PERDÃO ONLINE

Com mais de um milhão de acessos por mês, a XXXChurch se tornou a igreja mais procurada por quem se considera viciado em pornografia. Entenda como ela funciona, conheça os seus pregadores  e descubra se você precisa de tal redenção

 

Por Jr. Bellé 

 

STATUS 41 - TOP SECRET

 

Já fui viciado em cigarros, erva-mate, romances policiais, café, água tônica diet, peitos grandes, chá preto, rapé, a trilogia De volta para o futuro, poesia erótica, a quarta temporada de Seinfield, pinhão, Pro- Evolution Soccer, punheta, Penélope Cruz, cerveja, Pornhub, Redtube, gibis da Turma da Mônica, bundas e Legião Urbana. Jamais traí meus vícios. Agora, mais do que nunca, em nome da honra de um viciado, preciso perseverar: descobri que sou viciado em sexo.

Ao menos é o que diz o teste criado pelo americano Patrick Carnes, que não é propriamente um médico ou psicólogo, mas esbanja um Ph.D. em Conselho Educacional e Desenvolvimento Organizacional pela Universidade de Minnesota (EUA). Seu papo é tão sério que se materializou no Instituto Internacional dos Profissionais para Trauma e Vício e na clínica Gentle Path, onde o golfista Tiger Woods se tratou, em 2009, após seu envolvimento em um escândalo sexual. Em 1989, Carnes criou a primeira versão do teste que supostamente é capaz de diagnosticar o vício em sexo e/ou pornografia. Sua versão mais moderninha, a qual me submeti, é usada pela XXXChurch, uma espécie de congregação salvadora de almas promíscuas como a minha, e provavelmente como a sua. Trata-se de uma Igreja única, especialmente pelo fato de ser apenas um site, muito ligado às ideologias e crenças da Igreja Católica. A diferença é que suas funções mais interessantes assemelham-se às de uma rede social cujo propósito maior é ajudar qualquer pessoa que sofra com problemas relacionados ao sexo e à pornografia. Na visão cristã deles, que entendem excesso de pornografia como vício, quem precisa de ajuda é aquele que gasta muito dinheiro e tempo em sites pornôs, que diminui sua frequência social por causa disso, que se sente mal por masturbar- se, entre outras questões morais.

O maior mérito da XXXChurch, fundada em 2002, é romper as instâncias virtuais e acessar pessoas diretamente, com uma linguagem moderna e um discurso de tolerância. Na internet, eles produzem farto material didático em vídeo, inclusive workshops online que podem ser vistos em formas de “cursos”, por exemplo, para conseguir ficar 30 dias sem assistir a pornografia, ou à série Craig’s car ride, em que o criador da Igreja, Craig Gross, conversa por telefone com “fiéis” enquanto dirige. Outro exemplo são os Xgroups, quatro a cinco grupos que se reúnem diariamente e virtualmente em salas de bate-papo para apoio mútuo, no mesmo esquema presencial dos “Alcoólicos Anônimos”, cada um com um tema diferente e uma média de 12 pessoas. O mediador gerencia a ordem dos faltantes, também inclui leituras e propõe reflexões que, em geral, trazem trechos da Bíblia. Além do mais, o site funciona como uma espécie de rede social primária na qual há troca de mensagens, é possível enviar “confissões” com a opção de abrir para comentários, pedir aconselhamento e há até um “hatemail” para expor as dificuldades relativas às relações entre os membros.

Fora da internet, a XXXChurch funciona como uma organizadora de projetos com cunho religioso, como eventos em igrejas locais em que ministros da Igreja virtual são convidados por congregações ao redor dos Estados Unidos para dar palestras para os jovens. E há, claro, uma presença forte deles em eventos de sexo, especialmente feiras, onde eles montam estande e interagem com quem estiver por lá, distribuindo Bíblias e cartazes e expondo vídeos. Como todo o material é bem moderninho e tem uma linguagem bastante atual, eles têm uma abertura significativa nesses ambientes – fora a tolerância e a aproximação respeitosa que o pessoal da XXXChurch parece levar como estandarte. Além disso, há ações mais concretas como a Strip Church, que foca seu compromisso social em ajudar pessoas que trabalham ou trabalharam em clubes de strip-tease.

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Sexólatra

Após responder as 45 perguntas do teste moderninho da Igreja para detectar se sou mesmo viciado em sexo – algumas como: você sente que seu comportamento sexual não é normal? Ou o sexo se tornou a coisa mais importante na sua vida? –, recebi o veredito: “Nós comparamos suas respostas com as de pessoas diagnosticadas como viciadas em sexo. Suas respostas alcançaram uma pontuação baseada em seis critérios que indicam que o vício em sexo está presente. Há certas subescalas para confirmar que seu problema existe. O seguinte padrão emergiu de suas respostas: seu perfil é de um homem que luta contra seu comportamento sexual compulsivo”. Por algum motivo que, suponho, apenas os compulsivos e sexólatras – com o perdão do neologismo – compreenderiam, me senti profundamente honrado com o diagnóstico. Contudo, por via das dúvidas, achei por bem procurar redenção na fé.

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Segundos depois de ler meu diagnóstico virtual, e antes mesmo do vídeo da Sasha Grey terminar de carregar, recebi um e-mail automático de Craig Gross, homem que em 2002 criou a XXXChurch: “Estou tão feliz que você decidiu fazer o teste! Sabe por quê? Porque você passou! Espere… Eu sei o que você está pensando. O quê? Passei no quê? E por que você ficaria feliz com isso? Estou feliz porque você acabou de dar o primeiro e grande passo. Muitas pessoas que lutam contra o vício em sexo ou pornografia nunca se preocuparam em saber se elas têm algum problema. Seja qual for o resultado, o fato é que você reconheceu que pode ter algum transtorno e que precisa lidar com ele… e isso é animador! Há uma coisa que você precisa saber: você não está sozinho nessa”. O e-mail termina com um alerta: nos próximos 30, sim, 30 dias receberei outros e-mails como esse, cujo conteúdo virá recheado de programas de auxilio por preços módicos (a partir de US$ 1,99), quando não gratuitos. De quebra, já neste primeiro contato, me presenteou com um e-book de sua autoria, cuja leitura, reforça, é altamente recomendada para compulsivos como eu, e que leva o sugestivo título de Olhos da integridade – a pandemia do pornô e como isso afeta você.

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Coroinhas hackers

Posso ser uma alma errante, mas jamais estarei solitário nessas curvas transviadas. Não fui o único que virou as costas para o casticismo e abraçou esse mundo marginal. O site da XXXChurch recebe uma média de um milhão de visitas por mês. Mas não há um cálculo real do número de fiéis que seguem a Igreja. O certo é que muitos acabam ficando e engajando-se em algum programa de apoio. O estudante Nick Viterallo, 21 anos, de Seattle, é um deles. Ele é profundamente cristão e começou a se sentir afetado pela pornografia quando estava quase completando 16 anos. “Por conta da pornografia, me masturbava constantemente, cada vez mais e mais, o que agravava meu conflito interno”, diz ele, que não vê na masturbação um ato são. Para tentar impor a si mesmo limites, ele baixou o aplicativo da XXXChurch, o X3Watch. Desenvolvida por coroinhas hackers nos confessionários cibernéticos da Igreja, a versão gratuita do aplicativo para computadores, celulares e tablets é capaz de monitorar seus passos e muitos endereços relacionados à pornografia, ao mesmo tempo que avalia, em tempo real, os conteúdos que você anda acessando. Na versão premium, ao custo de US$ 6,99 por mês, oferece outras 13 funções, entre elas o bloqueio de qualquer site mais assanhado. “Ele funciona muito bem e foi realmente importante para mim durante o colégio, quando decidi largar a pornografia. Confesso que fiquei muito feliz quando conheci as pessoas por trás do aplicativo e, de certa forma, comecei a trabalhar com elas.”

Isso aconteceu há pouco. Nick é declamador conhecido na comunidade cristã de Seattle. Seu talento em interpretar versos religiosos e cheios de fé, como a poesia que escreve e grita nas abadias ao redor do país, o agraciou com convites cada vez mais frequentes para apresentações em igrejas e em outros eventos devotos. As pessoas gostavam de vê-lo falando de Jesus num beat imaginário de hip-hop. Aos poucos, esse se tornou o trabalho artístico de Nick. “Um amigo chamado Jeff estava ajudando a organizar um evento da XXXChurch por aqui, ele ia declamar, mas teve um contratempo. Então me chamou para cobri-lo. Naquela noite, Craig Gross estava lá e me viu pela primeira vez no palco. No fim, ele disse: ‘Cara, vamos fazer um vídeo disso’. Minha poesia me aproximou definitivamente deles.”

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Mas Nick alerta que a Igreja de Gross não está habilitada para operar milagres. “Isso não acontece do dia para a noite. É um caminho. O meu começou na décima série do colégio e eu só consegui parar com a pornografia no primeiro ano de faculdade”, diz ele, que garante, no entanto, que a decisão de permanecer a uma distância segura das mais sedutoras pornstars não afetou sua vida social, sua relação com os amigos. “Eles me entendem e não tenho apenas amigos cristãos, tenho todo tipo de amigos. Tem aqueles que acreditam que pornografia não é errado, tenho amigos que, na verdade, querem fazer parte da indústria da pornografia. Por mim, tudo bem. Eles são meus amigos, escutaram minha história e a respeitam como respeitam a mim, mas no final do dia a gente não precisa, necessariamente, concordar sobre tudo.”

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Andrea Perun, 29 anos, concorda em gênero e número com Nick. Ela nasceu na Coreia do Sul e ainda bebê foi adotada por um casal de Seattle, onde se casou, vive até hoje e de onde nunca pretende sair. Andrea trabalhou durante anos no bar de um clube de strip no centro da cidade. Suas amigas eram e muitas ainda são stripers. De vez em quando, ela até fazia seus números e não via nada de errado em fazer pole dance, mesmo sendo católica convicta e praticante. Mas sua rotina foi abruptamente chacoalhada cinco anos atrás. Andrea estava na igreja que frequentava no dia em que, por sorte, sincronicidade ou providência divina, Craig Gross escalou o presbitério com seu cabelo aplumado, suas pernas finas, seu olhar galante, aquelas palavras aconchegantes e devidamente achegadas aos termos do momento, cheirando à linguagem jovem num encadear envolvente das mais sedutoras crenças. “Quando o vi soube que aquele era o tipo de sacerdócio que eu queria para mim. Logo depois embarquei em uma ‘Mission Trip’ e a XXXChurch se tornou minha igreja”, diz ela.

Como Andrea havia trabalhado em um clube de strip, ela se tornou coordenadora do Strip Church, um braço da Igreja que constrói boas relações com pessoas que trabalham dentro de clubes de strip. A função dos pastores da Strip é “dar um alô e mostrar que eles existem e podem ajudar quem quiser sair dessa vida”. Há aqueles que ajudam a conseguir um novo emprego, caso a pessoa precise, os que dão abrigo por um tempo, os que dão suporte psicológico e ajudam na aproximação com a igreja local. Há casos em que os cordeiros de Deus colocam os sofredores em contato com grupos de apoio. “Ou eles simplesmente os convidam pra beber um café e conversar”, explica Andrea. A estratégia do projeto em que está pessoalmente envolvida é simples e doce: dirigir-se três vezes por mês a sete diferentes clubes levando panfletos e guloseimas. “Levamos cupcakes e coisas assim para as garotas. Normalmente apenas deixamos  os pacotes no camarim junto com alguns cartões e as cumprimentamos rapidamente. Respeitamos o fato de elas estarem em horário de trabalho.” Andrea jura que as garotas sempre agradecem a visita, que a maioria entende e muitas admiram a iniciativa. “Quando entramos no clube, as que estão no palco até gritam para nos cumprimentar. Essas garotas são nossas amigas e ficamos felizes quando nos vemos.” Segundo a XXXChurch, Jesus sempre esteve entre os excluídos, as minorias, os pobres, as prostitutas e os doentes, e é exatamente aí que eles querem estar. Por isso não veem problema algum em estar entre pessoas da indústria da pornografia nas feiras ou em ir até os clubes de strip, pois é entre estas pessoas que Jesus estaria caso fosse nosso contemporâneo. Eles acham errado a pornografia, mas não julgam quem não acha, ou ao menos explicitam isso em seus discursos de tolerância.

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Nenhum dos adeptos da igreja se aliena de sua vida social. Todos eles continuam a sair com o mesmo círculo de amigos que tinham antes

Fantasia hardcore

Carl Thomas, 43 anos, é o diretor do programa Xgroups, além de gerente do site e pastor. Antes ele era vendedor de seguros em New Jersey. Apesar de vir de uma família tradicional no ramo, passava por tempos sombrios, estava desempregado e detestava seu antigo trabalho. “É nesses momentos que precisamos decidir pela mudança”, diz Thomas. Ele é casado, tem dois filhos e já participava das atividades da XXXChurch como voluntário há mais de um ano. “Eu estava fazendo uns bicos, entre eles organizando alguns contratos da XXXChurch. Um dia eles me chamaram para um papo e perguntaram o que eu achava de ser contratado em tempo integral. Bem, aqui estou eu atualmente.”

À medida que Thomas se aproximava profissionalmente da Igreja, começou a flagrar-se como um viciado em pornografia. “Bem, eu sou homem e sabe como é, fui viciado em pornografia por muitos anos, por isso posso dizer que tenho muita familiaridade com esse mundo do vício. Eu sei que há gente que irá dizer que pornografia não é um tema relevante, mas o fato é que ela vende fantasias”, diz ele. “Quem possui o vício, em geral, já assiste a cenas de hardcore, gangbangs e esse tipo de coisa. Mas o fato é que a maioria começou vendo coisas leves, softporns. É assim que tudo começa. Por sorte, nunca cheguei a coisas tão fortes, pedofilia ou coisas bizarras. Mas cheguei num ponto em que eu estava assistindo aquilo diariamente por horas”, confessaThomas.

Qualquer moleque ou menina com alguma imaginação e sensibilidade entre as pernas já se aventurou pelas prateleiras proibidas das locadoras e bancas, pelos links piratas, pelos sites e comunidades de putaria, já se atreveu a tatear os buracos, a tocar nos lugares certos e assim mapear a cartografia dos próprios desejos e das inesperadas taras. Mas Thomas não acredita que essa curiosidade pelo corpo e pela sexualidade seja mera coincidência hormonal. Ele sustenta os números usados pela XXXChurch e reafirma que 90% dos adolescentes frequentam sites pornôs regularmente, e a maioria tomou contato com a pornografia com apenas 11 anos de idade. O perigo maior, nesse caso, é que a primeira relação sexual acontece, geralmente, aos 17 anos, o que dá mais de meia década de lambuja para as tais fantasias criarem expectativas irreais e mortalmente frustrantes para as futuras relações amorosas.

Viciado funcional

No terceiro e último e-mail automático que recebi de Craig, ele me perguntou: “Junior… Você realmente acredita que é possível viver sem pornografia? Eu sinceramente acredito que sim. Sei disso. Por quê? Porque tenho visto incontáveis pessoas saindo do vício e indo para a liberdade nos últimos anos. Contudo, vencer exige esforço, comprometimento e sacrifício”.

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O fundador da igreja, Craig Gross, com um ícone da indústria pornográfica, o ator Ron Jeremy

Aproveitei a oportunidade de conversar diretamente com um pastor da XXXChurch, fui em busca de aconselhamento para entender meu caso e perguntei a Thomas que tipos de sacrifícios seriam esses. “Não existe um manual sobre o que você precisa fazer. É claro que não existe meio termo: ou você é ou não é um viciado. Alguns são compulsivos, mas ainda não são viciados. Digamos que você é um ‘viciado funcional em pornografia’”, explicou, antes que eu pudesse confessar a religiosa regularidade com que exercito meu vício, o que fiz logo em seguida. “Sua vida não está se degradando, está tudo razoavelmente controlado. Até onde eu saiba você não está envolvido em prostituição nem nada disso. Você é apenas ‘funcional’. Fique tranquilo e, se precisar, conte com os programas da XXXChurch.com.” Paraíso, aí vou eu. Amém!

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