A VEZ DE SIMONE CAMPOS

Menina prodígio que lançou o primeiro romance aos 17 anos ressurge madurinha aos 31

 

Por Ronaldo Bressane

 

STATUS 39 - APPROACH, ENTRELINHAS

 

Carioca branquela, nada rata de praia, a bela Simone é uma nerd clássica: curte RPG e videogames e já escreveu um livro de ficção científica. Aos 17 anos lançou No shopping, romance pop sobre teenagers sem rumo na praça de alimentação. Alguns livros depois, comete A vez de morrer (Cia das Letras; 256 págs; R$ 38), o primeiro romance “adulto”, quer dizer, sério, sobre Izabel, garota que foge da especulação imobiliária do Rio de Janeiro para buscar a paz em uma cidadezinha do interior, no sítio dos avós. Mas, nerd como Simone, Izabel não consegue escapar da civilização e se envolve com um cara que trabalha em uma… lan house. Curiosidade: o avô de Izabel tem em seu sítio uma coleção de Status, que coleciona desde os anos 70.

Qual é a diferença entre a Simone de 17 e a de 31 anos?

Em 2000 eu era uma colegial oprimida. Busquei publicar um pouco como tábua de salvação – sendo “alguém”, talvez me deixassem não fazer sentido em paz. Também tinha acabado de deixar de ser evangélica. Agora, com 31 anos, vivi muito, estou mais solta… O que começou naquela época e foi crescendo foi meu ceticismo aplicado a todas as áreas da vida. Várias barreiras caíram e venho aprendendo a viver em sociedade. Desconfio e questiono, sempre tentando não magoar quem amo.

Seu livro fala de escapismo. E você, como foge da civilização?

Fecho as cortinas e durmo. Ou leio. Ou escrevo. Já tive época de fazer trilhas isoladas em cidades do interior da Escócia.
Também tem o sítio que inspirou o livro, mas não consigo frequentá-lo, pois não tenho grana para um veículo próprio. Não acredito que dê para fugir de tudo. Dá no máximo para bloquear alguns aspectos do mundo: desligar o celular, sair de perto da poluição, parar um pouco com o trabalho…

Seu livro fala do amor na era das redes sociais. Tinder, WhatsApp e Facebook mataram o amor?

Estamos falando de sexo, não só de amor. Para a mulher ainda pega mal gostar de sexo. A mesma revolução que as tornou espectadoras de pornografia as tornou caçadoras de sexo semianônimas em outras redes. A reação de certas pessoas a essa revolução muitas vezes consiste em expor essas mulheres – falo disso no A vez de morrer. É certo que, com as redes sociais, aumentou a oferta de sexo. Quem se preocupa com isso não se tocou de que o amor não precisa ser uma economia de escassez. O amor pode vir antes ou depois do sexo, por Tinder ou Facebook ou na fila do supermercado. Ou não vir, mas o caso continuar mesmo assim, porque está bom.

STATUS 39 - APPROACH, ENTRELINHAS

 

CALIFORNIA ÜBER ALLES

STATUS 39 - APPROACH, ENTRELINHAS

A mais famosa banda punk norte-americana depois dos Ramones, os Dead Kennedys apareceram na San Francisco de 1978 imbuídos de espírito antiestablishment, sarcasmo político e virulência comportamental. No discurso estavam à frente dos Sex Pistols, pois agregavam às letras um ingrediente corrosivo: o humor. A começar pelo próprio nome, que, segundo seu criador, Jello Biafra, se referia ao fim do Império Americano, que, naturalmente, rolaria após a morte dos irmãos Kennedy. Apesar da temática punk,Dead Kennedys – fresh fruit for rotting vegetables,de Alex Ogg (Ideal; 240 págs.; R$ 39,90), tem acabamento primoroso: traz dezenas de fotos, imagens de cartazes e flyers, além de muitos quadrinhos tirados de fanzines californianos.

 

TERROR DE VERDADE

STATUS 39 - APPROACH, ENTRELINHAS

Quem assistiu aterrorizado à série da HBO True Detective, estrelada por Matthew McConaughey e Woody Harrelson – provavelmente a melhor coisa que a tevê já exibiu, ao lado de Breaking bad e Mad men – precisa mergulhar em O Rei de amarelo, de Robert W. Chambers (Intrínseca; 256 págs.; R$ 20). Trata-se do livro que norteia as obsessões do serial killer da série. Chambers reuniu contos sobre personagens que enlouqueceram ao lerem um livro chamado… O rei de amarelo. Muito cuidado.

STATUS 39 - APPROACH, ENTRELINHAS

STATUS 39 - APPROACH, ENTRELINHAS

 

BIOHQ

STATUS 39 - APPROACH, ENTRELINHAS

Gabo – memórias  de uma vida mágica (Veneta; 180 págs.; R$ 44,90)é uma bem-   sucedida proposta editorial que alimenta um filão ainda por se explorar no Brasil: as biografias em quadrinhos. Recomendada aos que se sentem órfãos com a morte de Gabriel García Márquez, um dos maiores escritores do século 20, esta bioHQ foi escrita pelo roteirista Óscar Pantoja e ilustrada pelos cartunistas Miguel Bustos, Felipe Camargo, Tatiana Córdoba e Julián Naranjo. A trajetória do escritor, da infância em Aracataca ao Prêmio Nobel em 1982, começa pela mítica madeleine em que Márquez, então jornalista, se recorda da remota tarde quando o avô o levou a conhecer o gelo – lembrança que, como todo mundo sabe, abre o romance Cem anos de solidão. A escrita deste e de outros livros pontua a narrativa, além, é claro, da vida de estudante em meio aos tumultos políticos da Colômbia, do envolvimento com a Revolução Cubana, do cotidiano como crítico e jornalista investigativo – e de um universo mágico batendo à porta.

STATUS 39 - APPROACH, ENTRELINHAS