MISTÉRIO NO SET

Este homem já dirigiu mais de 100 filmes e é considerado um mito no cinema pornô brasileiro. No entanto, poucos sabem seu verdadeiro nome e viram o seu rosto. Status encontrou-se com ele para entender quem está por trás da máscara

 

Por Jr. Bellé

 

STATUS 39 - TOP SECRET

 

O ponteiro marca pouco mais de 17 horas quando Gil Bendazon, 37 anos, veste sua tradicional balaclava negra. Ele está na Praia Grande, abafada cidade no litoral de São Paulo, e, mesmo debaixo dos imponentes canhões de luzes que esquentam o set de filmagem do reality show A casa das brasileirinhas, não tira a máscara.

Não demora muito para que a sua pele branca e sardenta, por onde desponta uma barba rala, comece a derreter diante do calor. Algumas gotas de suor acumulam-se perto das breves entradas de seu cabelo loiro, quase raspado, mas não têm tempo de empoçarem-se, quanto mais de escorrerem até seus olhos verdes. São de pronto absorvidas pelo tecido. Em nenhum momento ele se irrita ou esboça vontade de arrancar aquela máscara e tomar um pouco de ar. O desejo de permanecer no anonimato é maior. Sim, Gil Bendazon, o homem que já conquistou o AVN Awards (Adult Video News), conhecido como o “Oscar” dos filmes pornô, e que já trabalhou com as principais produtoras estrangeiras, não revela a sua identidade por nada. Gil, aliás, não é o seu nome verdadeiro. Bendazon, o sobrenome de guerra escolhido, tampouco é real. Até nas fotos que são postadas na sua página no Facebook ele está com a balaclava. No reality, 24 horas no ar, ele a usa sempre que está gravando, porque há a possibilidade de se meter na frente de alguma câmera da casa. “Não posso aparecer, mostrar minha cara, dar meu nome de verdade”, diz ele à Status. “Recusei muitas entrevistas, quase todas, na verdade, mesmo para veículos estrangeiros. No Brasil, todas as emissoras abertas me convidaram, mas não fui a nenhuma porque isso interfere nos meus outros trabalhos.”

O temor de ter a identidade revelada é mais do que justificável. O cinema adulto não é a única atividade desse paulistano da zona leste, que não tem formação universitária e aprendeu tudo o que sabe trabalhando. “Tem dias que de manhã estou gravando uma missa, ou um padre dando um depoimento, e, à noite, uma morena fazendo sexo”, diz ele, que blinda seu trabalho na publicidade criando duas diferentes personas, duas assinaturas, dois modos de conduzir a equipe, e não deixa que uma identidade conheça a outra. Apesar de toda a sua família, inclusive os pais, tios e primos, saber de sua vida dupla, ser desmascarado seria catastrófico. “A situação do diretor de filme pornô no Brasil é parecida com a da atriz. Imagine que nos Estados Unidos a atriz é tratada como uma estrela, uma atriz de verdade. Aqui é tratada como uma puta, infelizmente. Há muito preconceito, e isso se estende para quase todos os profissionais da área.” Mas, afinal, como é o dia a dia desse homem que se divide entre a publicidade e o universo pornô?

O dia de Bendazon começa cedo, logo que o despertador grita por volta das 7 horas da manhã. Ele liga o computador em sua ilha de edição particular, no escritório de casa, e apressa-se para deixar convertendo os arquivos da filmagem do dia anterior. Toma café da manhã com a esposa, com a qual é casado há nove anos, enquanto distribui, finaliza e monta parte do material. Perto do meio-dia, ele se dirige ao escritório da Brasileirinhas, produtora responsável pelo reality show, de onde parte, junto com a equipe, para o set. “Depois que chego aqui não paro mais, as gravações vão até 22h, 23h ou até mais tarde, dependendo das circunstâncias.” A rotina acelerada, segundo Gil, é mais do que seu diferencial no pornô: é aquilo que o mantém vivo num mercado moribundo. “Eu gosto de fazer o que os outros não vão fazer. A maioria gosta de gravar sentado. Eu não gosto, eu trabalho em pé. Quanto menos gente no set, melhor. Além do mais, meu diferencial nesse ramo é que produzo, dirijo, opero a câmera, edito e finalizo. Entrego o material na mídia que você quiser: DVD, Blu-ray, celular, internet, o que for.” Mas nem sempre foi assim. Ele começou a trabalhar no ramo tão logo a legislação lhe abençoou com a maioridade, o que lhe permitiu trabalhar na filial brasileira da Buttman, uma das maiores produtoras de filmes pornô do mundo, com um emprego. “No começo eu só legendava. Mas sempre quis trabalhar com cinema. Assistia a um filme dez vezes, e também era muito noveleiro. Tudo para entender a luz, as câmeras. Quando saí da Buttman, depois de dez anos, já cuidava da parte de produção e finalização.”

Junto ao diretor americano Patrick Collins, que usava o nome de Roscoe Bowltree quando era ator pornô no começo dos anos 1990, Gil abriu sua própria produtora, a Red Angel Filmes, que, em 2006, apenas distribuía material vindo de fora. No ano seguinte, começou a realização de longas autorais e não parou mais. No máximo, diminuiu o ritmo, mas não por vontade própria. “A internet deu uma rasteira na indústria pornográfica em todo o mundo, não só aqui. A minha média de filmes hoje é de um por mês. Nossa esperança é que no ano que vem essa história mude, pois haverá a necessidade de material novo, mesmo nos sites de pirataria.” Segundo ele, atualmente há pouquíssimo material inédito disponível no mercado, mesmo para sites piratas, como youporn e xvideos. Por isso, o diretor acredita que haverá mais demanda, mais produção e mais trabalho em 2015.

Gil costumava viajar trimestralmente aos Estados Unidos, a fim de entender a linguagem cinematográfica para a qual trabalharia. Em uma dessas viagens, Collins o flagrou de olho em um AVN que recém havia ganhado. “Ele pegou a estatueta e disse que se aquele era meu sonho eu deveria olhar para ele toda vez que rodasse um filme.” Gil não seguiu o conselho à risca, mas, por ironia do destino, desde então, ele vem sendo apontado como possível vencedor do prêmio. Em 2010, recebeu indicações para sete categorias. “Viajei para lá, participei da premiação e não levei nenhum. Foi tão decepcionante que em 2011 e 2012, mesmo sendo indicado, não fui para a cerimônia, o que foi ótimo, porque também não ganhei nada.” No ano passado, concorrendo apenas na categoria Best Ethnic Serie, com sua produção Big wet brazilian asses, Gil não alimentava esperanças maiores. Tanto é que não apenas ficou no Brasil como esqueceu completamente do AVN. “Eu estava dormindo, eram umas 5 horas da manhã e meu telefone não parava de tocar, então resolvi atender. Era meu sócio gritando que eu tinha vencido.” O AVN acalentou os sonhos de Gil. Aquele sempre fora um objetivo pessoal e alcançá-lo foi uma espécie de vingança. “Quando comecei, eu era um cara para o qual ninguém dava nada. Ainda mais porque todo mundo estava voltado para o mercado brasileiro, e eu resolvi tentar o mercado internacional. Essa decisão foi alvo de chacota durante muito tempo. E, no mesmo ano, com a mesma série, eu ganhei também o Urban X (outra premiação importante da categoria).” Mas ele sequer foi pegar o AVN ou pediu que o enviassem. “Tenho outros quatro prêmios, uso como peso de porta”, diz ele. Não é desprezo pelo reconhecimento. Antes de tudo, é uma forma que encontrou de defender-se dos preconceitos e esquivar-se das banalidades. Para sua carreira, nenhum desses prêmios fez a menor diferença. “Se fosse no cinema convencional, certamente eu teria alcançado uma ampla projeção, mas, no cinema pornô, isso não pode acontecer. É também por isso que eu não mostro o rosto nem dou meu nome verdadeiro, porque, se faço isso hoje, amanhã já estão me tratando como um marginal e perco os trabalhos que tenho fora do entretenimento adulto, e eles são parte importante da minha renda.”

Mas, com a equipe com quem filma, não há segredos. Eles trabalham no mesmo mercado há anos e se conhecem há bastante tempo. “Trabalho com o Gil desde a Buttman. Nunca o vi levantar a voz pra ninguém, até as brincadeiras dele são serenas. E acho que ele tem algo bem raro entre os diretores: humildade”, diz o fotógrafo Serginho Massa, há muito anos no mercado de cinema adulto. “Já fiz mais de dois mil filmes, e vários deles foram com o Gil. Ele é um cara que passa tranquilidade para todo mundo, especialmente para os menos experientes, o que é primordial nesse meio”, diz o ator pornô Rogê Ferro, que participava das filmagens quando a reportagem de Status visitou o set do reality show pornô. Cada garota permanece por lá em torno de três dias e seus passos são monitorados on-line por internautas que observam as atrizes se banhando, lendo, dormindo e transando. “Mais do que isso, têm cenas lésbicas, cenas de sexo com um ator e também com um assinante do site, que é sorteado. Tem cara que aguenta mais, uns que aguentam menos, tem aqueles que brocham de cara, uns que nem penetram e já gozam, como outros que aguentam dois minutos, cinco, o máximo deve ter sido uns dez. E o bacana desse projeto é que tudo é ao vivo, ou seja, se o cara brochou, já era, não tem como editar.” Para transitar pelos 11 espaços da casa – entre garagens, hidromassagem, sauna, salas, quartos e escritórios –, é preciso conhecer os atalhos, do contrário alguma das inúmeras câmeras espalhadas pode capturar seus movimentos. E Gil caminha por lá como se fosse a sua própria casa. “Já filmei em todos os lugares imagináveis aqui, inclusive nesse sofá em que estamos sentados agora conversando. Talvez este tenha sido o móvel mais usado”, diz o diretor, pressionando o canto dos olhos com a ponta dos dedos, como se estivesse procurando por alguma memória inoportuna. É um hábito que se repete insinuando uma fadiga mental. Ele põe um cigarro entre os lábios e acende. São apenas 18h30 e ainda há muito sexo pela frente. E ele nem pode tirar a balaclava.

STATUS 39 - TOP SECRET