MÔNICA MARTELLI

A atriz fala sobre o sucesso no teatro e no cinema e não foge de nenhum assunto: sexo, política, aborto, drogas e, é claro: o que elas (e eles) querem em um relacionamento

 

Por Pedro Henrique França, do Rio de Janeiro

 

STATUS 38 - ENTREVISTA

 

A bagunça na sala é generalizada. É sábado de sol, estamos em um confortável apartamento no Leblon, Rio de Janeiro, mas o que chama mesmo a atenção  são as pilhas de jornais e papéis espalhados pela mesa, enquanto gritinhos de criança ecoam pela casa. São amiguinhas da pequena Julia, 4 anos. A mãe, a atriz Mônica Martelli, chega de olhos ainda ligeiramente inchados. “Amor, estou exausta”, confessa. “Estou com estafa.” O cansaço tem razão de ser. Separada há dois anos do produtor musical Jerry Marques, namorando a distância há pouco mais de um com Patrice de Camaret, empresário e diretor do Instituto ABCD (que discute a dislexia), é ela quem toma conta da casa e dos projetos. Bem-sucedidos, diga-se. O mais recente, o filme Os homens são de Marte… e é pra lá que eu vou, está com mais de um milhão de espectadores. Nem sempre, porém, a maré de Mônica foi cheia. Cansada dos testes sem sucesso na TV Globo, resolveu, há nove anos, seguir as dicas da mãe – uma feminista com “f” maiúsculo – e foi falar ao mundo sobre o que sentia e o que mais gostava de sentir: o amor. Inspirada na seca de uma solteirice de quase três anos, Mônica criou Fernanda, a personagem do monólogo homônimo que levou mais de dois milhões de pessoas ao teatro e virou filme. Trata-se de uma mulher bonita, independente, à beira dos 40 e que procura um parceiro para dividir a vida. Amor é palavra e sentimento escancarado muitas vezes – como gíria, inclusive, ao longo das quase duas horas de conversa. É do amor que vão se inspirar os próximos passos. Em outubro, ela estreia, também no GNT, seriado inspirado na peça e no longa. Em 2015, estreia novo espetáculo Minha vida em Marte, agora com Fernanda já casada. O que não faltam, para ela, são variações sobre o mesmo tema. Em matéria de amor, Mônica é ativista, sem demagogia.

A Fernanda foi inspirada em seus quase três anos de solteira. O que tentou retratar nessa mulher?

A Fernanda é uma mulher independente, bem-sucedida. Ela não está em busca de um marido, ela quer um parceiro. Tem 40 anos e está desesperada por isso. Para mim, foi muito importante conseguir falar escancaradamente sobre isso, sem pudor. Sou filha de feminista e a vida inteira ouvi falar mal de homem e de casamento. Talvez a explicação esteja aí. Eu não tenho medo nem vergonha de falar que quero um amor e quero casar, sim. Porque todas as mulheres querem. E os homens também.

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Em cena do filme, Os homens são de Marte… e é pra lá que eu vou. Sucesso de público

Será?

Sim. Essa brincadeira de “tô indo pra forca” é uma bobagem. Homem, quando casa, sabe como é bom para ele. Inclusive, é melhor para eles do que para elas. O casamento, para o homem, é incrível.

Por quê?

Por mais que ele esteja participando efetivamente nas nossas vidas, o homem, só por ser bem-sucedido, já é uma pessoa admirada e valorizada. A mulher tem que ser bem-sucedida, ser boa mãe, dar conta da casa, fazer lista de compras. E ainda tem que estar gata e gostosa à noite para transar. O casamento para o homem é um grande negócio.

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Mônica na peça Os homens são de Marte… e é pra lá que eu vou.

A idade pesa mais para a mulher?

A Fernanda tem quase 40 anos, não casou e não teve filho. Como ela fala no filme, óvulo tem data de validade. A questão do relógio biológico é cruel com a mulher. Por mais que a medicina esteja avançada, não é a mesma coisa. Perdi três filhos antes de ter a Julia, aos 40.

Fica mais difícil voltar para o jogo depois dos 40?

Em um país como o Brasil, com 40 anos você é praticamente invisível. No meu caso foi diferente porque quando me separei estava com muito bode de outra relação, de um casamento de dez anos, com um final muito desgastado. Separar foi uma libertação. Andava na rua como se fosse mulher casada, não olhava nem para os lados, com a libido zero. Quis viver esse momento sem ninguém. Mas logo depois comecei a trabalhar muito, e a ver o que era criar uma filha sozinha.

Mas você não está mais sozinha.

Não (risos). No início nem queria conhecer ninguém, fiquei de bode de homem, mas uma amiga [a colega Barbara Gancia] apresentou um amigo e aí… Mas vou falar uma coisa, que serve para várias mulheres: a gente não pode ter medo de viver o luto, a dor da separação. Fui eu que quis me separar, e tomar essa decisão é uma dor muito grande.

Durante as fases de solteirice, do que você sentia mais falta?

De viver a dois. Não suportava mais aquela história de sair, ficar com um cara e, no dia seguinte, não ter notícia, não rolar. O que mais sentia falta era da palavra vínculo, eu queria vínculo, entendeu? A coisa chegou a um nível que bastava ser educado para eu me apaixonar. A cena do filme em que ela se encanta na fila do supermercado aconteceu comigo. Estava em um shopping, ia descer a escada rolante, quando um homem me deu o lugar para ir primeiro. Abri um sorriso e pensei “será que esse é o homem da minha vida?” (risos).

O segredo pode estar em viverem em casas separadas?

Acho que você tem que ter um arranjo com seu parceiro e ver o que é melhor para aquele amor agora. O meu melhor agora é o que estou vivendo, eu no Rio, ele em São Paulo. Mas estamos falando de uma mulher de 46 anos, que já teve uma experiência de dez anos de casamento e tem uma filha. Se a gente for pensar em uma mulher de 35 que nunca casou nem teve filho, claro que ela quer vivenciar o casamento, morar junto e dormir de conchinha todo dia. E pode ser que daqui a um ano eu fale: “Amor, quero véu e grinalda.”

Nesta matemática da relação a dois, o sexo está em que lugar? Ele é mesmo o termômetro da relação?

Para mim, é. Acho sexo muiiiiitooo importante.

E o sexo com uma mesma pessoa durante dez anos pode ser bom?

Pode, porque você evolui na sua intimidade sexual, nas fantasias. Quando falo em fantasia, não é vestir de enfermeira. Tem gente que topa. Eu não gosto porque já sou atriz, então me vestir de enfermeira parece que estou trabalhando, fazendo uma personagem (risos). Com intimidade você se solta na cama, fala os seus desejos para o seu parceiro.

E tudo bem estar com uma pessoa e buscar o desejo com outra?

Se for uma fase, até tudo bem. Mas se sentir que vou ser só amiguinha dele para o resto da vida, para mim é difícil. Sou uma mulher que tem uma sexualidade grande ainda. Acho que lá na frente, beeem lá na frente, a amizade é o mais importante. Aliás, amizade é tão importante quanto o sexo, porque você precisa conversar com aquela pessoa, dividir sua vida. O que costuma acontecer muito é a mulher perder o desejo pelo homem, porque o tesão da gente passa pela admiração. Se ela acaba, fica muito difícil transar. Por isso é muito comum ver mulheres com homens que nem são tão bonitos. A beleza do homem não interessa para a mulher.

Já passou por alguma saia justa entre quatro paredes?

Nunca brocharam comigo. Mas já passei por uma situação, na minha época de solteira lá atrás, com um daqueles caras lindos de morrer. Ele transava se amando, se olhando, se tocando. Para você ver como beleza é uma coisa muito relativa.

E tamanho é documento?

Homem bem dotado pode ser que seja mais seguro, porque o órgão sexual masculino é de um valor para o homem maior do que para a mulher. Se o cara manda muito bem, é inteligente, sabe fazer uma mulher feliz na cama, não necessariamente os centímetros vão contar para a gente.

O sexo ficou mais ou menos importante depois da solteirice?

Agora, mais do que nunca, só penso no assunto. Compro calcinha nova toda semana. Sexo está ocupando um espaço enorme na minha vida. Estou naquela fase em que falo pelo telefone e já fico com vontade. Naquela fase de dar inveja (risos).

Você é uma mulher alta para os padrões brasileiros. Isso assusta os homens?

Amor, acho que assusta. A mulher alta passa uma segurança. E talvez eu aparente isso, quando na verdade não sou. Sou insegura, adoro sentar no colo, gritar “amor, pelo amor de Deus, me ajuda”. Eles gostam que a gente precise deles. E, mesmo que você não precise, é bom fingir que sim. Às vezes, acabamos esquecendo disso. Porque a vida levou a gente a ser muito autossuficiente. No fundo, passamos essa ideia de mulher bem resolvida. Mas a gente também quer colinho.

Você fez alguns papéis pequenos na Globo, no início da carreira. Notou uma mudança de tratamento depois que alcançou o sucesso sozinha?

Minha carreira é contada antes de Os homens são de Marte… e depois. Antes eu fazia milhões de participações, fiz tartaruga, galinha, teatro infantil, tudo que você pode imaginar. Era teste que não acabava mais. Até que percebi que alguma coisa não acontecia. E vi que o melhor era ter uma vida autoral. Um dia minha mãe virou para mim e disse: “Querida, vai pra praça, sobe em um caixote e mostra pro mundo seu texto.”  Foi o que fiz. Peguei meu texto, fui para o teatro e mudei minha vida. Comecei em uma sala de 100 lugares, de repente tinha gente na escada, duas sessões por dia. Pensei “caramba, minha peça é um sucesso”. Logo depois fiz a novela Beleza pura, depois Ti ti ti e aí Dilema de Irene, no GNT. E não parei mais. Acho que minha estrada principal serão sempre os meus projetos.
A vida me mostrou que é dirigindo meu carro que eu brilho.

STATUS 38 - ENTREVISTA

Você está em um programa, o Saia justa, que já registrou divergências entre as integrantes em edições anteriores. As mulheres são mais competitivas entre elas que os homens?

Existe uma competição muito grande na mulher que é relacionada à beleza. No homem a disputa vem pelo poder. No Saia justa tem uma coisa muito específica, porque nós ali entendemos logo de cara que cada uma veio de um lugar diferente e é por isso que a gente está ali… Somos pessoas completamente diferentes e é isso que enriquece o programa.

Com Barbara Gancia, Astrid Fontenele e Maria Ribeiro, suas colegas no programa Saia Justa, do Gnt

Com Barbara Gancia, Astrid Fontenele e Maria Ribeiro, suas colegas no programa Saia Justa, do Gnt

Estamos em ano de eleições. Você já tem candidato?

Não.

 Mas já eliminou algum?

Ainda não, estou analisando o discurso de todos eles.

Você aprova o governo do PT?

Sempre tive simpatia pelos candidatos do PT. E, apesar de todas as irregularidades e da roubalheira que decepcionou muita gente, admirei o que o Lula fez. Ele deu autoestima ao brasileiro, o colocou como protagonista do nosso país. Quem fala mal do Bolsa-Família e diz que o programa só serve para criar vagabundo é gente que está navegando de iate. Quero ver se algum candidato de oposição tem coragem de voltar atrás nesse projeto. Eu quero saber como esses candidatos pensam o Brasil. Eu quero um país em que eu não precise andar com minha filha de carro blindado, que seja mais igualitário, que os pobres tenham ascensão social, sim. Qual é o candidato que pensa dessa forma?

O que achou dos xingamentos à presidenta na abertura da Copa?

–  Achei aquilo deprimente. Um estádio que não tinha um negro dentro, lotado de mauricinhos, onde a vaia começou na área vip, e os vips reclamando que a cerveja estava quente… Devia era estar pelando! Acharia deprimente com qualquer governante que estivesse ali. Xingar um governante, palavra de baixo calão, não me agrada. Principalmente sendo uma mulher, porque o preconceito em cima da mulher é muito grande.

Já virou rotina discutir algumas polêmicas em ano de eleição. Uma delas é a legalização do aborto. Você é a favor?

Sou. A legalização do aborto no País é uma questão de saúde, muitas meninas são mortas diariamente por fazer  abortos ilegais. Para mim não é mais uma questão de religião ou de governo, é de saúde.

E qual é sua posição com relação à legalização das drogas?

Acho que tem que legalizar a maconha. Sou a favor também, como o Uruguai, agora, legalizou. Quando não legaliza, você cria o poder paralelo. Mas a base de tudo, inclusive para legalizar, é educação.

Falamos da Fernanda e de você, que são exemplos de mulheres do século XXI. Por que mulheres como a Fernanda não estão plenamente satisfeitas?

Essa harmonia é o desafio desta nossa geração. Porque viver sem o amor não é possível. Todo ser humano quer viver o amor, homens, mulheres, independentemente de sua orientação sexual. Acho que o desafio hoje é equilibrar a vida profissional com o amor. Por que isso é difícil ainda? Porque você tem que se dedicar a um e a outro. Eu não quero ter uma vida bem-sucedida e chegar em casa sozinha, sem ter em quem pensar. Acho que a geração da minha filha vai ser mais harmônica, porque os preconceitos serão menores em relação a tudo.