A GRANDE LUTA DE FALLON FOX

Ela escondeu sua história e decidiu entrar no fechado universo do MMA. Só não contava que o sucesso no octógono traria seu passado à tona. Conheça a lutadora americana que nasceu homem, fez cirurgia de mudança de sexo e briga para ser reconhecida em um meio machista

 

Por Mariana Mesquita

 

STATUS 40 - TOP SECRET

Fox acerta um chute em Allanna Jones, que acabaria derrotada no 3o round. A vitória levou a lutadora transgênero à final do CFA, campeonato feminino de MMA da Flórida (EUA)

Há pouco mais de um ano, a norte-americana Fallon Fox, 38 anos, caminhava confiante até o centro do octógono montado na arena esportiva da cidade de Coral Gables, na Flórida, EUA. Ela estava prestes a participar da sua segunda luta como atleta profissional no Championship Fighting Alliance (CFA), respeitada competição local de artes marciais mistas, ou MMA. Ericka “Pitbull” Newsome seria sua adversária da noite. Bastou o juiz autorizar a disputa e as duas luvas se tocarem para Fallon mostrar que não estava ali para brincadeira: quando o relógio marcou 39 segundos, ela emendou uma sequência de movimentos rápidos e nocauteou Ericka com uma joelhada certeira. A vitória surpreendente no primeiro assalto arrancou aplausos e levou o espectador mais tímido à completa loucura. O que Fallon não imaginou é que aquele golpe mudaria de novo os rumos de sua vida. Quando os jornalistas começaram a pesquisar quem era aquela lutadora, um repórter do MMA Junkie, site especializado no esporte, a procurou para confirmar se eram verdade, ou não, os rumores que rondavam seu passado. “Eu simplesmente não achei que precisava contar ao mundo que havia nascido homem, mas também sempre soube que uma hora isso podia acontecer”, diz ela à Status, explicando a decisão de manter tudo em segredo. Mas, naquele momento, Fallon percebeu que precisava tomar uma atitude, antes que alguém tomasse. Ela escolheu então a Sports Illustrated, a maior revista de esportes dos EUA, para revelar sua história. Na reportagem exclusiva, contou que tinha nascido Boyd Burton, o filho do meio de uma família extremamente religiosa do centro-oeste norte-americano. Desde então, a lutadora carrega o peso de ser a primeira e única atleta transgênero da história do MMA. O esporte já tem no seu atual cenário pouquíssimo espaço para mulheres, imagine uma que era homem. Por essas e outras razões, Fallon enfrenta aquela que já considera ser a luta mais casca-grossa de todo o seu currículo: provar que é, sim, uma mulher e que merece ser respeitada como tal, dentro e fora do octógono.

MEU PASSADO NÃO ME CONDENA

Até 2006, quando fez a cirurgia de troca de sexo na tailândia, Fallon Fox era Boyd Burton, filho do meio de uma família religiosa

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Em pouco tempo, ela passou de desconhecida para a garota no centro dos holofotes da modalidade. E sofreu com as críticas de conhecidos atletas das artes marciais. Para a norte-americana Ronda Rousey, a primeira mulher a assinar contrato com o Ultimate Fighting Championship (UFC), a maior e mais popular competição de MMA do mundo, a cirurgia de mudança de sexo de Fallon, realizada em 2006, não muda em nada o fato de ela ter nascido homem. “Pesquisei na internet sobre o assunto e concluo que ela continua com a estrutura óssea de um homem e isso é uma vantagem. Portanto, não acho justo lutar contra mulheres”, disse Rousey ao jornal New York Post. Ao lado dela está o norte-americano Matt Mitrione, outro integrante do UFC e ex- jogador de futebol americano. “Ele omitiu sobre seu passado cirúrgico na ficha de inscrição da competição para bater em mulheres. Isso é nojento. Eu não via um homem machucar assim uma moça desde que o cantor Chris Brown espancou Rihanna”, disse ele durante entrevista ao programa esportivo MMA hour. As duríssimas palavras de Matt foram repudiadas pelo UFC (eles não comentam sobre Fallon, já que ela não faz parte da equipe da organização), que considerou o comentário extremamente preconceituoso e, por isso, suspendeu Matt por vários dias. Posteriormente, ele veio a público se desculpar pelo que tinha dito.

a lutadora começou a treinar com alex trujillo em 2010. desde que a viu lutar pela primeira vez, ele acreditou e apostou no potencial dela

A lutadora começou a treinar com Alex Trujillo em 2010. Desde que a viu lutar pela primeira vez, ele acreditou e apostou no potencial dela.

VANTAGEM “DESLEAL”

O caso ficou ainda mais tenso quando o site e programa de tevê de fofocas TMZ divulgou fotos de Fallon da época em que ela ainda era Boyd. As imagens foram compartilhadas por uma ex-namorada e os apresentadores aproveitaram para tirar sarro. “Não fiquei surpresa com as declarações negativas que foram feitas por jornalistas ou atletas profissionais de MMA. Para mim, isso só demonstra a imensa falta de informação das pessoas. O ser humano costuma agir assim quando desconhece algo”, diz Fallon, pronta para enfrentar dúvidas como: “ela tem a força de um homem?” ou “ela pode lutar contra mulheres?”.

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Um dos médicos que ajudaram a esclarecer essas dúvidas foi o norte-americano Eric Vilain. Diretor do Institute for Society and Genetics da Universidade de Los Angeles e responsável por definir a política de atletas transgêneros na Association of Boxing Commissions, ele explicou o que muitos queriam saber. Para o esporte, se a mudança de sexo ocorre antes da puberdade, o atleta é imediatamente classificado como se declara. Já se a cirurgia é feita após essa fase, como aconteceu com Fallon, a pessoa precisa ter concluído a operação de transformação (órgãos internos e externos), ter a nova identidade reconhecida legalmente e passar por terapia hormonal por pelo menos dois anos após a mudança para poder finalmente competir contra atletas do mesmo sexo com o qual se identifica. Segundo Eric, com o procedimento completo, o atleta deixa de ter qualquer vantagem “desleal” sobre os rivais. “Proibir Fallon de lutar é um erro, porque ela seguiu essas regras. Muitos ainda podem dizer que ela possui a estrutura de um homem e, por isso, é maior que suas adversárias, mas isso faz parte da genética de cada atleta”, justifica ele à Status. “Não afastamos o nadador olímpico norte-americano Michael Phelps porque ele tem braços maiores do que os dos outros competidores.”

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Medalhas e troféus decoram a sala da casa onde Fallon mora com a filha de 18 anos em Chicago

PODE LUTAR 

A explicação científica de Vilain, também usada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) desde 2003, esclareceu as dúvidas da Comissão Atlética da Flórida, nos Estados Unidos, órgão que regulamenta o Championship Fighting Alliance (CFA), sobre atletas “trans” no MMA e colocou um ponto final na discussão: Fallon estava autorizada a continuar lutando como uma atleta profissional desse esporte. De volta ao octógono, a norte-americana percebeu, porém, que a decisão tomada a seu favor não facilitaria em nada as coisas. Durante sua terceira luta, a adversária Allanna Jones (EUA) caminhou até o ringue, como é de costume nesse esporte, ao som de uma música. A canção, entretanto, foi escolhida a dedo: Dude – Looks like a lady (em português, algo como “O cara parece uma dama”), da banda Aerosmith. “Quando soube que ela lutaria contra mulheres, fiquei surpresa. Parecia que não estava acontecendo. Até hoje, parte de mim ainda não acha que foi justo”, diz Allanna, que perdeu a disputa daquela noite. O ótimo desempenho de Fallon aumentou as críticas a seu respeito, mas também a levou para a final do circuito contra Ashlee Evans-Smith, que, desta vez, superou Fallon e levou o cinturão para casa. “O CFA é um campeonato importante para mim, porque foi a primeira vez que participei como uma atleta transgênero profissional. Fui bem até a final, mas cometi alguns erros que me custaram a vitória”, diz ela. A lutadora explica que a derrota, por um lado, deu a chance de as pessoas entenderem que ela, como qualquer outra atleta, também pode perder. Por outro, mostrou que Fallon está em desvantagem em relação às adversárias. Por ter retirado os testículos, ela produz pouca testosterona, responsável pela diminuição de gordura corporal e também pelo ganho de massa muscular. Além disso, para ficar mais feminina, ela toma 16 miligramas de estrogênio toda manhã. Já as suas oponentes se suplementam com o hormônio masculino durante os treinos e produzem a substância naturalmente, nas glândulas suprarrenais e no ovário.

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RAINHA DE ESPADAS 

Nascido em uma cidadezinha do Estado de Ohio, Boyd Burton nunca pensou que seria um lutador de MMA e passou a maior parte da sua infância desenhando. Detalhe: ele fazia isso enquanto vestia as roupas de sua irmã e percebeu a imensa insatisfação de se olhar no espelho. “O grande problema é que eu não sabia o que isso significava e não podia conversar com ninguém. Na minha cidade, as pessoas crescem, casam e ponto. Além disso, meus pais acreditavam que gays ou lésbicas eram pessoas ruins que mereciam severas punições”, lembra. Poucos dias antes de completar 18 anos, Boyd assistia a um programa de televisão, quando ouviu pela primeira vez o termo transgênero, no seu caso, algo que pode ser explicado como “nascer no corpo errado”. “Naquele momento, encontrei uma definição para aquilo que sentia dentro de mim.” Apesar da esclarecedora descoberta, ele manteve-se firme e seguiu as “regras da família”: aos 19, engravidou uma ex- namorada e foi trabalhar na Marinha para ganhar dinheiro e sustentar a filha. Quatro anos depois, já de volta a Ohio, Boyd se inscreveu no curso de design gráfico de uma universidade local, como uma última tentativa de manter as coisas no eixo. Dois anos se passaram e ele percebeu que não dava mais para continuar encenando aquela rotina.

Mas o caminho até a cirurgia de mudança de sexo demoraria alguns anos, ao longo dos quais ele trabalharia como caminhoneiro a fim de arrecadar dinheiro para a sua mudança de vida. Nesse tempo, sozinho na estrada, aproveitou para pensar. “Tive que encarar de uma vez tudo aquilo que estava na minha cabeça. Comecei a pesquisar sobre a operação e estava decidido a fazê-la.” Foi quando encontrou sua nova identidade: Fallon Fox. “Não aconteceu nada de especial, eu só gostei do nome do baterista da banda Kittie, Fallon Bownman, e quis ter um igual”, diz. Com dinheiro suficiente no bolso, Boyd tomou coragem para explicar a verdade para a sua filha, atualmente com 18 anos, cuja guarda ela ganhou na Justiça após acusações de abuso de drogas por parte da mãe da menina. “Nós nos amamos muito. Sempre fui sincera com ela e ela sempre teve orgulho de mim. Ela é muito linda, inteligente e uma amigona.”

Feito isso, em 2006 ela viajou até Bancoc, na Tailândia, a mais de sete mil quilômetros de distância dos EUA. Ao desembarcar, foi direto para o hospital, onde ficou várias semanas até se recuperar de fato da dura operação. “A cirurgia foi, na verdade, o passo final de um sentimento que eu tinha desde criança. Por isso, quando acordei, não pensei ‘Ops, agora sou uma mulher’, porque já me sentia como uma havia anos”, conta. Após a recuperação, já como Fallon Fox, ela se lembra de ligar para casa, decidida a conversar com a sua mãe (que ainda contava com um milagre divino para fazer Boyd mudar de ideia). “Eu disse que havia dado tudo certo. Então, percebi um suspiro angustiado do outro lado da linha”, diz ela, que, desde então, não falou mais com a família (e prefere não comentar sobre o assunto). De volta aos EUA, Fallon colocou próteses de silicone (400 ml em cada seio), fez tratamento hormonal, outras tantas cirurgias plásticas no rosto (uma delas para diminuir a mandíbula) e mudou-se com a filha para Chicago. “Pela primeira vez, me sentia como eu mesma e pude começar a cuidar da minha vida de fato.”

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GÊNERO E SEXUALIDADE 

Em 2008, decidida a manter seu novo corpo em forma, Fallon, que tem 1,68 metro e 65 quilos, pisou pela primeira vez numa academia de artes marciais. “Na época, assisti a alguns vídeos da lutadora japonesa Megumi Fujii, 40 anos, e fiquei encantada com seus movimentos e sua forma física”, conta. Não demorou muito até que ela percebesse que aquele esporte se tornaria uma grande paixão. Em 2010, foi treinar no Midwest Training Center, sob o olhar crítico do técnico Alex Trujillo. Ele entendeu logo na primeira vez que viu a eficiência dos golpes de Fallon que ela precisava competir no MMA. Dito e feito: em 2011, a americana subiu ao octógono pela primeira vez como “Rainha de Espadas”. O apelido surgiu anos antes, quando Fallon leu uma mensagem em sua página do Facebook sobre um caso sério de desrespeito sofrido por uma amiga transgênero. A moça contava que tinha sido gravemente debochada na rua. “Estou sofrendo agora, mas vou superar. Sou uma Rainha de Espadas”, escreveu no fim do texto. O termo, que também é o nome de uma carta de tarô que significa mulher inteligente, forte e que nunca desiste, mexeu com o íntimo de Fallon. “Na hora, senti que aquilo servia para mim. Eu sabia que em algum momento da minha vida precisaria ter muita força e precisava de um nome para me ajudar a lembrar daquilo que eu sou e o que represento quando esse momento difícil chegasse.” Como tudo que acontece em sua vida, Fallon não hesita em falar de outros assuntos ainda mais particulares: os relacionamentos com mulheres. “Não podemos confundir gênero com sexualidade. Eu me tornei uma mulher, porque era assim que eu me sentia. Mas uma pessoa transgênero pode ser gay, lésbica ou bi”, diz ela, que namora uma mulher, Amy Pierson, 28 anos.

Passada a dura tormenta, Fallon foca em dar menos entrevistas e treinar mais. “Enquanto minhas adversárias estavam ficando mais fortes, eu conversava com jornalistas. Hoje, minha rotina implica ir cinco ou seis vezes por semana para o ginásio.” O treinamento tem que ser duro se ela quiser alcançar seu próximo grande objetivo: conquistar uma vaga no Invicta Fighting Championship – outra organização norte-americana que promove só o MMA feminino. “Se a comissão permite que ela esteja lutando, quem sou eu para julgar? Eu não escolho adversária, apenas me preparo para a disputa”, comenta a lutadora brasileira Cris Cyborg, uma das integrantes do Invicta FC (como o campeonato é mais conhecido), que já afirmou que lutaria facilmente contra Fallon.

De olho no futuro, Fallon será uma das protagonistas do documentário Game face (gamefacedoc.com), com lançamento previsto para 2015. Produzido pelo diretor Michael Thomas, um ex-atleta de basquete que anunciou ser gay aos 23 anos, o filme traz depoimentos de atletas homossexuais ou transgêneros que colocaram a cara a tapa ao assumirem sua posição sexual. Fallon também viaja mundo afora fazendo palestras sobre a própria história. “Faço isso para compartilhar as experiências boas e ruins que tive depois que decidi operar. Quero mostrar que nascemos diferentes, mas somos todas mulheres”, diz ela, confiante no que está por vir e disposta a enfrentar com garra os duros golpes da vida.

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Fallon encara Allanna Jones, terceira adversária a ser derrotada por ela