NAS PROFUNDEZAS DA TERRA

Ambientes claustrofóbicos, escuros e sem conforto algum são a segunda casa do britânico Robbie Shone. Ele passou os últimos 15 anos explorando e fotografando as maiores e mais profundas cavernas do planeta 

 

Por Piti Vieira  Fotos Robbie shone

 

STATUS 39 - SANGUE FRIO

Suspensa por uma fina corda, a minúscula figura presa à parede é iluminada pela lanterna do capacete do companheiro de expedição. Eles estão na monumental Cloud Ladder Hall, parte do gigantesco complexo Er Wang Dong, na China. A caverna de aproximadamente 300 metros de altura e 150 metros de diâmetro possui clima próprio, com direito a nuvens subterrâneas. “O aspecto marcante e único desse lugar é que ele é cheio de nuvens, o que adiciona um nível de mistério à aventura”, diz Shone. “Quando você grita, o eco volta 5 ou 6 segundos depois. Isso é muito intenso.”

 

Suspensa por uma corda finade 10 milímetros de diâmetro a muitos metros do chão, envolta por uma nuvem e perdida no espaço, uma figura minúscula é ofuscada pelo feixe de luz da lanterna presa ao capacete do explorador de cavernas britânico James Alker.

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Ciente do perigo, a pesquisadora americana Erin Lynch (aqui fotografada por Shone), líder da expedição à caverna Yingjiawan Dong, na China, instala mais uma broca na parede para continuar sua travessia por cima da cachoeira que deságua na escuridão

 

O pontinho iluminado na imensa parede de pedra é o explorador britânico e fotógrafo de cavernas Robbie Shone, 34 anos, que há pouco mais de uma década viaja o mundo em expedições científicas explorando as cavernas mais isoladas do planeta. Ele se apressa para chegar ao chão da Cloud Ladder Hall, parte do gigantesco complexo Er Wang Dong, localizada no município de Chongqing, na China. O teto da caverna de seis milhões de metros cúbicos fica a 250 metros do solo, completamente escondido pela nebulosidade – sim, o local tem clima próprio, com direito a nuvens subterrâneas. “Com os olhos, segui o teto até ele desaparecer na escuridão. Não era possível ver mais nada além daquele ponto, mas eu podia sentir que estava em uma câmara muito grande, tão grande que eu mal podia acreditar que ela fosse subterrânea. Apesar da enorme escala do lugar, uma brisa fresca batia em meu rosto”, diz Shone à Status. “Quando cheguei ao chão, ou pelo menos ao piso em que eu estava prestes a andar, era uma confusão de pedras gigantescas, algumas do tamanho de casas. Esses megaobstáculos tornavam a travessia muito difícil. Mover-se era lento e perigoso, então todos tinham que ser muito pacientes. Foi particularmente difícil quando tive que ficar em cima de uma pedra alta, nada segura, com um abismo negro à frente. Obviamente, o inevitável aconteceu: a pedra balançou violentamente me atirando para trás.Caí sobre a mochila e, por sorte, nada aconteceu. Após oito desgastantes horas escalando, fotografando e andando, conseguimos cinco boas fotos e batemos em retirada.”

 

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Robbie Shone mostra sua habilidade no rapel – conquistada quando trabalhava inspecionando edifícios altos e pontes à procura de danos estruturais – para acessar as profundezas da caverna Miao Keng

Hoje em dia, quando se trata de descobrir novos lugares pelo mundo, o Google Earth é a ferramenta mais usada. No entanto, há lugares onde o programa não tem acesso, como o subsolo do planeta. É ali, a muitos metros abaixo da superfície, que um pequeno e seleto grupo de espeleólogos envolvidos na exploração subterrânea encontra todo um universo de possibilidades. Um desses exploradores é Robbie Shone, que nos últimos 15 anos fotografou profundos e extensos sistemas de cavernas intocadas e bem raras. O resultado de seu trabalho pode ser visto nas incríveis imagens que ele traz de volta para a superfície para que nós também possamos apreciar essa natureza escondida nos cantos mais remotos da Terra. “Me lembro do que senti durante a primeira viagem ao subterrâneo e de como percebi os imensos desafios e o enorme potencial para a fotografia que esse ambiente hostil, implacável e escuro oferece. Foi aí que começou minha obsessão em fazer fotos do submundo para que todos pudessem ver o que só poucos têm a chance de presenciar”, diz ele.

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300 metros abaixo da superfície e a mais de 200 metros do chão da caverna Miao Keng, na China, o espeleólogo britânico Chris Blakeley ressurge das profundezas da Terra

 

Formado em belas artes e com especialização em fotografia na Sheffield Hallam University, em Sheffield, na Inglaterra, o britânico, que mora com a namorada em Innsbruck, na Áustria, começou a explorar cavernas em 1999,incentivado por um amigo dos tempos de  faculdade. Desde então já participou como fotógrafo oficial de mais de 50 expedições, todas patrocinadas por instituições de pesquisa ou grandes marcas ligadas ao universo da exploração, como a francesa Petzl, de equipamentos de montanhismo e segurança em técnicas verticais. Para obter boas imagens, ele leva uma variedade de faróis de LED, flashes elétricos e até lâmpadas de bulbo comuns, dessas incandescentes que estão saindo domercado no Brasil.

“Já cheguei a usar mais de 600 lâmpadas incandescentes para fotografar a caverna francesa Gouffre Berger. Precisei fazer quatro viagens para que nenhuma fosse quebrada”, diz ele.“Cada equipamento de iluminação é imprescindível lá embaixo e isso pode significar arrastar muitas mochilas por dias e dias até os confins da terra para tirar apenas uma foto. Mas, quando as lâmpadas se acendem e os flashs disparam, fazendo uma foto antes mesmo que se possa enxergar o lugar, e a imagem aparece no visor da câmera, eu sorrio e penso como nosso planeta é bonito.”

 

Sangue no olho

Para quem se arrisca em cavernas gigantes, ficar suspenso em grandes alturas, lutar contra corredeiras que podem inundar um local rapidamente e rastejar através de espaços incrivelmente apertados é parte do trabalho. Para explorar uma caverna, é preciso saber geologia, ser um mergulhador, um alpinista, saber lidar com cordas. “É um desafio físico, mas em cavernas você nunca sabe o que está à frente”, diz Shone, para quem o apelo está em ser capaz de descobrir algo novo. “Você pode ser a primeira pessoa a caminhar por uma passagem e não saber o que vai encontrar. Esse é o grande aspecto de exploração da espeleologia em cavernas profundas.”

O explorador é tão comprometido com seu trabalho que já passou 13 dias seguidos no subterrâneo, acampando, dormindo e comendo dentro de uma caverna remota no Vietnã. “Foi no meio de uma floresta de que não fazia sentido sair e voltar. Então, nós acampamos e dormimos embaixo de algumas claraboias, de onde era possível avistar o céu, para tentar manter nosso relógio biológico em dia”, diz ele. Em outra aventura, na ilha de Bornéu, no Sudeste Asiático, ele ficou com uma sanguessuga presa ao seu globo ocular por dois dias. “Foi na gruta Sarawak, considerada hoje a maior do mundo, com 700 metros de comprimento. Só conseguimos tirá-la usando um pouco de carne crua e sal.”

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Demorou dois dias para a equipe achar um caminho para alcançar os Moulins (buracos causados pelo derretimento do gelo) da Geleira de Gorner, na Suíça. As cavernas de gelo, com temperaturas que chegavam a -18ºC, ainda não haviam sido mapeadas nem visitadas por qualquer explorador

Cavernas têm sistemas distintos e uma nunca é igual à outra. As da China, por exemplo, são diferentes das da Europa e do restante do mundo. Nos Alpes elas são mais verticais e os espeleólogos gastam muito mais tempo pendurados em cordas. “Essas são as mais difíceis de explorar, porque é preciso ficar suspenso por um longo tempo. Às vezes até acaba a corda e é preciso subir tudo e descer novamente usando uma corda mais longa”, diz ele. Também é muito mais frio. As cavernas começam a dois mil metros de altitude e a temperatura gira em torno de 4°C. Na China, por sua vez, a temperatura média fica em 17°C. “Você sua muito mais.”

Mas o ponto principal da exploração de cavernas é nunca entrar em pânico. “Raramente fico com medo. A partir do momento que se adentra uma caverna e a luz do dia e os confortos permanecem para trás, todos os sentidos ficam alertas e muito ampliados. Você passa o tempo todo concentrado onde está pisando, no que consegue ver e tocar, e raramente desliga”, diz Shone. Já na volta à superfície, o melhor, segundo ele, é conseguir sentir outros cheiros. “Depois de passar dias no subterrâneo, você é imediatamente atingido pelos cheiros do mundo exterior, seja a vegetação molhada da floresta, seja o perfume de uma turista que visita a entrada da caverna. Lá embaixo não há cheiro, que não o seu próprio ou dos companheiros”.

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