MARCELO D2

Quase cinquentão, o rapper fala de violência, das eleições, de casamento (ele está no terceiro), dos quatro filhos, de música e, claro, de maconha

 

Por Michele Gomes

Foto Stefano Martini

 

STATUS 40 - ENTREVISTA

Marcelo Maldonato Peixoto, o Marcelo D2, mora na Gávea, zona sul do Rio de Janeiro, mesmo bairro onde ele marcou essa entrevista. A ideia era bater um papo entre chopes e gargalhadas, apreciando a mítica linguicinha do Braseiro, bar localizado a poucas quadras de sua casa, que virou quintal de reunião com amigos, escritório e ponto certo para os fãs garantirem suas selfies com o ídolo. Mas um dia antes do encontro de D2 com Status, a empresária Maria Cristina Mascarenhas, dona do restaurante Guimas (localizado a poucos passos dali), e grande amiga do músico, foi assassinada em frente ao local, por um assaltante que visava levar os R$ 13 mil que ela acabara de sacar em um banco. Com a presença de amigos e familiares dela prestando tributos, as lágrimas interrompiam a fala de D2, direcionando a conversa para temas sérios, como segurança pública e eleições: “O voto obrigatório não vale porra nenhuma” , disparou, pouco antes de desabafar :“Eu tô amargo pra caralho, foi mal, desculpa, foi reflexo desse dia”. A entrevista, então, foi interrompida e retomada três dias depois. Agora, sim, com gargalhadas, ironias e o sarcasmo tão admirado pelos três milhões de fãs no Facebook daquele que fundou o Planet Hemp, está no show bizz há 20 anos, e, aos 46, acabou de virar avô da pequena Giovanna.

Em Danger zone (do disco Nada pode me parar, de 2013) você canta: “As ruas não perdoam, filho! Ah, isso eu sei / Porque nasci e fui criado em uma cidade sem lei / Aqui é o Rio”. A letra foi inspirada em casos como o de Maria Cristina?

Quando escrevi essa música me parecia até um lugar mais calmo. O Rio é uma cidade tão bonita e alegre e a violência já está tão no dia a dia que a gente se acostuma. Nos anos 1990, aqui era uma cidade sem lei mesmo. Às vezes dá uma trégua, mas pelo visto não mudou nada. Meu filho foi assaltado outro dia, saindo da escola, na Gávea. Ainda corri atrás do cara. Não devia ter feito isso, não dá para reagir, mas esse tipo de coisa é tão revoltante.

Às vezes pensa em fugir do Brasil?

Tenho vontade de morar fora por um tempo, mas não por causa disso. Gosto muito do Rio, apesar desses problemas. A cidade não é só isso. Não gostaria de criar meus filhos em outro lugar. Vou para Los Angeles? E aí entram aqueles malucos na escola atirando em todo mundo? Na Europa, tem os “anti-imigrantes”. Fugir da violência não adianta. Quando escolhi fazer rap era exatamente para falar disso. As músicas que fiz há 20 anos ainda servem: “Rio, cidade desespero / A vida é boa, mas só vive quem não tem medo / Olho aberto malandragem não tem dó / Rio de Janeiro, cidade hardcore / Polícia, cocaína, Comando Vermelho / Sarajevo é brincadeira, aqui é o Rio de Janeiro” (Trecho de Zerovinteum, de Os cães ladram, mas a caravana não para, lançado pelo Planet Hemp em 1997). Hoje em dia eu substituiria Sarajevo por Faixa de Gaza ou Crimeia.

É com o voto que se resolvem esses problemas?

Esse voto obrigatório não vale porra nenhuma. Só se vê político corrupto crescendo em cima da religião ou do medo do povo. O voto não deveria ser obrigatório, vota quem quer, porque aí teríamos pessoas interessadas. Só votei uma vez na minha vida, quando fiz 18 anos, quando o Lula perdeu para o Collor. Votei no Lula, mas depois nunca mais. Quando quero tirar passaporte, pago as multas, que é mais barato, é um preço menor do que se paga votando nesses candidatos que estão aí. E não tenho peso nenhum nas minhas costas. As pessoas votam e nem lembram em quem votaram.

Essa eleição, particularmente, tem tido um número muito grande de eleitores indecisos. As pesquisas estão mostrando um aumento dos votos brancos, nulos, não existe uma unanimidade.

É triste ver tanta impunidade. O Garotinho é “Ficha Limpa”… Está de sacanagem! E pode ser governador do Rio de Janeiro depois de tudo o que fez, o que roubou. Vai votar em quem? Não quero sair na revista apoiando nenhum candidato e daqui a seis meses ele aparecer envolvido em corrupção. O político tem que ter medo do povo e não o povo ter medo do político.

O que você achou do movimento que levou milhares de pessoas às ruas em 2013?

O grande problema é que não teve uma liderança forte, qualquer um fez o que quis. O principal para qualquer movimento é ter o apoio da população. Quando começou o quebra-quebra, a mídia marrom só mostrava os “vândalos” quebrando tudo. Todo mundo começou a ficar contra e perdeu muito a força. Mas a coisa mais interessante foi o povo brasileiro perceber que tem a possibilidade de protestar e mudar.

As UPPs melhoraram em alguma coisa a vida na favela?

Das favelas que frequento, Rocinha e Vidigal, o que mudou foi a arma. Não se vê mais tanta. É justo com a população das favelas que tenha polícia lá, mas tem que começar a botar escola, hospitais ou, pelo menos, UPAs (Unidades de Pronto Atendimento). A gente gasta muito dinheiro com combate ao tráfico de drogas. Tem que legalizar tudo. Quem quiser, usa. Ia ter muito menos morte com gente usando droga do que tem lutando para que não se use droga. Agora, se for pego dirigindo depois de usar cocaína, como se faz com as pessoas que bebem, tem que ir para a cadeia, passar lá seis mesezinhos. Pronto. As pessoas têm vergonha de falar “vamos legalizar a cocaína”. Falar da maconha já é visto como um absurdo, imagina outras drogas. “Ah, mas a cocaína faz mal”, as pessoas dizem. O que faz mal é o tráfico de drogas, que mata quatro, cinco por dia no Rio.

A legalização da maconha virou item a ser defendido por muitos candidatos nestas eleições, tem sido tema de debate em programas de tevê aberta, e até o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso virou um defensor da discussão. Você se sente responsável por isso?

Não acho que isso está acontecendo por minha causa. Mas tenho um pouco de responsabilidade nisso, sim. Fui para a cadeia por causa disso, levantei bandeira quando ninguém falava. Planet Hemp, né? Quando era mais jovem, achava que podia mudar sozinho. Depois fui vendo que não dava.

STATUS 40 - ENTREVISTA

Planet Hemp

Você já teve algum problema com drogas, já precisou de ajuda?

Só quando acaba, né? Aí eu peço ajuda, “me salva aí” (risos). Eu nunca tive problema. Mas já vi muitos amigos sofrendo. Isso tem muito a ver com abandono. A gente vê muito menos problema com álcool do que com cocaína. As pessoas que começam a cheirar, passam a viver uma vida solitária, egocêntrica. Daqui a pouco precisam de ajuda.

Como você conversa com seus filhos sobre drogas (ele é pai de Stephan, 22 anos, Lourdes, 14, Luca, 12, e Maria Joana, 10)?

Eu falo: “Se fumar maconha, vai todo mundo preso!” (risos). É do mesmo jeito que falo de bebidas: “Não é para a sua idade, você não está pronto para isso”. Meu filho mais velho fuma comigo, bebe comigo. Bezerra da Silva falava com muita sabedoria: “O mal não está nas drogas, está nos homens”.A maconha só acentua o que o sujeito é.

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Os filhos Stephan (segurando a neta de D2, Giovanna) Lourdes, Maria Joana e Luca;

Falando no Stephan, ele acabou de ter uma filha, a Giovanna. Como é virar avô?

É muito louco. É tão legal quanto ser pai. É foda ver uma criaturazinha que saiu de uma criatura que saiu de você. Fui criado no subúrbio, numa família muito grande, com muita feijoada, festa. Sempre procurei dar continuidade a isso. Acho que meu maior sucesso é ver meus filhos com saúde, vencedores. É muito maior do que o que faço na música. Quero que a Giovanna seja feliz, que tenha cabeça aberta para o mundo.

Você é o tipo de pai/avô que troca fralda das crianças?

Nunca fiz isso, cara. Sou um bom pai, mas não para trocar fraldas. Se eu falasse isso na frente da minha mulher (Camila Aguiar, casada com ele há 14 anos e mãe de seus dois filhos menores, Luca e Maria Joana), ela ia me matar. Sempre tive problema quando é muito bebezinho, botar para arrotar, trocar fraldas. Dever de casa também não, porque nunca fui muito bom na escola, então atrapalho mais do que ajudo. Mas essa noite fui dormir às 3h30 e acordei às 6h para levar meu filho na escola.

Você disse que escreveu nesta madrugada a letra de uma música. Ela fala sobre o quê?

Acho que é do ser humano sobre o ser humano. A violência de um sobre o outro. Minhas letras são 90% autobiográficas, ou melhor, acho que são até 100%. Mas nem sempre falo sobre o que eu fiz, às vezes é o que eu gostaria de fazer. Foi uma noite triste, todo mundo abalado. Levantei para escrever, fiquei olhando minha mulher e minha filha dormindo. Sempre escrevo melhor de madrugada, na tristeza, na pressão. Quando estou com raiva, com ódio.

Você está no terceiro casamento, o que essa união significa?

Além do amor de homem e mulher, da parceria, o casamento foi a procura de uma família, de ser um chefe de família, o que meu pai não conseguiu ser (os pais dele se separaram quando ele ainda era adolescente. A mãe casou novamente e ele não se entendeu com o padrasto e acabou saindo de casa). Ainda adoro a rua, chego em casa de madrugada e tomo esporro da patroa. Outro dia um amigo me chamou para ir ao BG (Baixo Gávea) e eu falei: “Não posso, minha mulher não deixa”.

Quem são seus amigos?

Meu cunhado é muito meu amigo. E o círculo de amigos da minha mulher. Eu perdi muitos dos meus amigos. Da infância, não tem ninguém vivo. De 20 anos para cá, tem o meu empresário (Marcelo Lobato), o Jackson, Akira Presidente. Os amigos da música, o Bernardo (BNegão) e o Gustavo (Black Alien), são meus amigos pra caramba, mas a gente se vê muito pouco, por causa de agenda. E tem o Skunk (morto em 1994, vítima da Aids). Até hoje ainda acordo achando que ele está vivo, pensando que tenho que ligar para ele. Ele foi um anjo na minha vida.

STATUS 40 - ENTREVISTA

Os amigos Zeca Pagodinho e Martinho da Vila

Já deu saudade dos companheiros do Planet Hemp (a banda se reuniu para uma turnê pelo Brasil em 2012 depois de quase dez anos longe dos palcos)?

Não, já encheu o saco de novo (risos). Daqui a uns dois anos, quem sabe? Não precisamos ficar tanto tempo afastados. Esse reencontro foi uma ideia da Maria Juçá (do Circo Voador), o Bernardo (BNegão) disse que não ia participar, mas conseguimos convencê-lo. Ia ser um show só, mas começou a esgotar tudo em meia hora, e aí decidimos marcar mais cinco shows, e mais cinco… Em novembro, dezembro, vamos lançar o CD e o DVD ao vivo do Planet, gravado em São Paulo. Ficou foda.

Você é muito ativo nas redes sociais. Ajuda na sua carreira?

Eu gosto, mas às vezes cansa um pouco, porque tem muita gente chata. As pessoas são diferentes na rua e na internet. Na vida, não sabem de nada, ganham um salário de merda, votam errado. Na internet, são corajosas e têm opinião para tudo. Nunca ganhei dinheiro com mídia social, nem com clipe, nem com disco. Minha grana sempre foi de show.

Quais são seus próximos planos na música?

Vou voltar agora à turnê do Nada pode me parar, que deve ir até o meio do ano que vem. Esse disco me fez perceber que um álbum não é só o CD físico. Fiz uma loja, clipe para todas as músicas lançados na internet. Quero fazer um projeto de samba cantando Cacique de Ramos, todos os compositores de lá: Zeca, Arlindo, Jorge Aragão.

STATUS 40 - ENTREVISTA

Mr Catra

Samba era uma coisa que você deixava reprimido na época de Planet Hemp?

Samba era coisa dos meus pais. Quando comecei a ouvir hardcore, andar de skate, comecei a achar um saco. Até eu perceber que era um caminho interessante, demorou.

Tem algum ritmo que você abomine?

Talvez o sertanejo. Mas tem um sertanejo legal, não esse universitário. As coisas de viola, do interior, são boas.

Falta fazer parceria com quem na música?

Com a Leci Brandão, gosto muito dela. Queria produzir uma música com o Pharrell também. Em 2006, demos um rolé em Portugal, num festival, combinamos de fazer algo juntos, mas nunca rolou, não tivemos tempo. Há muitos anos ele está tendo um toque de Midas: tudo o que faz vira ouro.

STATUS 40 - ENTREVISTA

Com a cantora Pitty

Qual o seu maior vício?

Tatuagem! Nos últimos 15 dias fiz três. Já perdi a conta de quantas tenho, está difícil ter espaço no corpo.

Mas você também tem muitos tênis, né?

Cheguei a ter 300 pares, alguns repetidos, porque eu comprava um para usar e outro para guardar. Depois comecei a querer poucos e bons. Outro dia, a Nike me mandou um desenhado pelo Kanye West, edição limitada, que estava valendo US$ 7 mil no e-Bay. Pedi à Nike para eu desenhar um tênis para o disco, eles gostaram e pediram outro. Acabei fazendo um tênis para cada clipe de Nada pode me parar, foi irado.

O que você acha que é o pior da fama?

– Não tenho problema com isso. Não ando com segurança, não sou celebridade, sou artista, faço arte. Algumas pessoas procuram a fama mais do que o sucesso e depois reclamam de falta de privacidade. Isso é demagogia. Se eu não quiser, não dou entrevista, sou o meu patrão. As coisas mais chatas do meu trabalho são fazer sessão de fotos e viajar de madrugada. Mas faz parte, se ganha bem. Melhor do que trabalhar naquela rotina.