COMO SE TORNAR UM ATOR PORNÔ

Antes que você descarte a minha sugestão como piada de mau gosto, vale lembrar que a indústria de filmes pornográficos, segundo a revista IstoÉ Dinheiro, fatura no mundo todo cerca de US$ 10 bilhões ao ano

 

Por Reinaldo Moraes

 

STATUS 40 - PORNOPOPEIA

Não sei o que o estimado e honrado leitor faz pra ganhar a vida, mas se por acaso anda pensando em buscar novos horizontes profissionais, eis aqui algumas dicas sobre como se dar bem numa excitante e desafiadora carreira no mundo do chamado entretenimento adulto, atuando como ator pornô. A estrela-guia, no caso, é o mais famoso porn star do mundo, Rocco Siffredi, conhecido como o “Garanhão Italiano”, que já protagonizou mais de 1.500 filmes de sacanagem nos quais transou com cerca de quatro mil mulheres, fora muitas outras abatidas apenas pelo velho prazer de praticar o nobre esporte. E antes que você descarte a minha sugestão como piada de mau gosto, vale lembrar que a indústria de filmes pornográficos, segundo a revista IstoÉ Dinheiro, fatura no mundo todo cerca de US$ 10 bilhões ao ano, cifra apenas inferior ao mercado de apetrechos eróticos, estimado em US$ 15 bilhões anais – digo, anuais. Com tanta grana assim envolvida, que se dane o mau gosto, não é verdade?

Para sua orientação como debutante na carreira, convém destacar alguns traços marcantes do currículo do professor Siffredri, caso você não o conheça, embora possa até já ter visto a figura em ação num filme, sem ligar o nome à pessoa – e, principalmente, à jeba da pessoa. Tudo começou quando, aos 16 anos de idade, nosso herói ganhou um concurso de masturbação ao ejacular 11 vezes em seis horas. Pelo menos é o que ele conta em sua autobiografia Eu, Rocco, publicada em 2006 na Itália e ainda inédita no Brasil. Foi aí que Rocco sacou que tinha o physique du rôle pro ofício de ator pornô. Outro detalhe do seu physique também corroborava tal percepção: os 24 centímetros da sua rôle. (A capa da sua autobiografia estampa uma régua que celebra esse portento.)

Eis aí, portanto, uma boa dica pra quem pretende ingressar na profissão: esmere-se na punhetagem pra ir habituando seus órgãos sexuais às rudes tarefas que lhes serão exigidas no set de filmagem, sobretudo nas produções classificadas como “gonzo”, ou barra-pesada, que são as mais ardentemente procuradas pelo público. Ok, talvez você não precise chegar à marca das 11 gozadas em seis horas, sobretudo se já não é nenhum menino. Acredito que umas três ou quatro ejaculadas naquele período de tempo já quebrem um bom galho. Quanto aos 24 centímetros de dote, bom, posso te encaminhar alguns dos milhares de spams de “aumente seu pênis” que entulham todos os dias minha caixa de correio. (Se algum funcionar, me avise imediatamente.)

É claro que a questão da idade deve ser considerada aqui, mas está longe de ser um fator restritivo, ao contrário do que o próprio Rocco imaginou ao completar 40 anos e decidir jogar a toalha, tornando-se apenas produtor e diretor de filmes pornográficos. Na ocasião, em 2004, o garanhão italiano achou que estava muito velho pra protagonizar fornicações cênicas e entrou numas de dedicar mais tempo à sua produtora e à sua mulher, a húngara Rosa Caracciolo (née Rózsa Tassi, também ela ex-atriz de filmes “adultos”), com quem teve dois filhos.
A decisão de encerrar a carreira de ator pornô, no entanto, revelou-se problemática para Rocco. Diz ele numa entrevista para o site AVN que se sentiu extremamente frustrado ao passar da frente pra trás das câmeras. “No primeiro ano parado devo ter trepado com mais de mil putas na rua, de tão maluco que eu fiquei. (…) Eu filmava garotas trepando, mas não podia trepar com elas. Não é que eu sentisse falta de xoxota. Minha mulher é linda. O que me faltava era a variedade, algo que eu tinha antes de parar.” Cinco anos mais tarde, Rocco voltaria à ativa em grande estilo sob a batuta de John Stagliano, o magnata americano do cinema pornô. “A única diferença é que preciso dar um tempo maior entre uma ejaculada e outra”, diz ele. Simples assim.

Não importa qual seja a sua idade, uma coisa você precisa saber sobre as produções “gonzo”, que se diferenciam das “feature”, ou “cinematográficas,” como poderíamos traduzir, por não terem historinhas nem justificativas ficcionais de espécie alguma pra fodelança desbragada, com fartas doses de sadismo. Num filme gonzo, a cereja do bolo é o sexo anal, sendo que não raro você terá que dividir o orobó da sua partner com mais um ou até mais dois atores roludos, numa selvagem tripla penetração.

John Stagliano, o diretor e produtor que alçou Rocco Siffredi ao estrelato mundial da cineputaria, explicou com alto senso didático a primazia do sexo anal no cinema pornô, numa entrevista ao escritor anglo-americano Martin Amis, que realizou uma impactante reportagem sobre esse ramo da sétima arte para o jornal britânico The Guardian. Stagliano começa arrasando: “Bucetas são bullshit”.

Bullshit, você sabe, além de literalmente significar “merda de touro”, quer dizer também papo-furado, coisa à toa, falsa, sem sentido. “No sexo vaginal”, continua o diretor e ex-ator, “a guria fica ali soltando gemidinhos enquanto leva na xota. O espectador fica pensando: Isso aí é pra valer? Ou é só bullshit? No anal, por outro lado, a atriz é forçada a um outro tipo de reação, mais gutural, mais animal.”Rocco, lendário enrabador, também vai nessa linha: “Eu quero ver emoção… medo… excitação… os olhos revirando numa expressão de autêntica surpresa.” É esse tipo de reação que você terá que arrancar por via anal das garotas com quem vai contracenar. Pra isso, você terá que estar possuído pelo mesmo grau de emoção e excitação. Tem que ter tesão pra valer, e não se satisfazer apenas com um pau duro turbinado pela indústria química, que, aliás, poderá te provocar embaraços na hora de finalizar gozando na cara da parceira, como é praxe no gênero. O pau tá lá entupido de viagra, mas cadê o orgasmo, a porra voadora? Problemão.

Além de estar imbuído de tesão genuíno, você não poderá demonstrar nenhum tipo de escrúpulo quando um diretor gonzo como Stagliano te pedir pra dar uns tapas bem dados na bunda e na cara da sua partner, urinar em sua boca, xingá-la de tudo quanto é nome, apertar-lhe a garganta até quase sufocá-la,morder-lhe forte os mamilos até arrancar sangue e outros mimos que tais. E olha que o John Stagliano é até um gentleman comparado com diretores da linha trash, como Max Hardcore. Um dos truques preferidos de Mr. Hardcore, segundo Martin Amis relata em sua reportagem, incluem o uso de um espéculo, instrumento destinado a dilatar certas cavidades do corpo, e uma mangueira – e isso é tudo que posso adiantar no momento. Haja estômago.

Há outros perregues que você deverá estar preparado para enfrentar com destemor e um bom infectologista. Um deles é a velha Aids, que dizimou metade dos atores pornô nos anos 80 e metade dos 90, até os exames de HIV se tornarem obrigatórios na indústria. O grande John Stagliano, por exemplo, é soropositivo, condição que ele diz ter adquirido num bordel do Rio de Janeiro. Sua mulher, Tricia Devereaux, outra ex-atriz pornô, também aidética, herdou o bichinho de um colega de filmagem.

Você já vê que todo cuidado é pouco. E sendo que certas doenças sexualmente transmissíveis são muito difíceis de evitar, mesmo com camisinha, segundo confessa uma pornoatriz americana de nome Chloe que o Martin Amis entrevistou. Diz a fofa: “Depois de um certo tempo nesse ramo, você acaba pegando herpes. Todo mundo tem herpes. No set, você às vezes chega prum cara e pergunta: ‘O que é isso?’ Ele diz: ‘O quê? Isso? Ah, é só um esfoladinho’. Pode até ser um esfoladinho, com todo esse tráfego, né? Mas o mais provável é que seja herpes mesmo. Esse cara não deveria estar ali trabalhando”. É mais ou menos isso, meu velho. Vai se preparando. E boa sorte! (Ah: não esqueça do espéculo!)