EY EY EY – MAEL

Ele nunca teve mais de 0,5% dos votos, mas não desiste. Passamos um dia ao lado do candidato à presidência, dono do jingle mais grudento do Brasil

 

Por Tom Cardoso

STATUS 40 - PERFIL

Eymael e sua maquiadora, Neide Morari, com ele há 14 anos: “Além de lindo, ele tem classe, anda de forma elegante”, diz ela

No começo dos anos 1960, uma lenda espalhou-se rapidamente por Gravataí, cidade da região metropolitana de Porto Alegre, atraindo uma legião de aventureiros vindos da capital gaúcha: quem conseguisse escalar os 230 metros do Morro de Itacolomi, o mais alto da região, teria qualquer sonho realizado. Bastava colocar uma caixa com bilhete dentro, no pico do morro, que o pedido seria atendido. Até hoje, misturadas a centenas de caixas, estão ali pelo menos uma dúzia delas, que se diferem das demais por conterem o mesmo pedido vindo do mesmo homem. Seu nome: José Maria Eymael, um estudante de direito da PUC-RS, recém-filiado à Juventude Operária Católica (JOC) e já tomado por uma obsessão: virar presidente da República. Nos 50 anos que se seguiram, o dublê de alpinista, logo transformado em político profissional, jamais chegou perto de ter o desejo atendido. Das três vezes que se candidatou ao Planalto, em 1998, 2006 e 2010, não ultrapassou a barreira do 0,5% dos votos válidos – o que não significa que ele tenha se tornado menos teimoso. Pelo contrário. Quarta vez candidato, novamente pelo “nanico” Partido Social Democrata Cristão (PSDC), Eymael, 74 anos, tem a mais absoluta certeza de que sua hora chegou. Apesar de deter menos de 1% das intenções de voto (segundo pesquisa Datafolha, de agosto), ele acredita estar “bem perto” de ocupar o mais alto cargo da República.

“Tenho totais condições de enfrentar a presidente Dilma no segundo turno e vencê-la”, diz Eymael, parado em frente à estreita porta de um velho sobrado, localizado no Largo de Pinheiros, zona oeste paulistana. No segundo andar funciona uma produtora de vídeo, onde são gravados os programas eleitorais para televisão, rádio e internet, de todos os candidatos do PSDC. É ali que ele diz fazer valer cada segundo dos 45 que ele tem direito na propaganda diária de televisão – contra os 11 minutos e 48 segundos da candidata do PT, “sua provável adversária no segundo turno”. “O que chama mais a atenção do eleitor: 11 minutos de discurso vazio, falando sobre o nada, ou 45 segundos dizendo o que é preciso ser dito?”, pergunta Eymael, em voz alta, ainda na porta da produtora, despertando a atenção do camelô de uma banca de óculos, que se aproxima do candidato com um olhar indeciso, buscando algum ponto na memória. Ele parece conhecer o senhor de terno azul-escuro e gravata prata, impecavelmente alinhado, de postura imperial, mas ainda não ligou o rosto à pessoa – as cinco décadas dedicadas à vida pública não bastaram para tornar Eymael o mais popular dos homens, reflexo do sempre minguado tempo de televisão. O que não angustia o candidato do PSDC. “O pouco tempo de televisão tem pouca influência na maneira com que um político se comporta”, diz o cientista político Carlos Melo, doutor pela PUC-SP. “O Eymael tem poder, e grande, dentro dos seus limites. Ele é o postulante à Presidência pelo seu partido, o que deve envaidecê-lo e mantê-lo como candidato por muitos anos, mesmo que saiba que não tem a mínima chance de passar de 1% das intenções de voto”.

O camelô aproxima-se ainda mais de Eymael, ficando a um palmo do presidenciável, chegando a virar a cabeça de lado, em um gesto que lembra o dos cachorros quando estão diante de algo que não compreendem muito bem. Eymael sorri, constrangido, esticando o braço, preparando-se para se apresentar: “Muito prazer amigo, eu sou o…” Nesse momento, uma senhora surge rapidamente, abrindo espaço entre os cabides da loja de roupas, ao lado do estúdio. Com os braços levantados, começa a cantarolar o inconfundível jingle eleitoral, tão popular que, pelo jeito, ofuscou até mesmo o homenageado: “Ey, Ey, Eymael, um Democrata Cristão…”

A senhora canta e dança com o dedo indicador levantado. Outros populares o cercam e são cumprimentados em tempo recorde pelo candidato, que, depois de apoiar a presidentew Dilma na eleição de 2010, hoje atua na oposição ao atual governo. “Me iludi”, resume.

 

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Em sentido horário: em campanha para prefeito de São Paulo, em 1985, ano em que seu jingle foi lançado; carro usado na campanha a prefeito, em 1992, e Eymael, como goleiro, no time Avante Futebol Clube, de Porto Alegre

MISSÃO MAIOR

Eymael sobe rápido as escadas, acompanhado dos inseparáveis assessores, o coordenador-geral da campanha, Rubens Pavão, e o gerente de comunicação, Armando Barreto. Eles atravessam o salão do estúdio, apertando o passo, e se trancam em uma das salas de gravação. É um dia tenso para a campanha. À noite, ocorreria o primeiro debate dos presidenciáveis de 2014, na TV Bandeirantes, sem a presença de Eymael – a emissora havia excluído do debate os candidatos de partidos sem deputados na Câmara Federal. O PSDC tentava, por meio de uma liminar no Tribunal Superior Eleitoral, garantir a participação de seu candidato. O pedido acabou negado e Eymael, que já foi eleito duas vezes deputado federal (em 1986 e em 1990), fica de fora do programa. Por que não investir no Legislativo, onde tem grandes chances de ser eleito? “Prefiro dedicar-me a uma missão maior”, diz o candidato, que entre uma eleição e outra continua viajando pelo País e participando de eventos. Tudo para se tornar mais conhecido e, assim, atingir o sonho.

Sentada em um banquinho e à espera de Eymael, uma senhora puxa conversa com o repórter da Status. É Neide Morari, maquiadora do candidato há 14 anos. “Essa Marina, hein?”, diz ela, referindo-se a Marina Silva, candidata do PSB à Presidência, que aparece nas pesquisas à frente do tucano Aécio Neves. “É impossível que ela ganhe. Parece um bichinho de goiaba, não tem aspecto de presidente, postura, nada”, diz. “Veja o meu presidente (Eymael). Além de lindo, ele tem classe, anda de forma elegante, tem uma boa voz. E hoje em dia apresentação é tudo, não é?” E Dilma? “Ah, essa nem se fala. Faz o cabelo com aquele cara famoso (Celso Kamura), mas nunca está bonita.”

A reunião com os assessores termina. Eymael precisa maquiar-se rapidamente. O repórter Tonico Ferreira, da TV Globo, já está no estúdio do candidato para gravar duas entrevistas, uma para o Bom Dia Brasil e outra para o Jornal da Globo, ambas com 40 segundos de duração, tempo parecido com o que lhe foi destinado no Jornal Nacional, dias antes. O presidenciável chama sua maquiadora. O repórter vai junto, mas é impedido, de forma elegante, pelo próprio Eymael, de entrar na sala. “Se eu falar com você agora, minha maquiagem não vai ficar boa”, diz. “E preciso ficar bonito, para evitar que você escreva aí que eu fui confundido com o Levi Fidélix (candidato de perfil semelhante ao de Eymael, fundador de um partido pequeno – PRTB – e com pouco tempo de TV)”, brinca, arrancando gargalhadas dos assessores e um certo olhar de repulsa de Neide. “Imagina, doutor, aquele ali tem bigode, é careca, e está longe de ser bonito.” Faltou dizer que o patrão também nunca pensou em construir um aerotrem. De fato, o presidenciável do PSDC não tem, entre suas propostas, um plano exótico como um trem-bala entre Rio e São Paulo. Ao contrário: seu programa de governo é recheado de ideias genéricas, como tornar a Constituição mais “efetiva”, além de defender uma sociedade “livre, justa e solidária”.

Questionado sobre propostas práticas, o candidato fala em reduzir o número de ministérios, mas não diz em quantos, e sugere a criação de duas novas pastas: os ministérios da Segurança e o da Família, este último com responsabilidades semelhantes ao do atual Ministério da Assistência Social.

Enquanto Eymael concentra-se na maquiagem, o repórter decide ouvir o jornalista e publicitário Rubens Pavão, coordenador de sua campanha ao Planalto. Os dois trabalham juntos desde 1984. “Ele não vai desistir nunca de chegar à Presidência”, diz Pavão, explicando que o candidato do PSDC, hoje dedicado integralmente à política, deixou suas duas empresas – a Grunase, derelações públicas, e a imobiliária TerraSul – sob o comando da filha, Maria Teresa Eymael. Casado com a socióloga Isolda Selbach, o candidato a presidente acabou levando o filho, José Carlos Eymael, também para o mundo político: o herdeiro deixou os negócios da família de lado para se candidatar a deputado federal pelo Estado de São Paulo, pelo mesmo partido do pai. Sem nenhum representante no Congresso Nacional, o PSDC conta apenas com nove deputados estaduais eleitos. Os filiados, segundo o comitê de campanha, chegam a 220 mil em todo o País. O número é, no mínimo, curioso, já que Eymael nunca ultrapassou os 200 mil votos nas três eleições em que concorreu. Em 2010, por exemplo, ele recebeu 89.350 votos.

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MILHÕES À FRENTE

Mas, pelo menos em um critério o exdeputado larga na frente: ele é, de longe, o mais rico entre todos os presidenciáveis, com um patrimônio declarado de R$ 5,1 milhões (o candidato tucano, Aécio Neves, vem em segundo lugar, com R$ 2,5 milhões). Apesar da fortuna, Eymael prefere não colocar dinheiro do próprio bolso em suas campanhas. “Não misturo os negócios da família com a política”, diz o candidato, que em 2010 arrecadou R$ 319 mil. A única doação da iniciativa privada veio de uma loja de peças automotivas sediada em São Paulo, que cedeu R$ 750 para o projeto de Eymael. O restante veio todo do partido.

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Eymael (ao lado de Heloísa Helena) durante debate com os candidatos à Presidência, em 2006. Ele ironizou a ausência de Lula, falando com a cadeira vazia.

Eymael, diz o coordenador de campanha, já passou por algumas situações memoráveis. A principal delas, em 2006, quando o candidato dialogou com uma cadeira vazia para protestar contra a ausência de Lula no debate para a Presidência. “Foi incrível, lembra?”, indaga Pavão. Eis que surge Neide, a maquiadora. “Não está lindo o meu presidente?”, diz sobre Eymael, já pronto e devidamente asseado para as duas entrevistas à TV Globo, que seriam realizadas ali mesmo, na produtora. A reportagem da Status propõe um desafio ao democrata cristão. Que no caminho até a sala, ele, tão acostumado a se virar nos 30 – nos 30 segundos –, aceite ser sabatinado com perguntas diretas e objetivas. O combinado é que ele não pense para responder. Eymael topa.

 

– Foi a “providência divina” quem colocou a Marina no segundo lugar nas pesquisas?

– Que Deus perdoe a Marina pelas suas bobagens.

– O senhor já fumou maconha?

– Jamais!

– Nunca ficou “alterado”?

– Gosto de tomar uísque. Mas nunca fiquei bêbado.

– O seu filho é gay?

– Não.

– E se fosse?

– Eu pagaria a festa de casamento dele.

–  Sério?

– Tô brincando, né? Posso ir?

Minutos depois de dar entrevista à TV Globo, Eymael surge no salão da produtora e passa a falar sobre os seus principais hobbies, como pilotar lanchas (ele tem uma de 25 pés) e aviões. “Você sabia que eu e minha mulher, com quem sou casado há 51 anos, fomos o primeiro casal do Brasil a tirar o brevê juntos?”, diz. “Outro dia cometemos uma imprudência: começamos a namorar, cada um no seu avião. Nossas asas quase se chocaram. Tô brincando de novo, né”.

Neide dá o último retoque no democrata cristão. Ele vai começar a gravar mais uma propaganda eleitoral – discorrerá, em 45 segundos, sobre os gargalos na infraestrutura brasileira. No teipe seguinte, com o mesmo tempo, falará sobre política educacional. “Ah, esqueci de dizer. Eu fui goleiro na juventude, num clube amador chamado Avante Futebol Clube”, diz Eymael. “Defendia direitinho, viu, jamais tomaria aqueles sete gols da Alemanha. Jamais”, gaba-se. O duro será evitar mais uma nova goleada nas urnas.

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Ao lado de simpatizantes, nas ruas de São Paulo