O TEMPLO UNIVERSAL DA MÚSICA

Simon Parkes era o homem por trás da Brixton Academy, a mais importante casa de shows de Londres. Em livro, ele conta agora suas maiores aventuras e como quase vendeu a casa para a igreja de Edir Macedo

 

Por Marcos Diego Nogueira

 

STATUS 39 - PERFIL

“Respirei fundo, me concentrei. Aos 23 anos e sem muito dinheiro no bolso, eu não tinha mesmo muita coisa a perder. Na frente desses dois homens de negócio, responsáveis pelo Astoria Theatre, fiz minha proposta mais inconsequente: ‘Dou uma libra pelo espaço.’ Ao final da reunião, por incrível que pareça, estávamos apertando as mãos uns dos outros: negócio fechado.” O impossível havia acontecido. O britânico Simon Parkes começava a sua saga como proprietário daquele que viria a ser o mais famoso templo musical de Londres, recebendo de The Clash a membros do Led Zeppelin, dos Rolling Stones a David Bowie, de The Police a Eric Clapton: a Brixton Academy.

Mas como é possível alguém comprar um espaço com capacidade para cinco mil pessoas com uma mísera moeda? Apesar da pouca idade, Parkes tinha tino para negócios. Naquela tarde, ele percebeu que os dois administradores não só queriam vender o Astoria. Eles precisavam se livrar daquele elefante branco, um cinema dos anos 1920 que, naquele tempo, em 1982, funcionava como depósito da fábrica de cerveja daqueles dois. Por isso o tiro foi certeiro. A proposta de uma libra veio acompanhada da promessa: “Passo os próximos dez anos vendendo só a cerveja de vocês. Imaginem se eu fizer 200 shows por ano, é um bocado de litros.”

Parkes lembra que o bairro de Brixton, na zona sul de Londres, era potencialmente perigoso naqueles idos dos anos 1980. “Mas do ponto de vista de música ao vivo se tornou cru e emocionante. Hoje, lá é muito elegante e moderno e os concertos se tornaram muito mais caros”, declara Parkes à Status. Àquela época, o que ele não tinha ideia era de que aquela libra seria pouco perto dos outros preços pagos por ele ao longo dos anos da então recém-batizada Academy.

Foram diversas prestações, incluindo ser atacado com gás lacrimogêneo, esfaqueado, esmurrado, ameaçado por mafiosos de dreadlocks ou por bombas do Exército Republicano Irlandês, o IRA. “Oficialmente, fui posto sob proteção policial duas vezes: uma, quando um bandido jamaicano colocou minha cabeça a prêmio por querer tomar conta da segurança do meu estabelecimento. A outra foi quando recebi ameaças de morte de neonazistas por ter feito shows contra o apartheid”, lembra ele. Essa e outras histórias estão no livro Live at Brixton Academy: a riotous life in the music business (algo como “Uma vida tumultuada no ramo musical”), ainda sem previsão de lançamento no Brasil. A autobiografia, escrita em parceria com o jornalista J.S. Rafaeli, mostra que tudo valeu a pena. “Mesmo com as dificuldades, consegui promover os melhores shows e festas dos anos 1980 e 1990”, declara com orgulho.

Do reggae ao rock

“Meu chapa, eu não quero zombar de você, mas não há nenhuma chance de você levar uma banda de rock para tocar em Brixton. Não vai acontecer. Obrigado.” Assim foi a rotina de Simon Parkes no início de sua empreitada para agendar shows na Brixton Academy. O bairro à época era essencialmente negro e latino, dominado pelas tensões sociais e que ainda ecoava os resquícios das violentas manifestações contra a política liberal e anti-imigração de Margaret Thatcher (1925 – 2013). Parkes então tentou artistas que agradassem ao público local. Uma enxurrada de atrações de reggae começou a render os primeiros momentos de casa cheia. Com ela, o aprendizado de que empresários rastafári têm um modo peculiar de concluir suas negociações.

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Fachada da Brixton Academy

Certa noite, após um dos primeiros shows da história da casa, um dos chefes de segurança, chamado Mad Mick, pegou um
empresário jogando o lucro de bilheteria para um comparsa que fugiu com uma van. “Mick levantou-o pelo pescoço a uma distância de um metro do chão e me perguntava: ‘o que fazemos com ele, chefe?”. A solução veio sem muita violência. “Enquanto Mad Mick segurava o ladrão com a mão direita, usou a esquerda para ‘pescar’ a chave do carro no seu bolso e ordenou que, se não voltasse com o dinheiro até amanhã, ficaria para sempre com seu Porsche”, conta Parkes no livro.

As lendas do reggae começaram a fazer o nome da Brixton Academy e os sonhos de Parkes começaram a se realizar quando The Clash pediu especificamente para tocar em sua casa de shows. “Nada menos do que a banda mais multicultural dos últimos dez anos na Inglaterra queria tocar por lá!”, bradou o proprietário. “Era 1984 e estávamos no meio da greve dos mineiros. O líder do sindicato queria fazer um grande show para seus seguidores. Foram três noites com The Clash tocando em uma Brixton Academy lotada de mineiros bêbados e furiosos. Os shows foram incendiários. O público estava insano. Era uma vibração bem diferente da dos concertos de reggae que tínhamos ali.” Pronto. As portas estavam abertas para o rock e Brixton a partir daí abrigaria toda causa  política progressista ou grupos que queriam provocar o sistema. O último show dos Smiths, por exemplo, foi lá, quando eles fizeram parte dos Artistas Contra o Apartheid.

 

Perdas e ganhos

Por diversas vezes Simon Parkes perdeu dinheiro apenas para satisfazer seus anseios musicais. Um desses casos aconteceu ainda em 1984, quando resolveu trazer da Nigéria o lendário músico Fela Kuti. “Trouxemos o Fela de Lagos e ele veio com 30 de suas esposas, que fizeram os vocais de apoio durante o show”, diz para Status. “Só as passagens de avião e hospedagens já fizeram com que eu não lucrasse um centavo com o show, mas foi uma noite mágica”, diz. Para compensar o prejuízo material, Parkes teve a ideia de levar bandas de grande porte simplesmente para ensaiar seus concertos com as portas fechadas. “Era como ter um show privativo na minha própria casa”, relata. The Police, AC/DC, Dire Straits, Eric Clapton e a dupla de frente do Led Zeppelin, Jimmy Page e Robert Plant, testaram seus espetáculos megalomaníacos por lá. Enquanto isso, o proprietário aproveitava essas ocasiões para aliciar as bandas para concertos de verdade. “Eu sabia que quando eles vissem o estilo da casa e nossa estrutura iam topar fazer um show com plateia por lá.”

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Algumas vezes o plano deu certo, mesmo quando o primeiro contato não era, digamos, muito ortodoxo. “Certa noite um roadie mais velho enrolava um cigarro no bar da casa e eu perguntei a ele se ele conhecia Robert Plant e se poderia me apresentá-lo. O homem disse que o conhecia até que muito bem e que veria o que poderia fazer. Minutos depois o ensaio começou. Foi quando percebi que o velho roadie na realidade era o líder do Led Zeppelin em pessoa. Que bom que ele levou minha distração no bom humor e não muito tempo depois fez um show arrasador em Brixton ao lado de Jimmy Page”, conta.

Nessa época, a casa já estava consolidada como uma das mais ecléticas e inovadoras da cidade. Quando os artistas de rap e hi-hop chegavam a Londres vindos dos Estados Unidos, iam direto para lá. As primeiras apresentações de Run DMC, Public Enemy e NWA, por exemplo, foram na Brixton Academy.

Não foi diferente com o grunge no início dos anos 1990. Quando as guitarras dissonantes começaram a rugir em Seattle, prontamente viram em Brixton sua filial inglesa. Sonic Youth, Pixies e outros grupos já haviam tocado por lá quando Parkes conseguiu agendar quatro noites com o maior expoente do movimento: o Nirvana. Tranquilo com as notícias de que as datas estavam esgotadas, ele teve um choque ao abrir o jornal na manhã de 8 abril em 1994. Kurt Cobain havia dado fim à sua vida e um prejuízo de 250 mil libras no bolso de Parkes. “Era um número que poderia acabar com a gente.”  Um golpe improvisado, no entanto, mudou mais uma vez o rumo dos acontecimentos. “Naquela tarde fui entrevistado por uma rádio e sem pensar me vi dizendo que fãs do mundo todo estavam me ligando para comprar um pedaço da história, os ingressos do show que Kurt nunca faria”, conta ele. “Não sei de onde tirei isso, mas de repente começamos mesmo a receber essas ligações e tive até que contratar gente extra para dar conta. No final, só cerca de 20% dos ingressos foram devolvidos, o que vendemos rapidamente por até mais de 200 libras.” Ao mesmo tempo que essa atitude o salvou da falência, plantou na cabeça de Parkes a semente do que seria a sua aposentadoria da casa.

 

Raves e rezas

Foi por volta de 1989 que a música eletrônica começou a ecoar suas batidas na Academy. A situação estava insustentável para os puritanos na Inglaterra. Eram tantas festas que, quando alguém reclamava que havia uma desse tipo perto de sua casa, a polícia sabia que não havia muito a ser feito. “Era coisa de 25 policiais para controlar 20 mil pessoas. Eles simplesmente não conseguiam e, no final, iam lá só para controlar o tráfego de carros mesmo”, conta Parkes, que conseguiu uma autorização da Justiça para funcionar por toda a madrugada e, assim, comandar as primeiras raves legalizadas do Reino Unido. “Me deem uma autorização para funcionar a noite toda e aí vocês farão o pessoal das raves parar de botar pânico nos leitores conservadores do Daily Mail”, recorda. Foi um sucesso completo e, como quase sempre acontecia, ele chamou a atenção de pessoas erradas. “O ecstasy se tornou um negócio milionário em Brixton e foi o momento em que tive de lidar com as pessoas mais barras-pesadas que já enfrentei.”

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Uma das raves realizadas na casa

Por essas e outras é que, quando um pessoal engravatado entrou no escritório de Simon Parkes para comprar a Brixton Academy, em 1995, ele não se intimidou. O estresse por ter feito raves até as 6 horas da manhã por 48 fins de semana ao ano e ministrado concertos nos dias de semana o fazia sentir-se como um Kurt Cobain do showbizz. “Foda-se, vou vender”, anunciou para os amigos. Logo os interessados começaram a aparecer. Os mais incisivos foram esses tais engravatados que, com sotaque latino, fizeram Parkes ter a certeza de que lidava com colombianos. “Quando a conversa estava em um nível avançado, descobri que eram brasileiros proprietários da famosa Igreja Universal do Reino de Deus. Veja você, queriam transformar o meu templo roqueiro em uma igreja.” Cansado da vida noturna, Parkes ficou próximo de um desfecho com os religiosos brasileiros. “A princípio me enviaram uma proposta indecorosa de 400 mil libras. Respondi na hora para adicionarem um zero a mais senão não haveria negociação. A resposta positiva foi imediata e a segunda oferta feita: 4 milhões.”

A transação tornou-se pública e a consciência do proprietário começou a pesar. “No fundo eu não gostaria de ver meu lugar se transformando nisso.” A ideia foi consultar um grupo de empresários dono de lugares como o Shepherd’s Bush Empire e o Borderline Club. Atrás de um bom investimento que mantivesse sua ideia original, Parkes vendeu a Brixton Academy por 2,5 milhões de libras. Enquanto isso, a Universal ironicamente comprava o Rainbow, local onde ele assistiu ao seu primeiro concerto, ainda adolescente, do lendário Chuck Berry.

 

ALGUNS DOS GRANDES ARTISTAS QUE TOCARAM NA ACADEMY DURANTE A GESTÃO DE PARKES