A CHAVE DO CÉU E DO INFERNO

A esmagadora maioria dos relatórios da NSA revela nada além da vida íntima de pessoas comuns, de uma banalidade exemplar, sem nenhuma relação com bombas, sequestro de aviões ou  assassinatos de líderes mundiais

 

Por Reinaldo Moraes

 

STATUS 39 - PORNOPOPEIA

 

Ruy Castro,jornalista e escritor da pesada que dispensa apresentações, e que já foi editor de Status em outra encarnação da revista, comentou dias desses em sua coluna da Folha de S. Paulo alguns dos milhares de relatórios top secret da NSA, sigla em inglês da Agência de Segurança Nacional dos EUA, vazados por Edward Snowden, o espião-traíra, envolvendo interceptações ilegais de e-mails, mensagens de voz e de texto, ou simples telefonemas trocados por cidadãos norte-americanos.

O assunto é velho e todo mundo sabe que não só os americanos, mas até a presidentuça Dilma Rousseff e a primeira-ministra alemã, Angela Merkel, tiveram suas comunicações pessoais bisbilhotadas pela espionagem americana, como revelou o Washington Post, jornal pra quem Snowden repassou os tais relatórios. A coisa é tão ridícula que nem o Monty Python e o Porta dos Fundos juntos seriam capazes de arquitetar.
A esmagadora maioria dos relatórios revela nada além da vida íntima de pessoas comuns, de uma banalidade exemplar, sem nenhuma relação com bombas, sequestro de aviões ou assassinatos de líderes mundiais.

Entre essas pérolas de insignificância informativa, a que mais chamou a atenção do Ruy, dando-lhe o passe pra uma de suas melhores crônicas, foi a que transcreve o debate entre duas senhoras casadas residentes em Blackfoot, cidadeca furreca do periférico Estado do Idaho, sobre a eterna questão do orgasmo feminino, em particular dos orgasmos que têm experimentado em suas, digamos, vidas sexuais. Uma delas confessa que somente desfruta do honesto orgasmo vaginal com seu marido, ao passo que sua amiga, não sem alguma jactância, gaba-se de usufruir também do muito mais refinadoe intenso orgasmo clitoridiano, embora faça todo o possível para seu marido não se aperceber disso.

Não sei, e desconfio que o Ruy Castro também não sabe, por que esta senhora blackfootiana faz tanta questão de ocultar de seu cônjuge o fato de ela gozar no grelo, para usar um palavreado que faria o espião da NSA se remexer um pouco na cadeira. Várias hipóteses me vêm ao espírito especulativo. Será que a tal fulana só tem esse tipo de orgasmo ao se masturbar, circunstância talvez tida como vergonhosa em Blackfoot? Ou então – e aí a coisa esquentaria um pouco – vai ver que ela só atinge o estonteante clímax clitoridiano com o amante (o leiteiro, o coletor de impostos, o limpa-fossas de Blackfoot), detalhe que ela não ousou contar nem à melhor amiga. Outra possibilidade é a religião dela e do marido não admitir o orgasmo clitoridiano. Pior ainda se o nobre consorte for pastor dessa mesma religião anticlitoridiana. Mas essas são apenas suposições de minha rasteira lavra. O atilado colunista da Folha arrisca outro palpite, com sua verve habitual: “O problema não estava no assunto, mas no fato de elas serem do Idaho, Estado em que há anos não se registra um orgasmo.”

Qualquer tipo de orgasmo ou só o clitoridiano? Isso o aclamado autor das biografias canônicas de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda não especifica. Mas penso que, mesmo no registro do puro sarro, Ruy Castro pode estar tocando num ponto realmente sensível aqui. Não acho impossível que o governo estadual do Idaho tenha tomado alguma providência inquisitorial ao saber que uma de suas cidadãs anda tendo orgasmos por estimulação do clitóris, e sem o conhecimento de seu legítimo esposo ainda por cima. E se esse tipo de orgasmo, em geral associado ao polimorfismo recreativo, estiver proibido por lei no Estado do Idaho?A hipótese pode te parecer absurda, mas não é nada implausível.

Nos Estados Unidos, como se sabe, cada Estado, e até mesmo cada município, tem leis próprias que regem a vida civil dentro de suas fronteiras. E é fato que não se deve subestimar o forte puritanismo disseminado na sociedade americana pelos antigos quakers que ajudaram a constituí-la ao chegar em 1620 ao atual Estado de Massachusetts, vindos da Inglaterra a bordo do Mayflower. A historiadora francesa Liliane Crété, num artigo no site da revista História Viva, lembra que “Em 1627, um holandês, vindo de Nova Amsterdã (hoje Nova York), constatou a boa organização da cidade (de New Plymouth, hoje apenas Plymouth, fundada pelos quakers). Notou que a colônia possuía um governador e um conselho, cujos membros eram eleitos ou reeleitos a cada ano por toda a comunidade, e era regida por leis restritas, notadamente no que se referia a adultério e fornicação.”

Adultério e fornicação, that’s the question para o puritanismo ianque que há mais de três séculos tenta controlar a libido dos contribuntes legislando sobre o que se pode e o que não se deve fazer entre quatro paredes. Na Virgínia, por exemplo, o sexo anal e o sexo oral estão proibidos por lei tanto aos héteros quanto aos homossexuais. Hoje em dia, por força de leis federais que se sobrepõem às estaduais, um gay masculino até poderia assumir publicamente sua condição sexual. Só não vale dar o rabicó nem pagar boquete pro bem-amado, e vice-versa. Se for pego com o rabo preso ou com a boca no trombone, pode parar na prisão, onde não é difícil que venha a ser alegremente estuprado por dezenas de traficantes, ladrões e assassinos no recesso das celas. Aliás, se você passar pela Virgínia, é bom saber que lá também é proibido fazer cócegas nas mulheres. Juro. Tá lá na letra da lei. E se você for pego fazendo cosquinhas na sua parceira durante um meia-nove ou uma enrabadinha, aí, meu velho, prepare-se pras emoções da cadeira elétrica.

A se confirmar a minha hipótese de que a constituição estadual do Idaho proíbe o orgasmo clitoridiano – tenho até medo de checar isso –, imagino que deva ser igualmente vedada qualquer menção a um certo anatomista italiano nascido em Cremona no século 16 chamado Matteo Renaldo Colombo. Isto porque esse Colombo, que não sei se era parente do célebre Cristóvão, também inscreveu seu nome na história graças a um descobrimento – do clitóris, no caso, em 1559, pouco antes de sua morte. Outros luminares, no entanto, disputaram com ele os louros por tal descoberta, a exemplo de Gabriel Falópio, seu contemporâneo e rival, que descreveu as trompas do aparelho reprodutivo feminino.

Curioso isso de alguém se declarar o descobridor do clitóris – ou clítoris, grafia que o Houaiss e o Aullete também abonam. (Portanto, quando tiver um em mãos, pode acentuá-lo como melhor lhe aprouver. O importante é fazê-lo com a necessária habilidade e a indispensável delicadeza.) Pomba, me pergunto, será que ninguém tinha visto o bichinho antes? Nem percebido quefazer bilu-bilu nele, com o dedo ou a ponta da língua, levava sua dona às mais inebriantes alturas orgásticas, fazendo-lhe aumentar os batimentos cardíacos e extraindo-lhe gemidos da mais intensa volúpia? As próprias mulheres, por exemplo, será que nunca tinham se dado conta disso, mesmo sem serem anatomistas juramentadas?

Polêmicas autorais e ortográficas à parte, a verdade é que ninguém até então tinha descrito em bases científicas o “local do prazer de Vênus”, como Matteo chama o clitóris no tratado De re anatomica (“Das coisas anatômicas”), cujo escopo principal é, na verdade, a descrição da circulação sanguínea. Consta que alguém lá no Vaticano, depois de ler o alentado estudo do professor de anatomia da universidade de Pádua, declarou-se pasmo com o fato de a mulher “carregar entre suas pernas as chaves do céu e do inferno”. E mais de um vigilante prelado da Santa Inquisição pensou seriamente em torrar na fogueira o homem que alegava ter descoberto tão pecaminoso calombo carnudo.

Só pra completar, De re anatomica saiu do prelo em Veneza, no ano da graça de 1559, 60 anos antes de aqueles quakers caretas aportarem na América. E mais de quatro séculos antes de o Snowden sair por aí revelando os segredos clitoridianos que a NSA pescou na intimidade das senhoras de Blackfoot, Idaho, pra delícia da veia satírica do impagável Ruy Castro.