FUQUE-FUQUE TOUR

Desconto ovulatório? Sim, essa é a nova jogada de uma operadora de turismo dinamarquesa para atrair clientes que pretendem fazer um filho em viagem

 

Por Reinaldo moraes

 

STATUS 38 - PORNOPOPEIA

 

Aletta Haggard, 32 anos, e Magnus Rasmussen, 38, formam um casal loiro e saudável em idade reprodutiva e sem filhos. São dinamarqueses e moram em Copenhague. Magnus é engenheiro especializado em automação industrial na área de alimentos. Aletta é professora de história marítma da Escandinávia no colegial. De uns tempos pra cá, ela começou a sonhar em ter filho. Um só já tava bom. Quando tocou no assunto com Magnus, porém, notou que o maridão não deu pulos jubilosos de alegria nem nada parecido. Um filho?! Um ser berrante, mijante, cagante, carente e faminto implantado no centro daquele conforto todo em que eles viviam? Pra quê? Magnus, de fato, não pronunciou essas palavras, mas a cara dele sim, e como!

Como Aletta e Magnus, há na Dinamarca milhares de casais ainda jovens na mesma situação: sem filhos e com uma vida sexual não exatamente empolgante. E ainda por cima com a mulher do casal se aproximando de uma faixa de idade complicada pra se procriar. Um estudo recente apontou que, em 1970, a dinamarquesa tinha o primeiro filho em média aos 24 anos. Agora, a idade média da primigesta é 29 anos, sendo grande o número de mulheres que decidem engravidar aos 35 anos ou mais, lançando mão de dispensiosos tratamentos de fertilidade bancados pelo ainda eficiente estado de bem-estar social dinamarquês. Não por outra razão a taxa de natalidade no país só vem declinando nos últimos 27 anos, batendo hoje em 1,7 nascimento por família, número insuficente para garantir a reposição populacional no país.

Diante desse quadro, uma agência de turismo dinamarquesa veio com uma ideia no mínimo criativa. Observando que, segundo uma pesquisa, 46% dos dinamarqueses tendem a fazer mais sexo durante as férias ou feriados, e que
10% de todos os bebês nascidos no país foram concebidos no exterior, a Spies Rejser Travel resolveu dar sua contribuição pra tentar resolver a questão demográfica dinamarquesa lançando a campanha “Do it for Denmak”. Faça isso pela Dinamarca, sendo que o “isso” (it) é aquilo mesmo que você tá pensando. A operadora de turismo faz a sua parte oferecendo o chamado “ovulation discount”, ou “desconto ovulatório”, a casais dispostos a passar um fim de semana romântico em lugares inspiradores como Paris e Nova York, supostamente mandando bala adoidado e sem camisinha de modo a dar um reforço na taxa de natalidade do país. E se o casal provar que concebeu um filho durante a viagem ainda ganha três anos de suprimentos para bebês, mais um fim de semana grátis na mesma cidade estrangeira em que o rebento foi concebido, com o pequeno “estrangeiro” incluído.

Aletta Haggard se entusiasmou de cara com a campanha da Spies Travel e foi assim que ela se viu com Magnus no charmoso Hotel du Mont Blanc, em St. Germain-des-Prés, o famoso bairro boêmio parisiense. Uma garrafa de champanhe esperava por eles no quarto, cortesia da agência. Champanhe sorvido, Magnus arriou as calças e sugeriu à mulher que o regalasse com um joli boquette à Edith Piaf.

“E como é um joli boquette à Edith Piaf?”, quis saber Aletta, toda ouriçada.

“Não sei. A Edith Piaf nunca me chupou, que eu me lembre. Hahahahaha!”

Aletta caprichou no joli boquette, imaginando que seria apenas o preâmbulo de uma bela trepada. Não conseguiu evitar, contudo, que o rejuvenescido pênis marital desse uma tremelicada e inundasse sua laringe de seiva branca.

Saíram depois pra passear e comer ostras num restô da rue du Boulois, na rive droite, onde Magnus abateu duas garrafas de Sancerre e um conhaque duplo com o café. De volta ao quarto do hotel, ainda esvaziou o frigobar vendo um jogo “imperdível” da Eurocopa na tevê e deu um apagão até a manhã seguinte, quando, muito ocupado em vomitar e gemer de enjoo e dor de cabeça, não quis saber nem de ouvir falar em sexo.

Ali pelo meio da tarde, com Magnus mais ou menos recuperado da ressaca, saíram pra almoçar num restaurante bem ranqueado pela versão dinamarquesa do guia Fodor’s, um título que o casal não deixaria de achar sugestivo se entendesse português. Acharam o restô caro e metido a besta. A rolhas tantas, porém, tiveram a surpresa de ver entrar no mesmo restaurante um casal amigo, Björn e Birgitta, que também tentava desfrutar as delícias da Cidade Luz com o mesmo Fodor’s dinamarquês em mãos. Björn frequentava o mesmo bar e a mesma turma do Magnus, lá em Copenhague.

Um novo porre viking estava a caminho, com a participação mais comedida das mulheres. Às 11 da noite, Aletta e Birgitta largaram seus alcoolizados e endemoniados consortes num café próximo da rue St. Denis, os dois falando abertamente em pegar umas putas como se as patroas não estivessem por perto ouvindo tudo, e saíram juntas, também putas, mas da vida, com o propósito de voltar cada qual pro seu hotel, já meio arrependidas da viagem. E é o que teriam feito se não tivessem sido abordadas por dois brasileiros no metrô, um deles um negro sarado, estilo MMA light, percussionista de um grupo de samba carioca em turnê pela Europa. O outro, um soteropolitano moreno de pele e aloirado de cabelo, dava aulas de capoeira e fazia bicos variados, com o visto de permanência na França estourado havia um bom tempo.

Quando deram pela coisa, as dinamarquesas estavam no modesto studiô do baiano em Pigalle fumando maconha, tomando um troço fortíssimo que os brasileiros chamavam de “kashassa” e tentando aprender uma certa dança da boquinha da garrafa, ao som de uma música cuja letra –Vai ralando na boquinha da garrafa / É na boca da garrafa / Vai descendo na boquinha da garrafa / É na boca da garrafa…” – elas não chegaram a compreender em todo seu intenso lirismo. Mas roçar e descer na boquinha da garrafa, isso logo aprenderam a fazer com desenvoltura,em amigável rodízio com os rapazes.

Aletta conseguiu chegar antes de Magnus ao hotel, e quando acordou deu com ele capotado na cama. O bicho só acordou na hora de pegar o avião de volta pra Dinamarca. O maridão não ficou sabendo da pequena aventura da patroa nas mãos dos fogosos brasileiros. Ela tampouco lhe perguntou como tinha sido a sua noite em companhia do amigo Björn, embora uma microcalcinha cor-de-rosa saindo pra fora do bolso dele, com um coração vermelho estampado na xota e Souvenir de Paris escrito na bunda, fosse um bom indício do que pode ter rolado lá na meretrícia rue St. Denis até o sol raiar.

Na segunda de manhã, já de volta a Copenhague, o mesmo teste de gravidez que ela tinha feito na agência antes da viagem, e que dera negativo, agora não deixava dúvidas: positivo! Ela estava grávida! Além de um bebê, ia também ganhar o prêmio da agência de turismo por ter engravidado durante a viagem. Beleza!

Hoje, prestes a dar à luz, Aletta ainda não sabe de quem terá capturado o espermatozoide que a fecundou, se do baiano capoeirista ou do deus de ébano carioca, seus dois professores da voluptuosa dancinha da garrafa. Ela torce pra ter engravidado do sambista brasileiro. Ao menos terá a oportunidade de ampliar um pouquinho o monótono Caran D’Ache étnico da Dinamarca. Quanto ao Magnus, tudo bem. Viking já tá acostumado com aquele capacete de corno mesmo.E viva a boquinha da garrafa!

 

Ilustração Pedro Matallo