ao menos a sua versão da verdade, sem se preocupar em acessar as fontes oficiais para pensar. E acho que a tendência mais forte, tanto em jornais quanto em revistas – inclinadas mais a cozinhar análises em tempo real do que em apenas falar sobre o que aconteceu –, pode traçar suas raízes na literatura de Hunter S. Thompson.

STATUS 38 - PERFIL

Você vai dar aulas em uma universidade agora. Fora isso, planeja algum livro?

– Estou indo viver nas montanhas próximas a Nova York e vou brincar em vários projetos. Um deles vai acabar virando livro algum dia. Como jornalista, acho profundamente satisfatório fazer algo permanente, algo que dure e de que me orgulhe como escritor, em oposição ao trabalho diário que parece desaparecer em segundos. Mas o processo de escrever um livro é extremamente difícil – e não é algo que eu gostaria de levar de uma forma leve. Tem de ser um livro com forte potencial comercial – algo que não parece pouca coisa no mercado de hoje – e um livro que ainda me desse satisfação intelectual e criativa. É uma agulha difícil de atravessar, mas pode acontecer.

E o que tem lido?

– Começando a ler Os deixados para trás (Planeta), de Tom Perrotta, porque amei a série da HBO. Acho que The circle, de Dave Eggers, um jovem romance adulto, foi uma investigação admirável sobre aonde pode nos levar nosso caso de amor com essas megacorporações tecnológicas. Li Empathy exams, de Leslie Jamison, um livro de ensaios espetacularmente bom. E este verão planejo ler The goldfinch, o novo romance de Donna Tartt.

 

O poderoso Colunista  do The New York Times

O poderoso Colunista
do The New York Times

Você disse que vai direto a shows.O que tem escutado?

– Adorei o novo disco do Parquet Courts (banda indie de Nova York), ouço sempre bem alto, a alma reconstruída do Sam Smith acaba comigo, amo a pura sensibilidade pop de Ed Sheeran e não consigo tirar o Digital witness da St. Vincent das minhas orelhas ou da cabeça. Ela é incrível. Acho que a Dessa, a rapper que vem da minha cidade natal em Minneapolis, vai virar algo grande logo logo. E, quando não sei o que ouvir, coloco no canal de cumbia na Pandora e danço sozinho feito um gringo ogro.

Bom, se você gosta de dançar, vai adorar as festas de Paraty na Flip… Aliás, não pode deixar de provar a Maria Izabel, uma das melhores cachaças do País, que é de lá.

– Adoro festas. Mas é melhor nem provar um golinho. Terminarei a noite algemado. Verdade. Quase sempre acontece.