O PARAÍSO VIROU PÓ

Os bastidores do tráfico de drogas em Bali, na Indonésia, um submundo comandado por surfistas brasileiros onde o céu e o inferno andam lado a lado

 

Por Steven Allain, de Bali

 

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O brasileiro Renato acelerava sua moto pelas ruas de Canggu, um dos bairros mais procurados por surfistas em Bali, a caminho de uma coleta que já fizera dezenas de vezes. Ele havia pago um taxista balinês para retirar uma entrega importante: um pacote contendo um quilo de cocaína vindo da América do Sul.

Os dividendos da transação garantiriam mais alguns meses no paraíso para qualquer surfista brasileiro. Mas, naquele dia, seu cotidiano de surfe, baladas e vida boa estava prestes a mudar para sempre. Policiais disfarçados, vestindo bermuda, chinelo e camiseta regata, brotaram de todos os cantos quando Renato apareceu no local combinado. Percebendo a movimentação, ele derrapou sua moto e tentou escapar antes de pegar as drogas. Um policial agarrou sua camiseta e apontou um revólver para sua nuca. Renato ainda acelerou, mas já era tarde demais. Uma coronhada o derrubou inconsciente.

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As Pranchas e equipamentos esportivos são ideais para o transporte da cocaína, vendida por até US$ 100 mil o quilo

Ele acordou no banheiro de sua casa, algemado à privada. Vários policiais revistavam cada canto do luxuoso domicílio que ele alugava com os ganhos do tráfico. Sua namorada, empregada e jardineiro também estavam presos no banheiro. Os policiais vasculhavam gavetas, malas, computadores, telefone e fotografias à procura de drogas ou detalhes que ligassem o brasileiro a outros traficantes suspeitos. Pelos próximos dias, uma dúzia de policiais se instalou em sua residência, vestindo suas roupas, usando sua piscina, bebendo suas cervejas e assistindo a futebol em sua tevê de plasma. Renato e a namorada continuavam presos no banheiro. Volta e meia, eles o levavam até a sala para um interrogatório. “Quem enviou a cocaína?”, “Com quem você trabalha?”, “Para quem você ia vender a droga?” eram algumas das perguntas. Renato não abria o bico e apanhava pelo silêncio. A notícia rapidamente correu Bali. Outro surfista brasileiro havia testemunhado a captura de Renato e alertou alguns amigos, que ligaram para outros amigos e em pouco tempo todos os surfistas – e traficantes – da ilha sabiam que a casa tinha caído. A polícia transferiu o brasileiro para a capital Jacarta e tratou de questionar todos os seus conhecidos em Bali. Mas os envolvidos já estavam longe. Zarparam assim que souberam da prisão do “colega” de trabalho. Renato ficou sozinho para encarar a severa justiça indonésia, que condena à morte traficantes de drogas.

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A história de Renato é apenas uma entre as dezenas que estão no livro Snowing in Bali (Nevando em Bali, em português), um best-seller instantâneo escrito pela jornalista australiana Kathryn Bonella. “Os brasileiros eram os fornecedores perfeitos de cocaína. Já que tantos viajam a Bali, eles não levantam instantaneamente qualquer suspeita”, diz à Status Kathryn, que preserva o sobrenome dos envolvidos. “Depois de entrar com as drogas no Brasil pelas fronteiras com os países produtores (Peru, Colômbia e Bolívia), eles não encontram dificuldades em atravessar aeroportos movimentados, facilmente camuflados entre a multidão incessante de turistas. Suas pranchas e equipamentos esportivos são ideais para transportar a cocaína, que eles compram por cerca de US$ 1 mil o quilo e vendem em Bali por até US$ 100 mil.”

A prisão de kerobokan, no centro  de Bali, é a casa de muitos estrangeiros presos por tráfico de drogas: um local bizarro, violento e cruel

A prisão de Kerobokan, no centro
de Bali, é a casa de muitos estrangeiros presos por tráfico de drogas: um local bizarro, violento e cruel

Kathryn sabe do que está falando. A jornalista passou anos na Indonésia entrevistando alguns dos principais traficantes e condenados do país. Em 2004, largou o emprego de produtora do programa 60 minutes e mudou-se para Bali para acompanhar o drama da australiana Schapelle Corby – presa no aeroporto de Denpasar com quatro quilos de maconha – e escrever um livro sobre o caso. Schapelle foi sentenciada a 20 anos de prisão, dos quais cumpriu nove, sendo solta apenas no mês passado. Durante suas incansáveis visitas à prisão Kerobokan, que fica no coração de Bali, Kathryn ficou fascinada pelos personagens que viviam no presídio e terminou por escrever outro livro, Hotel K, que conta o dia a dia da notória prisão balinesa. “Nas visitas à Schapelle descobri que Kerobokan era um lugar bizarro, cruel e violento. Foi o que me levou a escrever Hotel K”, diz ela. “Lá dentro conheci pessoas que estiveram envolvidas com drogas e com o tempo obtive um acesso incrível a outros traficantes de Bali. Snowing in Bali é o resultado disso. Alguns deles tinham lido Hotel K, conheciam seus personagens e gostaram do livro. Mas, mais importante ainda, sabiam que eu não era uma policial disfarçada; por isso, estabeleci uma relação de confiança com eles.” Todas as histórias se parecem com o roteiro do filme Caçadores de emoção, de 1991, com Patrick Swayze e Keanu Reeves no elenco, e têm o mesmo denominador comum: surfistas apaixonados por ondas perfeitas e pela vida mansa, que entram no tráfico para sustentar um estilo de vida hedonista.

 

OSTENTAÇÃO

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Canggu é um dos bairros mais procurados por surfistas brasileiros que desejam morar em Bali

A cidade tornou-se um dos destinos mais procurados por surfistas no início dos anos 1970, após o lançamento do clássico filme de surfe Morning of the earth. A descoberta de um paraíso tropical, com ondas longas, vazias e perfeitas, espalhou-se rapidamente. Nas décadas seguintes, Bali sofreu uma drástica transformação para atender os milhares de surfistas que faziam a peregrinação anual à “Ilha dos Deuses”, como também é conhecida. De local pacato e rural, transformou-se em ponto turístico internacional com centenas de hotéis, lojas, restaurantes e pousadas – o governo local estima que quase meio milhão de surfistas visita a ilha todos os anos. Também é um centro efervescente de gente jovem de todo o globo, um paraíso onde qualquer tipo de diversão, legal ou não, está disponível, mesmo com algumas das leis antidrogas mais severas do mundo. “Desde os anos 80, surfistas sul-americanos contrabandeiam drogas para a ilha”, diz Kathryn. “Os métodos de transporte variam conforme a fiscalização, mas até 1994 o método favorito era trazer cocaína dentro de pranchas de surfe. O traficante retirava parte da espuma de poliuretano do interior do equipamento, enchia o espaço com cocaína e cobria novamente com uma mão de resina e fibra de vidro, sempre escondendo qualquer rastro com uma pintura colorida. Naquele ano, um surfista peruano chamado Frank Diaz foi preso no aeroporto de Denpasar com 4,3 quilos de cocaína no interior de suas pranchas, e esse método foi temporariamente abandonado pela maioria dos traficantes.”

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Mas a prisão de Diaz não inibiu os grandes traficantes. O personagem principal de Snowing in Bali, o brasileiro Rafael, que nunca foi condenado, era mestre em desenvolver novas maneiras de trazer cocaína para Bali. Procurado por Status, o carioca, que não revela seu nome verdadeiro no livro, apesar de toda a comunidade surfista local saber quem é ele, pediu para continuar anônimo. Entre os anos 1990 e 2000, Rafael fez fortuna traficando cocaína do Brasil para a Indonésia dentro de tubos de alumínio usados em asas-deltas. A droga era compactada dentro das tubulações ocas, tornando-se indetectável nos raios x dos aeroportos.

No auge de sua carreira como chefão da cocaína em Bali, Rafael traficava cerca de 20 quilos por semana, faturando milhões de dólares por ano. Surfista viciado em adrenalina, ele levava a vida da maneira como encarava as ondas: correndo grandes riscos em busca de grandes recompensas. Rafael não fazia questão de esconder que era o patrão do pó. Construiu uma mansão à beira-mar em Canggu, com direito a todo tipo de extravagância, como um trampolim de sua varanda no segundo andar, de onde pulava todas as manhãs na piscina. Dava festas homéricas em sua casa, onde hóspedes se deliciavam com um bar completo, chef privado e muita cocaína. Ele vivia como um rei. Orgias, festas, surfe. Tinha várias motocicletas, joias, viajava de primeira classe e só usava roupas de estilistas famosos. Uma vez comprou um Rolex por 25 mil euros, em dinheiro vivo, só para esfregar na cara da vendedora, que havia feito cara feia quando ele entrou na loja de chinelo e bermuda.

 

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Curumim sendo apresentado à imprensa pela polícia local

A casa de Rafael, traficante que nunca foi preso

A casa de Rafael, traficante que nunca foi preso

HONRA VERSUS GANÂNCIA 


O método usado por Rafael foi abandonado em 2003, após a captura mais notória de um surfista brasileiro na Indonésia. Marco Archer Moreira, o Curumim, foi parado no aeroporto de Jacarta, a caminho de Bali, e protagonizou uma fuga cinematográfica. Além de surfista, Curumim era campeão de voo livre e trazia em sua bagagem uma asa-delta desmontada, recheada com 13 quilos de cocaína. Um agente da imigração revistou seu equipamento e notou que, ao bater seu canivete nos canos da asa-delta, eles não vibravam como uma tubulação oca deveria. Antes que pudesse ser apreendido, o carioca saiu em disparada em pleno aeroporto, sendo perseguido por uma dúzia de policiais. Conseguiu chegar à rua e pular na garupa de uma moto, que o levou até o terminal doméstico, onde em questão de minutos ele embarcou para Bali.

Muitos brasileiros entravam na indonésia  com quilos de cocaína escondidos dentro  de tubos de alumínio usados em asas-deltas

Muitos brasileiros entravam na indonésia
com quilos de cocaína escondidos dentro
de tubos de alumínio usados em asas-deltas

A notícia de que um brasileiro havia sido pego com 13 quilos de cocaína e que fugira, a pé, sob custódia das autoridades, foi humilhante para a policia indonésia. Em questão de horas foi montada uma operação de busca em todo o território nacional e poucas semanas depois o brasileiro foi preso. Condenado à morte, atualmente Curumim vive no presídio de segurança máxima de Nusakambangan Island, chamada de Alcatraz da Indonésia, à espera de sua execução. Mas ele, incrivelmente, ainda mantém o bom humor. O brasileiro acredita que algum dia será solto. Mas isso parece pouco provável.Todos os seus apelos foram negados na Justiça, sem falar que sua prisão é questão de honra para as autoridades locais.

Na cela ao lado de Curumim está Rodrigo Gularte, surfista gaúcho que apenas cinco semanas após a prisão do campeão de asa- delta tentou entrar no país com suas pranchas recheadas com 6 quilos de cocaína. Ele foi preso no aeroporto e sentenciado à morte. Meses depois, tentou se matar incendiando o próprio corpo com gasolina, mas os carcereiros conseguiram apagar as chamas antes que ele morresse. A prisão de Curumim aumentou a pressão sobre as autoridades e a polícia indonésia iniciou uma verdadeira “limpeza” em Bali. Todo e qualquer conhecido do carioca foi questionado. Alguns traficantes e mulas foram presos, mas a maioria dos envolvidos fugiu do país.

Rafael, por sua vez, foi alvo de uma grande investigação. Teve sua casa invadida e revistada pela polícia. Mas ele era esperto demais para deixar qualquer rastro de sua operação e nada foi encontrado. O patrão percebeu que todos que seguiram na “profissão” estavam presos, mortos ou foragidos, e decidiu mudar de vida. Parou de traficar, vendeu sua mansão e começou uma nova vida. Por meses ainda foi investigado, seguido e observado pela polícia local. Mas agora não havia mais como prendê-lo. Sua única ocupação era cuidar dos filhos e tocar uma escola de surfe. Hoje, Rafael continua em Bali, dando aulas de surfe para turistas.“Agora tenho meu negócio, minha escolinha, não faço nada de errado ou de ilegal”, diz ele à Status. “Aquela vida deixei para trás.”

Soldado na  prisão de  segurança máxima de Nusakambangan Island, conhecida como alcatraz  da Indonésia

Soldado na prisão de segurança máxima de Nusakambangan Island, conhecida como alcatraz da Indonésia

A história de Rafael é a exceção em um universo onde a ganância repetidamente supera a razão. O peruano Alberto Lopez era um dos principais traficantes de Bali, na mesma época em que Curumim foi preso e Rafael mudou de vida. Ele foi pego com nada mais do que meia dúzia de pílulas de ecstasy. Mas a polícia sabia que ele era peixe grande e o torturou por dois dias tentando arrancar uma confissão e informações sobre seus associados. Lopez  não disse nada e passou 18 meses preso no “Hotel Kerobokan”. “Bali pode ser o céu num minuto e o inferno no próximo. Você vive a fantasia, você vive o sonho, mas um dia você acorda”, resume ele perfeitamente sobre a vida de quem escolhe o caminho do tráfico na Ilha dos Deuses.

 

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