QUE FAN FEST, QUE NADA!

Enquanto os jogadores das seleções se matavam dentro de campo, os torcedores de todas as partes do mundo faziam amor. Status passou duas noites no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, o lugar mais legal, louco e sexy da Copa do Mundo

 

Por Gilberto Amendola

 

STATUS 38 - COMPORTAMENTO

O colombiano Juan Camilo marca gol ao engatar um amasso com a brasileira Mariana.

Inglaterra, Estados Unidos, Suécia, Austrália, Irlanda…Não, essa não é uma lista dos países que Juliana já visitou na vida, mas a cidadania dos gringos que ela beijou durante a Copa do Mundo.

– E qual foi o melhor? – perguntei.
– O inglês, por enquanto…
– Mas alguns estão com os dentes zoados? – provoquei.
– Eles não ligam muito para os dentes. Dentista deve ser caro na Europa… Mas o beijo é bom, viu.
Praticamente uma Ph.D. em relações internacionais, Juliana foi uma daquelas garotas que fizeram da Vila Madalena o lugar mais legal, louco e sexy da Copa do Mundo (principalmente se você não for um morador da região). A Vila, como chamam seus frequentadores, transformou-se numa espécie de Tinder a céu aberto – onde todo mundo ficava “se dando match” enlouquecidamente até se dar bem. Fato que, nesses dias testosterônicos, saiu- se melhor quem veio de longe, quem tinha um passaporte internacional e um idioma diferente. Mas também se virou dignamente quem fez, pelo menos, um aninho de curso de inglês ou aulas de teatro na quinta série. “Tem muito brasileiro se fingindo de gringo. O cara manda um ‘how are you’ e diz que é holandês”, contou a bancária Lívia, 25 anos.
O inglês macarrônico ganhou um nome na Vila Madalena: “Gringlish” (gringo + inglês). Invenção providencial, responsável por nos colocar em pé de igualdade com os gringos que desembarcaram em São Paulo. Ou seja, a partir desta Copa, ninguém mais vai precisar ficar constrangido em dar aquele golpe clássico no próprio currículo. Pode colocar, sim, “inglês fluente” sem peso na consciência. Mérito maior para o Ronaldo de Souza, 30 anos, um sujeito tipicamente brasileiro – que se usasse uma calça branca de capoeira seria o mais clichê de brasileiro dos últimos tempos. Ainda assim, acreditem, o cara chegava nas mais incríveis garotas com um papo de “clakvadsk onitenka porinat”.
Calma, eu não desmaiei em cima do teclado. Ronaldo, que não sabia nem um nice to meet you em inglês, não deixou barato e inventou o próprio idioma. “Eu fico falando qualquer coisa enrolada pra um amigo e chamando atenção das minas. Elas estão muito loucas e acabam caindo. Uma achou que eu era croato (referindo-se aos croatas, acho).”
– Mas você pegou alguém com isso?
– Duas, mano! Duas!

STATUS 38 - COMPORTAMENTO

Um clima de confraternização e festa

Um clima de confraternização e festa

LOS HERMANOS

Ser apenas um rapaz latino-americano também não foi mau negócio. Os argentinos (pasmem!) deitaram e rolaram na noite da Vila Madalena. Um hermano esteve por um zíper de fazer um golaço em plena rua Girassol. Antes dele, alguém teve mais sorte – pelo menos era o que os preservativos no chão indicavam. Suárez, o atacante uruguaio que acabou banido do torneio por morder o ombro de um jogador italiano, serviu como inspiração para um grupo de uruguaios. “Deixa morder seu ombro, deixa eu dar uma mordidinha”, diziam pra cada garota que passasse na esquina da Mourato Coelho com a Aspicuelta. “Se o Lugano quiser me morder, eu deixo. Vocês, nem beijinho no ombro”, brincou uma loirinha são- paulina (que não se deixou morder).
Mas o latino campeão foi o colombiano Juan Camilo. Isso, Juan Camilo! No meio da multidão, ele encontrou Mariana. Não foi pouca coisa. Ela, 18 anos, estudante de moda, perfil de modelo, a garota mais bonita circulando na Vila naquela noite, uma gata que não faria feio nas páginas da Status. Dito isso, Juan Camilo (não me canso de escrever esse nome) encontrou Mariana e, de bate-pronto, ajoelhou-se na frente dela:
– Eu a pedi em casamento – disse ele, o Juan Camilo (claro).
– Eu aceitei – disse Mariana.
Aliás, um clichê do xaveco durante essa Copa era a promessa: “vou te levar pro meu país”. “Olha, já posso viajar pelo mundo sem me preocupar com hotel”, brincou Bianca, que, segundo ela mesma, recebeu oito convites para se mudar do Brasil. Com tanto gringo se dando bem, coube a pergunta: o que eles têm que nós não temos? Fiz uma espécie de pesquisa informal nas ruas do bairro e o resultado foi meio chato. Os caras, na maioria das vezes, mandavam aquele velho discurso machista que a mulher brasileira é isso e aquilo – e eu não vou perder tempo reproduzindo essas bobagens. Já algumas mulheres sacavam uma sociologia de botequim, dizendo que era uma oportunidade de conhecer novas culturas. Tá bom, né… A melhor resposta foi a da publicitária Joana: “Por que eu fiquei com gringos? Bom, primeiro porque eu quis, tive vontade, tesão…Qual o problema?”. Nenhum. Sem sociologia nem machismo. Simples e perfeito.
Quando os ambulantes entram em cena, a vantagem de ser um turista na Vila Madalena desaparece. Que tal um maço de cigarro por R$ 20. Ou três cervejas quentes de latinha pelo mesmo preço. Tem mais: cachorro-quente com jeitão de problema no dia seguinte valia R$ 15; churrasquinho de gato por R$10; refrigerante por R$ 8. Os preços aí de cima eram praticados quando o cliente era um turista. Qualquer sotaque mais puxado era motivo para um ágio de 20%, 30% ou até 100% em cima do produto. Chamou a atenção o sucesso da Catuaba Selvagem – bebida que custa menos de R$ 10 no supermercado, mas foi vendida por R$ 25 para gringos encantados com o exótico sabor de xarope da tal bebida. Apesar do calor, os caras viravam a catuaba no gargalo. Sei lá, deve ter rolado uma ressaca generalizada.

As colombianas Andreia, Lívia e Mirela também fizeram sucesso entre os torcedores

As colombianas Andreia, Lívia e Mirela também fizeram sucesso entre os torcedores

CONFUSÃO

Nem só de xaveco e festa viveu a Vila Madalena. Você já deve ter lido nos jornais que os moradores da Vila passaram um baita perrengue por conta da Copa. Teve gente presa dentro da própria casa porque não conseguia sair com o carro da garagem, gente que passou semanas sem dormir direito, o rio de xixi nas ruas, brigas pontuais e o consumo descarado de drogas. Ah, sem novidade, não é? Além de muita cerveja, não era raro, por exemplo, encontrar um baseado rodando entre a rapaziada (teve quem encontrou cocaína, drogas sintéticas e tal, mas não foi o meu caso). Aliás, presenciei uma história divertida envolvendo um baseadinho…
Antes de os agentes de trânsito fecharem a rua Aspicuelta, o epicentro das festas na Vila Madalena, motoristas ainda tentavam a sorte por lá. Um desastre. Tudo parado. Um quase caos que, muitas vezes, beirava a tragédia – com carros avançando sobre pedestres e bêbados se jogando sobre eles. Uma motorista mais exaltada meteu a mão na buzina – criando um grande alvoroço em volta do próprio carro. Algumas vaias e até batidas na lataria do automóvel. Eis que, do nada, um gaiato tirou um cigarro de maconha do bolso da camisa e ofereceu para a motorista estressada. A motorista fechou a cara e continuou o exercício inútil de buzinar. Mas, no carro de trás, um motorista gritou: “Me dá um pega, porra!”. Pronto. Aplausos geral. Um baseado dividido entre motorista e torcedor. Sem crise. A própria polícia, que circulou pela Vila nesses dias e noites de Copa, não pareceu muito interessada em confiscar baseados ou enxugar gelo reprimindo o consumo no meio da multidão. Só se deu mal quem abusou da sorte e passou do ponto. Que Fan Fest que nada!

Os gringos costumavam xavecar as mulheres com a promessa de levá-las aos seus países

Os gringos costumavam xavecar as mulheres com a promessa de levá-las aos seus países