A ESPADA AINDA É A LEI

Já ouviu falar das batalhas esportivas de combate medieval? Elas viraram febre no mundo inteiro e reúnem simpatizantes que usam armas reais e proteções de aço. Detalhe: Eles Partem para a briga como nos velhos tempos

 

Por Pablo Miyazawa

 

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Sob o sol a pino e rodeados por cercas de madeira rústica, três dezenas de soldados equipados com armaduras, capacetes, espadas e escudos ocupam uma pequena arena retangular de terra batida. O clima é de fúria coletiva e todos contra todos. Dois guerreiros com escudos azul-escuros batem emum mesmo adversário com espadadas. Um soldado de vermelho desliza como um velocista e enxerga a próxima vítima de longe: um cavaleiro distraído, que recebe um golpe de escudo na altura do queixo. Um grandalhão solitário, o último sobrevivente do time de uniforme xadrez, espera um inimigo passar correndo para pará-lo de modo certeiro com a ponta de um machado de haste longa. Tropeçando de dor, o ferido enfia a cabeça na grade e despenca de costas. No canto oposto, um guerreiro de vestes amarelas esquece a lança que tem em mãos e acerta uma voadora no estômago do soldado esverdeado, que passa a ser atacado por cinco ao mesmo tempo. A violência só cessa com a ordem de “stop” no alto-falante. Os que estão em pé são declarados vitoriosos. Os que estão no chão se levantam, vivos. Todos se abraçam. Chega ao fim mais uma competição do onírico universo das batalhas esportivas de combate medieval, modalidade que está virando febre no mundo inteiro, em que as espadas são de aço real e capacetes e proteções são obrigatórios para evitar lesões graves. Dentro das arenas, os roteiros fogem das prévias combinações como nos RPGs tradicionais: vale quase tudo, e normalmente alguém acaba se machucando. Mas essa também é grande parte da graça.

Na prática, o combate medieval é como uma mistura de aspectos de diversos esportes de uma vez: MMA, rúgbi, boxe, hóquei, esgrima, futebol e futebol americano, só para citar os mais evidentes. São várias modalidades possíveis – um contra um, cinco contra cinco, disputas com exércitos inteiros –, que normalmente giram em torno da ideia de derrubar o adversário, de modo a fazê-lo encostar ao menos três partes do corpo no solo. A popularização se deu no final da década passada, na Rússia, Polônia, Bielo-Rússia e Ucrânia (ainda hoje os mais poderosos do esporte), mas hoje a prática se estende à maior parte da Europa Ocidental e também a nações com pouca ou nenhuma tradição em história medieval, como México, Argentina, EUA e Brasil.

Dependendo da federação mundial – hoje são duas: Historic Medieval Battles International Association (HMBIA) e International Medieval Combat Federation (IMCF) –, a atividade é batizada de modos diferentes: “medieval combat” ou “historical medieval battle”. Dois nomes pomposos para o mesmo esporte brutal. Visto de longe, parece uma grande brincadeira levada a sério demais. Para quem está dentro, o negócio é severo como qualquer esporte, com regulamentos detalhados, equipamentos específicos e torneios de alcance global. E é melhor deixar o estereótipo nerd de lado: os participantes são na maioria homens de porte atlético, trajados e equipados à imagem e semelhança de soldados de séculos atrás, com estandartes coloridos, armaduras reluzentes, espadas, machados e lanças de aço em riste, descarregando ataques furiosos contra oponentes estrangeiros. “Lutamos com armaduras de 25 a 35 quilos e armas, socando, chutando e batendo. Precisa de força, energia, destreza, habilidade e resistência à dor. Sim, nós somos atletas”, disse à Status Jaye Travis Brooks, 48 anos, criador da liga Armored Combat League, uma das principais equipes nacionais de combate medieval dos Estados Unidos. Espécie de porta-voz do esporte no país e autodeclarado fã das lendas arcaicas de Robin Hood e Rei Artur e da saga O Senhor dos Anéis, ele também comanda o The Knight’s Hall, um misto de academia de artes marciais medievais e centro de fitness localizado em Nashua (New Hampshire). “Eu me sinto em casa”, ele diz, descrevendo o sentimento mais comum durante o calor do combate. “A adrenalina corre pelas veias e não há nada além da luta. Você está absolutamente vivendo o momento. Está vivo.”

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A paixão por história medieval e épicos da ficção caracteriza grande parte dos praticantes, mas é a experiência catártica gerada pela violência bruta que atrai a maioria. Os gladiadores lutam pelo prazer proporcionado pela adrenalina e pela chance da vitória (ou o risco da derrota e de uma contusão dolorida). E, mesmo que as sensações sejam genuínas, as regras e a presença de juízes nas arenas não deixam ninguém esquecer de que tudo é apenas um jogo. Se bem que eles queriam que fosse de verdade.

Ossos quebrados do ofício

Por ser um esporte novo e aberto a interpretações, os conflitos ainda se estendem além das arenas. Tanto que duas organizações mundiais disputam as atenções dos interessados e reivindicam o comando do negócio: a Historic Medieval Battles International Association (HMBIA), criada na Rússia e que abriga o torneio Battle of the Nations, espécie de Copa do Mundo que ocorre há cinco anos, e a International Medieval Combat Federation (IMCF), da qual fazem parte times da Europa Ocidental e da América do Norte, criada recentemente após desavenças de alguns países com os administradores da HMBIA. Em ambas as ligas, os países-membros organizam torneios locais, que ocorrem ao redor de castelos e ruínas e reúnem dezenas de milhares de espectadores.

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Mínimas diferenças à parte, as duas organizações trazem regras semelhantes no que diz respeito à espessura das espadas, ao peso dos escudos e à resistência das armaduras, além da fidelidade estética dos equipamentos em relação às versões originais.

As lâminas são cegas e as pontas arredondadas, para minimizar chances de mutilações ou sangramentos. Debaixo dos capacetes, praticantes usam máscaras e respiradores, que facilitam a entrada de oxigênio. Nos combates, normalmente com dois minutos de duração, há muito mais restrições do que permissões: é proibido acertar pés, virilhas, garganta e atrás dos joelhos e pescoço. Golpes sem armas e uso de técnicas de luta livre são permitidos, mas sufocamentos e torções são banidos.

Em um esporte de tamanho impacto, arranhões, braços quebrados e luxações são mais do que esperados. Em 2013, ao menos 15% dos cerca de 500 atletas de 22 países que participaram do Battle of the Nations passaram por algum tipo de atendimento médico. Se para os guerreiros os ossos quebrados são parte do ofício, eles também afirmam que o combate medieval não deveria ser considerado mais perigoso do que outros esportes. “Lutei em três campeonatos mundiais contra os melhores do mundo e voltei para casa com apenas um pequeno arranhão, uma única vez”, conta Brooks. “Se um homem se equipa de maneira adequada, com a armadura certa, treina o corpo como um atleta e segue as regras de segurança necessárias, não é perigoso. Haverá ferimentos, mas é a natureza do esporte.”

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Em u esporte de tamanho impacto, arranhões, braços quebrados e luxações são mais do que esperados.Mas é proibido acertar pés, virilhas, garganta e atrás dos joelhos e pescoço. Sufocamentos e torções também são abnidos

“Parece mais perigoso do que realmente é. Dentro da armadura não se sente tanto os golpes quanto parece para quem vê de fora”, diz Andy Di Francesco, 33 anos, capitã do time da Argentina na edição 2014 do Battle of the Nations. “O medo é mais de fazer coisas erradas e passar vergonha”. Praticante de recriação histórica medieval há sete anos, Andy, uma das poucas mulheres de destaque em um jogo de apelo tão masculino, conta que a família pensava que ela enlouquecera ao se envolver com lutas armadas. “Agora eles aceitam e até passaram a gostar”, diz ela, que compartilha a paixão com o namorado, Juan Manuel Diaz, também integrante do time de seis soldados que vestem a armadura alviceleste. “Ele é tão doido quanto eu por tudo o que é medieval. Seria muito difícil se um de nós não gostasse.”

Na busca pela essência

O Brasil ainda está na Idade Média no que diz respeito à transformação do combate medieval em modalidade esportiva, mas há movimentos nesse sentido. Guiarony Moreira é um dos responsáveis pela criação da Associação Brasileira de HEMA, sigla para Historical European Martial Arts, que estuda as técnicas de combate praticadas na Europa antiga. Diferentemente do que ocorre no combate medieval, os grupos de HEMA utilizam material esportivo moderno e espadas de materiais sintéticos. “Para evitar acidentes”, diz Moreira. Mas a opinião dele e a de outros praticantes de HEMA é que o combate medieval é “um MMA com espadas. Não preza tanto as técnicas, e sim a força bruta”. Já o grupo Amigos da Montanha, criado em Campinas (SP), concentra-se na divulgação e prática das batalhas medievais históricas e tem como meta representar o País em torneios internacionais em um futuro próximo.

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O americano Jaye Brooks e a argentina Andy Di Francesco vestidos a caráter

Vale lembrar que os combates históricos como esporte começaram nos eventos europeus de reenactment, que simulam e reconstituem práticas e costumes medievais. Atualmente são dezenas de clãs em atividade no Brasil, nos quais a exploração da luta armada é apenas mais um aspecto abordado, ainda que bastante atraente para os praticantes. “A luta medieval passa uma sensação parecida com a de uma arte marcial, mas ela vai mais além”, diz Thomas Pires, que pratica o reenactment viking com o clã paulistano Filhos de Rígr. “Remonta à cultura medieval que nos é ensinada na escola, nos filmes e nos livros. É intenso, quase a prática de um esporte radical.”

Para Paulo Cesar Revuelta, também do Filhos de Rígr, mais do que um motivo para experimentar os combates, o objetivo do reenactment é vivenciar da maneira mais fiel possível os costumes perdidos de uma época remota e mais gloriosa. “É uma forma de voltarmos no tempo, de encontramos nossa essência, de lutarmos uns pelos outros ou mesmo uns contra os outros”, diz ele. “Após a luta, nos reunimos para tomar uma boa cerveja, comer um suculento javali, contar histórias e cantar os feitos e sagas antigas.”

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