NA FRONTEIRA DO MEDO

Eles faziam turismo quando foram capturados pelo Irã e trancafiados em uma prisão, acusados de espionagem. Dois anos depois do pesadelo, os três jovens americanos contam, em um livro, o drama que mexeu com a diplomacia mundial e mudou por completo suas vidas

 

Por Alessandra Correa, de Nova York

 

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Do alto da montanha, o soldado acena e chama os três alpinistas. Depois de mais de cinco horas de caminhada naquela manhã de julho, Sarah Shourd, Shane Bauer e Josh Fattal já se preparavam para retornar ao acampamento, próximo à cachoeira de Ahmed Awa, famoso ponto turístico ao norte do Iraque. Os três avistam um segundo soldado, de rifle em punho. Seriam militares iraquianos? Rebeldes curdos? Membros da Al-Qaeda? Qualquer das hipóteses soava estranha, considerando que estavam no Curdistão iraquiano, uma região relativamente estável e autônoma. Os viajantes atendem ao chamado, seguindo em direção aos homens uniformizados, até que finalmente enxergam a bandeira com as cores verde, branca e vermelha costurada à lapela dos dois militares. Não há dúvidas: eles estão no Irã. Mas como? Os três ainda tentam argumentar que não havia demarcação, mas era tarde demais. Em poucas horas, já estavam em uma perua, a caminho de algum lugar desconhecido no interior iraniano, acusados de entrar ilegalmente no país.

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Assim começou o pesadelo vivido por Sarah, Shane e Josh, um caso dramático envolvendo acusações de espionagem, interrogatórios sem fim, aprisionamento em solitária, tudo isso coroado por uma complexa disputa internacional. O ano era de 2009, fase especialmente complicada nas relações entre Estados Unidos e Irã, e o episódio acabou sendo dragado para um dos maiores reveses diplomáticos dos últimos tempos. “Nos primeiros dois meses, pensei que era apenas uma questão de esperar pelo fim dos interrogatórios. Depois, percebi que estávamos, na verdade, sendo mantidos como reféns políticos”, diz Sarah Shourd à Status. Ela e seus dois parceiros de viagem acabam de lançar o livroA silver of light (Uma fresta de luz, em tradução livre), que trata não apenas dos anos sob custódia do governo iraniano, mas também de como lidam com o drama até hoje.

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A captura foi um susto, mas o terror veio mesmo quando os iranianos levantaram a suspeita de que os jovens americanos fossem espiões, crime punido com a pena de morte no Irã. Sarah, então com 31 anos, morava com Shane, 28, seu namorado, em Damasco, na Síria, onde ela era professora e ele trabalhava como jornalista. Josh, 27 anos, um ativista ambiental, havia viajado dos Estados Unidos para visitar os amigos. No início, acreditavam que, em algum momento, o governo iraniano iria perceber o mal-entendido. A esperança de um desfecho feliz, no entanto, durou pouco. O sinal amarelo surgiu quando os três foram levados para a temida prisão de Evin, em Teerã, notória pelos casos de abusos de direitos humanos e tortura. Sem informações sobre o caso e sem nenhum contato com o mundo exterior, os três foram submetidos a uma rotina de interrogatórios, isolamento e medo. Eram obrigados a ter os olhos vendados sempre que deixavam suas celas. Sobrevivente de um estupro quando tinha 16 anos, Sarah conta que esse trauma a persegue por todo lugar, o que tornou ainda mais aterrorizante sua experiência na prisão. Durante meses, mal conseguia dormir. Passava as noites segurando a tampa que tinha arrancado do vaso sanitário, única “arma” disponível para se defender caso alguém entrasse em sua cela. “Passei muito tempo, nos primeiros meses, tentando descobrir como controlar emoções extremas, como ataques de pânico. E, claro, com medo de ser fisicamente ferida. Eu estava sendo torturada psicologicamente”, recorda Sarah.

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Shane, Sarah e Josh, após a libertação. Abaixo, cachoeira de Ahmed Awa, ponto turístico ao norte do Iraque, onde estavam acampados

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O sultão de Omã, Qaboos Bin Said, que pagou a fiança dos três americanos

 

MEDO DE ENLOUQUECER

Eles já estavam presos e sendo interrogados havia dois meses quando puderam ter o primeiro encontro com a embaixadora da Suíça (o país representa os interesses dos Estados Unidos no Irã). O primeiro telefonema para as famílias só foi permitido meio ano após a prisão. Depois de alguns meses, Shane e Josh foram colocados em uma mesma cela. Sarah, porém, passou 410 dias em confinamento solitário e diz que isso afetou seu cérebro, causou depressão e que muitas vezes teve medo de enlouquecer. O único contato humano, além dos guardas, era na meia hora diária que podia se encontrar com Shane e Josh em uma cela com o telhado aberto, de onde podiam ver o céu. “Eu aprendi a me desligar da situação, tornei-me mais e mais insensível emocionalmente. Eu não reagia nem mesmo quando via Shane e Josh, era difícil até mesmo olhá-los nos olhos”, relembra. Para passar o tempo, eles liam, se exercitavam, cantavam baixinho, qualquer coisa que ajudasse a manter a sanidade. Seis meses após a prisão, em um dos momentos em que estavam juntos na cela com vista para o céu, Shane surpreendeu Sarah com um pedido de casamento, com direito a alianças feitas a partir de fios de toalha. Ele explica que, apesar de preferir ter feito o pedido quando estivessem livres, temia que Sarah fosse libertada antes dele – o que de fato ocorreu. “Preciso que ela saiba, antes que seja tarde demais, que quero estar com ela pelo resto da minha vida”, escreveu Shane. Os dois se casaram em 2012, após a libertação dele.

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As mães dos três alpinistas, durante protesto pela libertação dos jovens: A exposição na mídia ajudou a pressionar o governo iraniano

Em setembro de 2010, o governo iraniano finalmente decidiu libertar Sarah, alegando “razões humanitárias” para o gesto. Nos bastidores, além da intensa campanha feita pela família, com apoio de pessoas em diversos países, um personagem foi crucial: o sultão de Omã, Qaboos bin Said. De forma discreta, o líder – há mais de 40 anos no poder e que mantém relações cordiais tanto com os Estados Unidos quanto com o Irã – pagou a fiança de US$ 500 mil (mais tarde, pagaria também as fianças de Shane e Josh, no mesmo valor). Imediatamente após deixar o Irã, ainda tentando se readaptar à vida em liberdade, Sarah embarcou em um novo desafio: a campanha pela libertação dos dois amigos. Em menos de uma semana, encontrou-se com o presidente americano, Barack Obama, e com o então presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, além de inúmeros ministros e diplomatas. Recebia solidariedade e ajuda de celebridades, como o ator Sean Penn, e até de governos com boas relações com o Irã, como o do então presidente venezuelano Hugo Chávez.

 

DESILUSÃO 

Do lado de fora, porém, experimentou uma estranha sensação de frustração com relação a seu governo. “Meu pior nível de desilusão e desespero foi no segundo ano, depois de libertada, quando estava trabalhando diretamente com o governo americano. Eu estava no papel de intermediária. O enviado do governo de Omã me dizia que o Irã queria “algum gesto americano” e me dava sugestões”, conta. Uma delas era a libertação da iraniana Shahrazad Gholikhan, presa nos Estados Unidos por ter ajudado o marido a contrabandear binóculos de visão noturna e que já estava cumprindo o fim da sentença. “Eu entregava esses pedidos ao governo americano, mas só ouvia ‘não podemos fazer isso’”, relembra Sarah. Do lado iraniano, a disputa entre o Judiciário e o gabinete do presidente dificultava qualquer solução. Em julho de 2011, dois anos após terem entrado no Irã, Shane e Josh foram condenados a oito anos de prisão cada um (três por cruzarem a fronteira ilegalmente e cinco por espionagem). O veredicto foi recebido com alívio. Significava que, resolvidos os procedimentos legais, estava aberto o caminho para o pagamento da fiança. Os dois jovens foram soltos em setembro de 2011, depois de 26 meses de prisão.

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Hoje, passados três anos, Sarah e Shane vivem em Oakland, na Califórnia. Josh casou-se com uma namorada de infância, é pai de um bebê e vive em Nova York. “Nós três temos um vínculo completamente singular. Por causa da nossa experiência juntos, do apoio que demos uns aos outros nos piores momentos”, ressalta Sarah. Ela conta que, um dia, sentada em seu escritório, foi surpreendida ao ser contatada via Facebook por um dos soldados que estavam na fronteira quando foram presos. Na conversa, o homem confirmou o que os três sempre desconfiaram: segundo ele, quando Sarah, Shane e Josh foram chamados pelos soldados, ainda estavam em território iraquiano. Mas, como caminharam para atender ao chamado, acabaram cruzando a fronteira para o Irã. “Foi um alívio ouvir isso de alguém que realmente sabia”, diz Sarah, que atualmente se dedica à luta contra o confinamento solitário, inclusive nos Estados Unidos. Mas as sequelas, segundo ela, persistem. “Alguns sintomas, como insônia, perda de peso e pesadelos, já passaram. Mas, às vezes, ainda reajo desproporcionalmente a pequenas coisas. Sinto-me ameaçada pelos menores gestos”, diz.

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