CLUBE DO LUTO

Uma adolescente gordinha de 13 anos escreve livros diretamente de seu escritório no inferno. Esta é a premissa da demoníaca trilogia do escritor norte-americano Chuck Palahniuk

 

Por Ronaldo Bressane

 

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Iniciada com o engraçadíssimo Condenada, em que Madison Spencer, filha de uma estrela de cinema narcisista e de um bilionário, morre de overdose de maconha depois de ser abandonada em uma escola interna na Suíça durante o Natal, enquanto seus pais estão divulgando seus novos projetos e adotando mais órfãos. No inferno, ela compartilha a cela com um grupo de jovens pecadores – uma líder de torcida, um atleta, um nerd e um punk – que se unem para enfrentar Satã. Maldita (LeYa; 384 págs.; R$ 45), segundo volume da trilogia, começa com Madison de volta à Terra, mas apenas como um espírito ambulante, o que a faz perceber que está passando pelo purgatório. Atormentada pelo que aconteceu antes de sua morte, a garota descobre que o Príncipe das Mentiras está com planos malignos para levar todas as almas terrenas para o seu lar, e ela deve, a todo custo, evitar que isso aconteça. Status conversou com o autor sobre religião, sadismo e obsessões, além, é claro, de seu clássico Clube da luta, que deve ganhar uma continuação em quadrinhos em 2015.

Sua trilogia é uma sátira da obsessão americana com a religião? 
Nossa obsessão americana é um pouco maior do que apenas religião. Americanos querem regras que garantam a eles o caminho para o sucesso. Amamos um mapinha; assim podemos ficar na escola por períodos impossivelmente longos, e aí preenchemos nossas vidas com leis.

Por que você preferiu colocar o Twitter no inferno, em vez do Facebook?
A saudação “Gentil Tuiteiro” é uma referência ao “Gentil leitor” usado pela Dorothy Parker quando ela escrevia uma coluna para a revista New Yorker, quase um século atrás. Parker sempre esteve entre meus escritores favoritos, e seus leitores certamente irão reconhecer esta homenagem a ela.

Quem te inspirou a criar Maddie?
A voz de Madison e seu porte físico foram compostos do terror coberto por um fino brilho de distância. Esta é a composição da maioria das pessoas espertas. Os mais cruéis e engraçados são os sádicos que agem com prevenção, porque eles mesmos têm muito medo de serem atacados. Você vê essas características muito exageradas na maioria dos comediantes de stand-up e nos críticos literários.

Como está a sequência de Clube da Luta, prevista para se tornar uma graphic novel? E como você vê esse livro, quase 20 anos depois de seu lançamento?
A Dark Horse vai publicar uma série em dez edições em 2015, que se transforma em volume único em 2016. Cameron Stewart é o desenhista e eu escrevi o roteiro. Contém todos os personagens originais, dez anos depois do final daquela história. Se você levar em consideração que sou um escritor muito melhor do que era em 1994, pode dizer que a sequência será melhor que o primeiro livro.

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A capa do volume 1

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STONES

POR DENTRO E POR FORA

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Mais uma biografia definitiva dos Rolling Stones? Bem, parece que The Rolling Stones: A biografia definitiva, de Christopher Sandford (Record; 532 págs.; R$ 50), chegou perto. A começar pelo fato de Sandford não endeusar os pais do rock, e sim mostrá-los tanto em suas alturas quanto em suas baixezas. O completíssimo livro do jornalista inglês (autor de “bios” de David Bowie, Kurt Cobain, Keith Richards, entre outros) cobre 50 anos do quinteto. Colocando na mesma perspectiva as inovações musicais (restritas aos anos 60 e 70), os escândalos sexuais, culturais e químicos, bem como o insaciável apetite de Mick Jagger por dinheiro, por todo o livro fica clara a simpatia de Sandford por Richards, como uma grande e gloriosamente engraçada figura excêntrica, fisicamente destruído mas mentalmente genial, enquanto Jagger é retratado como um sátiro com alma de banqueiro. Aliás, apesar de sua reputação priápica, Sandford revela uma confidência curiosa sobre o talento de Jagger: depois que terminou seu casamento com a modelo Jerry Hall, diz que “mesmo uma grande paixão raramente compensa uma diferença de cinco polegadas na altura”.

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CONTOS CORTANTES

Já setentão, o carioca Sérgio Sant’Anna voltou à arte em que talvez não encontre rival à altura no Brasil: o conto. Em O homem-mulher (Companhia das Letras; 184 págs.; R$ 38), seus jogos literários são praticados sobretudo no terreno do erotismo – outro território no qual é mestre, caminhando na delicada linha que separa a sacanagem do sublime, sem cair na baixaria, e ainda assim conseguindo ser sutilmente engraçado. É o caso do conto-título, em que, durante certo Carnaval, um garoto que adora se vestir de mulher tem um caso safadíssimo com uma ninfeta em um cemitério. Ou da sensual vendedora de lencinhos que precisa juntar dinheiro para o tratamento de câncer do marido.

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ANTES E DEPOIS DE TRAINSPOTTING

O filme de Danny Boyle estremeceu os anos 1990 com seu retrato de jovens amorais desinteressados de qualquer coisa que não fosse drogas, música e diversão. Vinte anos depois, Irvine Welsh, o autor do livro que inspirou Trainspotting, revisita em Skagboys (Rocco; 592 págs.; R$ 49,50) aqueles adoráveis cretinos antes de começarem a ingerir heroína como se não houvesse amanhã. Welsh repete seu invulgar talento para ser vulgar, usando palavrões como pontuações, e adensa o retrato da Escócia sob o governo linha-dura de Margaret Thatcher (1925-2013). A divertida gíria scots, usada pelos personagens e jovens daquela época, foi supimpamente vertida pela dupla de tradutores Daniel Galera e Daniel Pellizzari.

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