RICARDO DARÍN

Representante máximo do cinema portenho, o ator fala sobre o peso de ser considerado o garoto-propaganda de seu país, da admiração de Dilma Rousseff por seu trabalho e da rivalidade entre brasileiros e argentinos

 

Por Elaine Guerini, de Buenos Aires

 

STATUS 41 - ENTREVISTA

 

Bastou Ricardo Darín questionar o crescimento do patrimônio da presidente da Argentina, Cristina Kirchner, para ela responder imediatamente ao ator, em carta pública divulgada nas redes sociais. A própria presidente, fã confessa do ator portenho, reconhecia a estranheza de sua atitude. “Você poderá se perguntar: por que essa mulher, com tudo o que tem para fazer, se dá ao trabalho de me responder?”, dizia ela, na carta postada no início do ano, após ler entrevista na revista Brando, na qual Darín indagava sobre um suposto enriquecimento de Kirchner e de seu antecessor e marido, Néstor Kirchner. Mas a reação da presidente só confirmou a importância de Darín, que há mais de uma década é a cara do cinema argentino. Sucessos como Nove rainhas (2000), O filho da noiva (2001) e O segredo dos seus olhos (vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009) fizeram dele um astro internacional – ainda que Darín, muito modesto, adore posar de tipo comum. Nem do magnetismo que exerce sobre as mulheres Darín gosta de falar. “Sedutor? Quem? Eu?”, desconversou o ator de 57 anos, casado há quase 20 com Florencia Bas, com quem tem dois filhos, Clara e Chino Darín. “Venero as mulheres da minha família”, resumiu. A seguir, os principais trechos da entrevista que Darín concedeu à Status no hotel Intercontinental de Buenos Aires, durante a promoção de Relatos selvagens, filme de abertura desta 38a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – em cartaz no Brasil. Na ocasião, o ator vestia seu “uniforme favorito”: camiseta branca, calça jeans e tênis. “Uso sempre a mesma coisa. Do contrário, sou um desastre para me vestir.”

– Gostando ou não, você é o garoto-propaganda do cinema argentino, não?

– Realmente não gosto disso (risos). Até porque não é justo. Anualmente, fazemos cerca de 100 filmes e eu rodo um por ano. Há ainda uma infinidade de atores e atrizes argentinos de talento. Entendo a função desses rótulos, que caem sobre a pessoa de mais visibilidade, por simplificarem a situação. Mas não posso me sentir responsável pelo cinema argentino. Claro que gosto quando meus filmes são vistos e apreciados. Não só porque é o meu ofício, mas porque eu dependo do êxito de um trabalho para conseguir o próximo. Se o público mundial gosta do cinema argentino, melhor para todos nós. Quando eu gosto de um filme de determinado país, quero ver outro na sequência. Se não me agrada, evito aquela cinematografia por um bom tempo (risos).

– Como se sentiu ao saber que a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, o mencionou no encontro com Cristina Kirchner, em abril, em Buenos Aires, dizendo ser sua fã?

– Foi muito engraçado. Na hora, pensei: Será que é uma piada de Dilma? Uma espécie de sátira? Fiquei na dúvida, já que a visita dela aconteceu pouco tempo depois de uma polêmica criada por uma declaração minha. Um comentário que eu fiz com um jornalista, sobre o patrimônio dos governantes, acabou tomando uma proporção exagerada na mídia, gerando a contestação de Cristina Kirchner. Por conta de uma frase minha, entramos numa espécie de jogo, disputando quem tinha razão. E no meio dessa confusão toda Dilma diz a Cristina que gosta do meu trabalho… (risos).

– Seu personagem em Relatos selvagens é um homem que, inconformado com a burocracia governamental, resolve dar um basta, recorrendo à violência. Foi o aspecto de crítica ao sistema, comum principalmente nos países latino-americanos, que mais o atraiu?

– Foi. Há um sistema perverso nos países da América Latina. Se você não tem contatos ou amigos no poder, toda vez que precisa ser ouvido e fazer uma reclamação, as travas e os obstáculos são tantos que acabamos desistindo. Nós precisamos cumprir nossas obrigações como cidadãos, mas, quando o sistema pisa nos nossos direitos, não temos a quem recorrer.

– Temos a impressão de que o seu personagem explode para não implodir (ele é multado por estacionar o carro em lugar supostamente proibido, apesar de o local não estar sinalizado de forma correta).

– É exatamente isso. Muitas vezes, nós somos humilhados, diminuídos e ignorados quando queríamos ser ouvidos. Nós só não estouramos todas as vezes em que isso acontece por termos educação e bom senso. Deixamos para lá, acreditando que não pagamos um preço por isso. Mas nós pagamos. E muito. Vamos acumulando, acumulando e, um dia, acabamos reagindo da forma mais injusta, no momento menos oportuno e com a pessoa menos indicada.

– E acabamos perdendo a razão…

– Exato. Todos somos vítimas de um sistema que não defende o direito do cidadão. Nos chamados países em desenvolvimento, como Argentina e nossos vizinhos, isso é comum. É uma luta permanente do cidadão brigando pelos seus direitos. Isso já não acontece em muitos países da Europa e nos EUA, onde, por tradição e história, conseguiram chegar a um estatuto que respeita minimamente quem paga os impostos.

– Quando o seu personagem se vinga, a plateia só falta aplaudir a cena no cinema…

– Isso não é assustador? Como um personagem tão sinistro pode ser aquele com o qual nós mais nos identificamos? Mas entendo por que ele se converte em herói coletivo. Apesar de sabermos que é ficção, estamos tão fartos dessas injustiças que, quando alguém perde o controle e busca revanche, nós acionamos aquela válvula de escape. Quem nunca fantasiou em explodir uma repartição pública onde ninguém quer ouvir a nossa reclamação, nos mandando para lá e para cá?

– Acredita que poderia reagir de forma violenta diante de uma injustiça burocrática?

– Gosto de pensar que jamais seria violento. O que mais me instiga no meu personagem é justamente a reflexão que ele propõe. O que pode acontecer quando chegamos ao limite da humilhação, quando não aguentamos mais? Não concordo com a mídia quando ela trata de algum crime aparentemente inexplicável como se ele tivesse vindo do nada. Será que o cara que atirou num pai de família que o fechou no trânsito é simplesmente louco ou ele já vinha sofrendo uma série de humilhações que acabou contribuindo com aquele rompante? Infelizmente, nós temos uma tendência em confundir o comum com o natural. Só porque somos desrespeitados diariamente isso não torna a situação menos grave. Precisamos investigar a parte germinal da violência. Geralmente nós só nos preocupamos quando alguém está sangrando na nossa frente. Mas a humilhação pode fazer a pessoa sangrar por dentro, o que costuma ter consequências.

– Você dá a impressão de ser um cara pessimista…

– Com o mundo do jeito que está, não sou mesmo um homem otimista. Mas tento ser positivo. É melhor do que nada (risos). Se pensarmos bem, é um grande feito nós ainda estarmos aqui, depois de tantos energúmenos que, no passado, destruíram populações inteiras. O homem não sabe mais o que inventar para acabar com o mundo. Ainda assim, eu procuro pensar que as pessoas, em sua maioria, são de bem. É como pensarmos numa grande favela. Eu já conheci uma delas de perto, quando rodei Elefante branco, em 2012. Pela minha experiência de três meses de filmagens lá, posso dizer que 99% da gente que vive na favela é do bem. Apesar de essas pessoas serem estigmatizadas, elas são decentes. Trabalham e criam seus filhos para que sejam pessoas honestas também. Só que ao mesmo tempo elas pagam o pato pelo 1% de imbecis que vivem lá e fazem as cagadas.

– Prefere fazer filmes sociais na Argentina a tentar carreira em Hollywood, onde os personagens costumam ser mais pasteurizados?

– Sim. Sou fiel a mim mesmo. Prefiro atuar no meu idioma. Como ator, preciso pensar e fazer isso em inglês seria mais difícil. Já recebi propostas de Hollywood e recusei (como um papel no filme de Tony Scott, Chamas da vingança, de 2004, ao lado de Denzel Washington). Por que eu interpretaria um traficante mexicano numa produção americana? O que há de interessante nisso? Filmar qualquer coisa em Hollywood não me interessa. Por que assumimos que o sonho de todo ator é ir para Hollywood? Por que todo jogador precisa ter como meta ser contratado por equipe da Europa ou dos EUA? Por que todo artista precisa expor na Europa? Não entendo essa mania de achar que o melhor é o que está longe.

– E o que acha da rivalidade entre brasileiros e argentinos ultrapassando o futebol?

É um absurdo. Em vez de nós nos identificarmos mais com os brasileiros e com outras nacionalidades vizinhas, pelo nosso jeito mais aberto e caloroso, os argentinos buscam traços comuns com os franceses. De onde vem isso? Acho que ninguém sabe. Mas ainda bem que a competição entre Argentina e Brasil é mais no futebol mesmo. Seria triste se isso contaminasse toda a nossa relação. Eu adoro o Brasil.

– O que achou da Copa do Mundo?

– Não gostei. Eu queria ter visto Brasil e Argentina na final. Até porque, com a vulnerabilidade que o Brasil demonstrou em seus jogos, a Argentina teria sido campeã (risos). Mas juro que fiquei triste quando o Brasil perdeu de 7 a 1 diante da Alemanha. Sobretudo pela forma como perdeu… Foi uma pena. Queria ter visto Messi e Neymar se enfrentarem na final de uma Copa do Mundo no Maracanã. Teria sido a glória para a América do Sul.

– Nos últimos anos, o cinema argentino ganha mais atenção internacionalmente que o brasileiro. O próprio Relatos selvagens foi um dos concorrentes à Palma de Ouro de Cannes este ano – quando o Brasil não teve nenhum filme selecionado na mostra competitiva.

– Não cabe a mim comparar os dois cinemas. Só posso dizer que temos uma fantástica safra de diretores que conseguiram revitalizar o cinema nacional. São eles Juan José Campanella, Pablo Trapero, Marcelo Piñeyro, Daniel Burman, Fabiàn Bielinsky e Damián Szifrón, entre outros. Esses cineastas conseguiram lançar um novo olhar sobre a história da Argentina, que amargou uma ditadura até 1983. Naturalmente muitos dos filmes realizados logo após esse período trataram da ditadura por uma questão de necessidade. O que aconteceu foi que a leva nova de diretores se beneficiou de um distanciamento, encontrando muito mais liberdade para abordar o período histórico e outros temas. O tempo passou e as coisas mudaram, o que permitiu que os novos talentos passassem a pensar em histórias mais originais.

– O que seria, se não fosse ator?

– Não tenho ideia. Acho que nada. Isso é tudo o que sei fazer.

– Como é o assédio na Argentina? Se incomoda quando as pessoas param você na rua?

– Não me incomodo. Até porque não é nada tão ostensivo. Mas já vi coisas estranhas acontecerem. Outro dia um motociclista bateu num ônibus na frente da minha casa (Darín mora no bairro de Palermo, um dos mais descolados da cidade). Ao ouvir o barulho e ver a movimentação de pessoas, fui ver o que estava acontecendo e perguntar se eu podia ajudar de alguma forma. Felizmente, não foi nada grave, já que o garoto de uns 18 anos estava usando capacete. Quando eu me aproximei do rapaz, que estava deitado no chão, à espera da ambulância, perguntei se ele estava bem. Como ele estava um pouco grogue com a batida, ficou me olhando por alguns segundos. E logo perguntou: “Darín? Você é o Darín”? Quando eu fiz que sim com a cabeça, ele falou: “Você me dá o seu telefone”? Eu pensei: O que é isso? Do que esse cara está falando? Como ele pode pensar nisso numa hora dessas? (risos).