MILTON NEVES

Apresentador de tevê e um dos principais comentaristas do futebol brasileiro, ele critica a CBF, defende a Rede Globo e diz que hoje tem orgulho de fazer merchandising

 

Por Patrícia Favalle

Foto João Castellano

 

STATUS 39 - ENTREVISTA

 

À primeira vista, ele não parece muito de conversa. Ainda assim, faz valer a pontualidade – um de seus traços marcantes – e, exatamente às duas horas, adentra a saleta do conjunto comercial de 1.300 m2, na avenida Paulista, para cumprir sua jornada profissional. O espaço é apenas um dos andares que compõem a sede do conglomerado batizado de Terceiro Tempo, referência ao programa de estreia de Milton Neves na rádio Jovem Pan, isso em 1982. Por ali, as paredes foram completamente recobertas por fotografias e homenagens que o comunicador conquistou ao longo de mais de quatro décadas de atividade. Há desde o escudo do seu time do coração – sim, ele é santista, apesar de mineiro – até títulos concedidos por autoridades; e o que começa na recepção como demonstração de respeito ganha contornos exagerados pelas outras dependências do escritório. “Sou muito amado por esse povo”, justifica em tom de orgulho. Elegante, de cabelos brancos e voz imponente, o sessentão, casado com a dentista Lenice desde 1978, pai de três filhos e avô de duas netas, admite que enriqueceu com o merchandising, mas que também criou um estilo copiado por boa parte dos seus concorrentes. A memória paquidérmica – com direito a nome, sobrenome e datas – revela um homem que valoriza a gratidão e ainda se aborrece, e bastante, com a falta dela. “Tenho nojo dos ingratos”, diz. Espirituoso e sem perder o tom polêmico, Milton não corre de uma boa briga, gosta de dar opinião em tudo, mas avisa que está em uma fase quase “paz e amor”, em que um vinho de safra especial e a companhia da família já são suficientes. “Estou velho”, brinca o jornalista, que por fim mostrou gostar, sim, de uma boa prosa.

Como veio parar em São Paulo?

Foi em 1972. Eu tinha 21 anos e estava perdidaço. No ano anterior, havia morado em Curitiba, onde passei fome e frio… Nasci em Muzambinho, interior de Minas. Meu pai morreu quando eu tinha 9 anos, e então fomos (ele, a mãe e irmãos) viver na casa da tia Antônia, que era professora. Naquele tempo, ia todo dia no bar do Neco, bar-avenida do Euclides Carli, que já morreu, para ler o (jornal) Estadão. Não sabia jogar nenhum esporte e só tomava pau nos vestibulares e concursos que tentava. Quando era criança e ficava doente, minha mãe comprava aquele guaraná caçulinha e eu fazia um furinho minúsculo na tampa para tomar aquilo por horas.  Mas Deus foi muito bom porque tinha me reservado outro caminho. Hoje, posso comprar a fábrica se quiser. 

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Sentado entre os irmãos e primos, em foto com a avó ao lado, de pé e braços cruzados

E o que fazia em Muzambinho?

Nesse bar do Euclides, ele me dava um copo de leite e um canudo de doce de leite, então, pegava o jornal e ficava lendo a página de esportes. Uma vez cheguei lá e, em vez do Estadão, haviam recebido a Folha de S. Paulo, por engano. Abri a Folha e vi um anúncio: “Torne-se jornalista. Vestibular de Comunicação Social da Supero (Sociedade Universitária Paulista de Ensino Renovado Objetivo). Levei para a tia Antônia e falei: “Madrinha, deixa eu fazer esse vestibular aqui, tomei pau em tudo, mas preciso dar um rumo na vida”. E ela disse: “Não, não tenho dinheiro!” E era verdade, a gente não tinha dinheiro nem para pagar o ônibus. Coitada, ela ficou com aquilo na cabeça e deu um jeito de me ajudar. É a mulher mais maravilhosa do mundo! Faz 17 anos que está entrevada com Alzheimer, mas hoje tenho cinco pessoas cuidando dela full time, embora isso não seja nem 0,0001% do que ela fez por mim.

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Quando ainda sonhava em ser jogador de futebol, em Muzambinho.

Tentou o vestibular, então?

Sim. Vim fazer a inscrição e me hospedei na quitinete do meu amigo Roberto Gaspar, ali no Edifício Capitólio, debaixo do Minhocão. Era uma salinha, um banheiro e um quarto pequeno, e tinha uns 14 caras lá dentro! Fiquei três dias, fiz a inscrição e voltei para o vestibular duas semanas depois. Só passei porque eram 200 vagas! Então fui morar num porão, no Paraíso. Vivi três anos lá. Mas, depois de um mês e meio na faculdade, tadinha da minha tia, porque tinha que pagar pensão, comida e mensalidade, não deu mais… E a porteira do pensionato disse: “Olha, você não pode mais entrar”.

 O que você fez?

Os colegas de faculdade se solidarizaram. Diziam que eu tinha voz boa, que tinha futuro no rádio. Um dia, ficamos lá na garagem até o Di Genio (dono do Objetivo) chegar. E quando ele apareceu, os caras o enquadraram: “Pô, o rapaz tem voz boa, não pode parar”, e ele emendou: “Todo mundo só fala em bolsa, bolsa; não montei uma faculdade para dar bolsa pra todo mundo, assim eu quebro”. Até que surgiu um professor e disse: “Vai à Jovem Pan e procura o Fernando Vieira de Mello em meu nome. Lá tem estágio remunerado, fala que te mandei”.

E conseguiu a vaga?

– Teste em rádio até hoje é assim, você chega, o supervisor diz: “Vai, grava esse cara”. Tudo bem nas coxas. Fui para o estúdio com o boletim, tremendo, e li a nota: “Atenção, motoristas, evitem a avenida Celso Garcia, no Brás. Trânsito totalmente parado porque teve um acidente envolvendo um táxi e um ônibus da Autoviação Dupari”. Beleza, o Fernando foi ouvir e falou: “Você tem voz boa, ô caipira, mas é muito ignorante, não é Autoviação Dupari, é Autoviação do Pari, puta que o pariu! Pari!” E ele me mandou para o Detran, numa vaga de setorista de trânsito, e ali comecei. O Osmar Santos e o Fernando me apadrinharam e, em 1973, entrei no lugar do Faustão para fazer o plantão esportivo, que naquele tempo era o “cocô do cavalo do bandido”. Foi também por influência dele que entrei no ramo da publicidade. Ele sempre me dizia, “faça propaganda ou você vai terminar como grandes jornalistas: sem nada!”

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No início da carreira, como repórter de trânsito;

Por muito tempo você se incomodou com as críticas de seus colegas de profissão. Mesmo assim não abriu mão desse filão. Se arrepende?

– De jeito nenhum. Ninguém faz campanhas com a qualidade que faço. Tenho muito orgulho de ser escolhido pelas marcas por causa da minha credibilidade. Isso mudou a minha vida e permitiu que ajudasse muita gente. Vale lembrar que a mesa-redonda mais importante da tevê, com Nelson Rodrigues e Armando Duarte, se chamava Facit. O que me incomoda é lembrar que um dia isso já me incomodou. Hoje quero que esses patrulheiros se fodam! A inveja é o mau hálito da alma. Até a Fátima Bernardes faz merchandising, e na Globo! Essa hipocrisia ordinária vem de um time de invejosos, sem credibilidade. A grande imprensa “miltonizou” a publicidade. Todo mundo precisa vender, isso é básico. Os veí-
culos de mídia impressa vêm envelopados em propaganda. E do que se trata? Merchandising, oras!

Quanto vale o seu nome?

– Não faço ideia, só sei que vou comemorar os meus 63 anos ao lado da minha família, no apartamento que acabo de comprar em Nova York. Olha, trabalhei 33 anos na Jovem Pan, e o Tuta (dono da emissora) costumava dizer que só eu representava 40% da sua arrecadação. Quando fui pra televisão, esse volume aumentou e o deixou enciumado, levando-o a me tirar do ar, sem me demitir.Sofri assédio moral, o que acabou encerrando décadas de parceria.

 Você parece muito grato…

– Tenho nojo dos ingratos, mas prefiro não citar nomes. Gosto muito de frase feita, e bem escrita, e outro dia li: “A gratidão é a primeira virtude do homem, base de todas as demais”. O sujeito ingrato vai arder no tacho do capeta.

O Neto (ex-jogador do Corinthians e atual comentarista da Band) faz parte do time para o qual você estendeu a mão?

– O Neto é um tosco, mas é grato. Sempre falei que o tirei da sarjeta. Mas não quero mais tocar nesse assunto porque tem gente que sinto vontade de vomitar só de lembrar o quanto ajudei e como essas pessoas viraram traíras. Podemos mudar de tema?

Vamos falar de futebol, então. Você é mesmo santista?

– Nasci santista e vou morrer santista. O Santos me tirou da merda, pois, quando a minha tia comprou em 24 prestações um radinho de pilha, ali me apaixonei pelo jornalismo esportivo – e coloquei na cabeça que tinha que de trabalhar naquilo e que teria de ser em São Paulo. O Santos norteou a minha vida.

E o Atlético Mineiro?

– A torcida do Galo é que gosta de mim (risos)! Quando fazia o Programa Super Técnico, comecei a chamar a torcida do Atlético de Argentina, porque ninguém torce melhor do que o argentino. Não sou atleticano, mas gosto de quem gosta de mim. Se me candidatar a prefeito de Belo Horizonte, pode apostar que ganho a eleição.

Você conta que, em 2002, deu o voto de minerva na contratação do Felipão. O que mudou naquele Felipão que ganhou a Copa para esse que amargou a pior derrota do Brasil na competição?

– O Felipão arrebentou com a imagem dele. O que entra para a história é a derrota vexatória diante da Alemanha por 7 a 1. Antes da Copa de 2002, o Ricardo Teixeira (ex-presidente da CBF) me ligou e perguntou quem deveria treinar a Seleção. Disse que o Felipão estava no melhor momento. E ele falou que o meu voto havia desempatado a questão (o Luxemburgo estava no páreo). E olha que o Felipão nunca reconheceu que o coloquei na Seleção; ficou 11 anos sem me dar entrevista. Só voltou a falar comigo quando soube que entraria no lugar do Mano Menezes. Mas ele é um cara muito honesto, assim como o Dunga.

É verdade que a conversa com o Ricardo Teixeira gerou um contratempo com o José Trajano (da ESPN)?

–  Esse cara não me deve nada, jamais o ajudei, não somos amigos nem inimigos. Ele fez um comentário no ar que feriu a minha honra e levei o caso para a justiça. Mas é bom frisar que o Trajano não é um bom jornalista, ele é ótimo, absolutamente completo, mesmo com aquele jeito de bandoleiro mexicano.

O que você acha da atual direção do futebol brasileiro?

– Uma droga. O ideal seria que a presidente Dilma decretasse o fim da CBF e anexasse suas funções ao Ministério do Esporte. Mas a Nigéria fez isso, e a Fifa a baniu das partidas oficiais. Quero o Zico de presidente! Seria correto que os dirigentes dos clubes votassem e que esse estatuto fosse revisto. Onde já se viu assumir o mais velho? O José Maria Marin estava de pijama! Teve que voltar por causa das pepinagens do Ricardo Teixeira, que foi derrubado graças ao trabalho do Juca Kfouri.

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Com o ex-técnico Zagallo e o ex-jogador Zico

E quem seria um nome interessante, entre os presidentes de clube, para assumir a CBF?

– Alexandre Kalil, do Galo, louco, rico, destemperado e honesto, e Fernando Carvalho, do Internacional de Porto Alegre. O Fabio Koff, do Grêmio, é outro cara sério. Aliás, sempre fui combativo e, depois de um jogo entre Corinthians e Grêmio, entrei ao vivo com o Koff e começamos a trocar farpas. Ele ficando rouco, cada vez mais rouco, e mandei essa: “O senhor está falando tanta bobagem que está perdendo a voz”. E ele retrucou: “Quantos anos você tem, menino?” Eu devia ter uns 40, e ele seguiu: “Pois tenho 70, e saiba que não estou rouco de brigar com você, seu menino rasteiro, estou rouco porque tive câncer de garganta e as minhas cordas vocais foram cortadas”. Respondi no ato: “Doutor Fabio Koff, aqui é Milton Neves, muito obrigado pela aula, me perdoe. Peço desculpas aos ouvintes da Jovem Pan, pois o senhor me deu um ensinamento, eu estava muito arrogante”. Isso ainda me deixa arrepiado.

Como você enxerga o jornalismo esportivo atual?

– A imprensa esportiva só faz pergunta porcaria. Numa coletiva de imprensa com o Dunga, em 2010, indagei que o Neymar e o Ganso jogavam mais do que todo o time que ele estava convocando. Depois, quando a Holanda virou o jogo pra cima do Brasil, ele deu uma espiada no banco e viu que não tinha ninguém para substituir. Ou seja, eu estava certo. O Brasil tem a melhor crônica esportiva, mas é a que pior pergunta. O jornalista “mia”, sente medo do entrevistado. Pergunta tem que ser curta e grossa, feito punhal.

Onde está a promessa do futebol brasileiro?

– É clichê, mas a resposta é na base. Hoje, as bases que realmente funcionam são as do Cruzeiro, do Santos, do São Paulo, do Atlético Mineiro e do Internacional. Mas a turma não tem paciência; quer ganhar dinheiro pra ontem.

Quem era o seu técnico para o lugar do Felipão?

– O José Mourinho (treinador português, atualmente no Chelsea). Primeiro porque ele é bom, depois porque fala português e é mascarado. Adoro os mascarados! Não existe mascarado incompetente! Mas, do Brasil, o Tite era o mais indicado para assumir o cargo 

A Globo tem culpa na atual situação do futebol?

– Não! O futebol só sobrevive graças a ela. As pessoas precisam parar de falar isso, pois é uma besteira. Os clubes têm dívidas enormes e, se não fosse a televisão, o futebol estava mais quebrado do que nunca.

E o que você achou do Ronaldo como comentarista?

– O Ronaldo é sujeito de muito bom coração, muito humilde. Mas, como comentarista, foi péssimo.

Como você lida com as novas tecnologias?

– Sempre tive dificuldade com isso e até hoje escrevo à mão, sou igual ao Tostão. Não sei nada de computador, nem passar e-mail, fora que sou “monoglota”. No máximo, respondo uns tuítes.

E o assédio feminino na televisão… É forte?

– Isso aí é pra cara bonitinho! Trabalhei com mulheres lindas, como a Ellen Rocche, mas nunca encostei um dedo em nenhuma delas. Comigo isso nunca aconteceu.

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Com a jornalista Larissa Erthal, no cenário da Band durante a Copa