OLHAR APURADO

Ele chocou com o Clube da luta, encantou com o curioso caso de Benjamin Button e faz sucesso com a série de tv House of Cards. Agora, o cineasta David Fincher brilha com Garota Exemplar. Status passou uma tarde com ele e conta todos os seus planos

 

Por Eduardo Graça, de São Francisco

 

STATUS 41 - PERFIL

Akira Kurosawa, George Lucas, entre outros ícones do cinema. A primeira constatação do encontro de Status com David Fincher, o diretor de Clube da luta, em seu local de trabalho, é o volume de sobrenomes ilustres que o rodeiam. O maestro de 52 anos, batizado pelo New York Times como “o lorde sombrio do cinema”, se apresenta rapidamente e deixa o jornalista só, em uma das salas de mixagem de seu mais novo longa-metragem, “Garota Exemplar”, baseado no best-seller de Gillian Flynn, este mês nos cinemas brasileiros. Quando vê o livro em sua versão capa dura ao lado do gravador, repleto de marcas a lápis, sentencia, imperial: “Se sua ideia era reler o livro por conta do filme, esqueça. Pode guardar”. E sai às pressas, de volta à sala Kurosawa, onde comanda a equipe responsável pelos efeitos sonoros finais do filme estrelado por Ben Affleck, com Rosamund Pike e Neil Patrick Harris no elenco. Em pouco mais de 40 minutos algumas das cenas pré-finalizadas se sucedem na tela improvisada no gigantesco rancho de George Lucas, localizado nas imediações de São Francisco. À cabeça, inevitavelmente, vem a frase de Robert Downey Jr. sobre o ambiente no set de Zodíaco, um dos melhores e mais injustiçados trabalhos de Fincher: “Era tal qual um gulag”. Pois o diretor famoso pelo perfeccionismo e a repetição infinita de takes reaparece sorridente, o cabelo com mechas negras e grisalhas cortado bem curto, cavanhaque ligeiramente mais alvo, calça jeans e camisa social, munido de democrática questão: “E então, vamos começar por onde?” Garota exemplar foi o maior sucesso de Gillian Flynn, uma jornalista especializada em televisão. Demitida pela semanal Entertainment Weekly, ela resolveu investir na literatura. Depois de dois livros bem recebidos pelo público, estourou com a história da debacle do casamento de Amy e Nick Dunne (vividos no filme por Pike e Affleck). O livro foi parar no topo da lista dos mais vendidos do The New York Times, onde ficou por 11 semanas. Com 40 edições e seis milhões de cópias vendidas mundo afora, Garota exemplar  teve seus direitos comprados para o cinema por Reese Whiterspoon, que, por sua vez, atrelou a produção à Fox. O estúdio não viu outro diretor além de David Fincher para filmar a trama de mistério, que confunde propositadamente o leitor/espectador, a partir do desaparecimento de Amy e o circo de horrores da imprensa, certa da culpa de Nick em um possível assassinato.

A escolha é compreensível. Nascido em 1962, em Denver, Colorado, e criado em um subúrbio de São Francisco, não muito distante do rancho de Lucas, Fincher é um dos poucos auteurs do cinema americano contemporâneo. Filho de um jornalista e de uma enfermeira, sua paixão pelo cinema se estendeu, ainda na adolescência, a experimentações com câmeras Super 8. Já em Los Angeles, se notabilizaria nos anos 80 na direção de vídeos musicais. Entre outros, dirigiu clipes de Madonna (Express tourself e Vogue), Sting (Englishman in New York), Michael Jackson (Who is it?) e George Michael (Freedom’90). “Aquele foi um momento único em que você tinha as gravadoras e a MTV interessadas em despejar dinheiro, dando liberdade criativa total para os artistas. Isso nunca aconteceu anteriormente no mundo do entretenimento americano com aquela dimensão e, aposto, não se repetirá jamais”, diz Fincher. Entre seus pares à época, destacam-se nomes que iriam assinar, nos anos seguintes, marcos do audiovisual ianque, como Spike Jonze (Quero ser John Malkovitch), Michel Gondry (Brilho eterno de uma mente sem lembranças), Anthony Fuqua (Dia de treinamento) e  Michael Bay (Transformers).

STATUS 41 - PERFIL

 

ALTA DOSE DE VIOLÊNCIA

Divorciado, pai da filha única Phelix, 20 anos, Fincher é, dos cinco colegas de geração, o mais reservado. É também, da escalação acima, o mais reconhecido pela paixão por tramas que requerem alta dose de violência e atenção total do espectador. Nada é exatamente o que parece ser em seus filmes. Pense na cena da cabeça de Tracy, personagem de Gwyneth Paltrow, no primeiro sucesso absoluto de público e crítica de Fincher, Seven: os sete crimes capitais, de 1995. Ou nos embates sanguinolentos entre o Tyler, de Edward Norton, e o narrador vivido por Brad Pitt em Clube da luta. Em um exemplo mais recente, o assassinato, na plataforma do metrô, da jornalista Zoe Barnes pelo maquiavélico político Francis Underwood da série-sucesso do NetFlix House of cards.

Garota exemplar não foge à regra, em seus registros de sangue e dor, feitos com a crueza e precisão cirúrgica características do diretor. “É uma armadilha se apaixonar por aquilo que você vai filmar. Especialmente a paixão fotográfica. Se algo é feio, deve ser mostrado feio. Não é um comercial da Pepsi, você precisa apresentar as pessoas, os personagens, como eles são de fato. Não olhei essa história de fora. Quis que o espectador acompanhasse o Nick, caminhasse ao lado de um homem em via de perder tudo, por conta de um deslize”, diz.

Ele também quis que o público seguisse os passos de Amy Dunne sem estabelecer correlação imediata com o imenso repertório de personagens criados por Whiterspoon, vencedora do Oscar ao encarnar a companheira do músico country e um dos pioneiros do rock Johnny Cash na cinebio Johnny & June. Em busca de efeito similiar ao da escolha da então desconhecida Rooney Mara para viver sua Lisbeth Salander na adaptação do primeiro tomo do best-seller Milênio, de Stieg Larsson, Os homens que não amavam as mulheres, Fincher convocou para o papel a britânica Rosamund Pike e convenceu Whiterspoon a aparecer nos créditos como uma das produtoras associadas. Detalhes do arranjo ele não revela. “Queria que as pessoas, ao se depararem com Rosamund, reagissem assim: ‘em que filme eu a vi anteriormente?’ Era importante que o espectador não tivesse uma opinião formada sobre a atriz, pois o personagem é, acima de tudo, opaco. Quem, afinal, é esta Amy, ou esta Rosamund?”

A escolha, de acordo com a crítica, foi mais do que acertada. O filme, que abriu o Festival de Cinema de Nova York, foi especialmente celebrado pelo acerto na escalação do elenco. Indicado ao Oscar por A rede social e O curioso caso de Benjamin Button, dois filmes cujos diálogos e interpretações são tão centrais para o resultado final quanto as sequências de imagens e o ritmo imposto pelo diretor, Fincher diz que, em Garota exemplar, seu foco é a relação, mostrada desde o primeiro encontro, dos personagens de Affleck e Pike. Amy desapareceu mesmo? Foi assassinada? Quem é o misterioso Desi Collings, encarnado por Neil Patrick Harris? Em Garota exemplar, cada novo personagem parece esconder, propositadamente, quem de fato é. Nick mantém segredos para escapar da rotina. Amy se revela muito menos inofensiva do que em uma primeira impressão. Desi se equilibra entre a obsessão e a dedicação a Amy. Um prato cheio para Fincher. No filme, cujo roteiro é assinado pela própria Gillian Flynn, um dos vilões mais óbvios é a mídia, especialmente os programas televisivos estilo mundo cão, dedicados a criar culpados e vítimas nos canais de notícia 24 horas. O calvário de Nick se dá à frente das câmeras, com apresentadores apressados o apontando como o novo ‘inimigo número 1 da América’.

SEM MODISMO

Fincher diz ser incapaz de fazer os filmes da moda, seja de super-heróis ou franquias repletas de efeitos especiais como o Transformers, de Bay. Que jamais conseguiria seguir a orientação de executivos para repetir pelo menos três vezes a mesma mensagem a fim de garantir o entendimento da plateia, cada vez mais dispersa. “Não acredito nesse tipo de cinema. O que me interessa são as histórias contadas à beira da fogueira. Hollywood, no entanto, parece mais interessada no quão alta é a fogueira, nos cachorros- quentes que vamos fazer nela. Já mostrei alguns de meus filmes para plateias selecionadas pelos estúdios e no final as pessoas perguntavam: ‘o que fulano disse mesmo naquele momento?’. O que eu posso dizer? Minha gente, isso não é televisão, você não está na sua sala!”

O repórter se apressa em apontar, delicadamente, uma possível contradição. Afinal, Fincher é o maestro de House of cards, série do Netflix que gira em torno das tramoias políticas em Washington, protagonizadas pelo casal Francis e Carrie Underwood, vividos por Kevin Spacey e Robin Wright. “Meu foco recente em televisão vem de minha percepção de não haver mais espaço no cinema, com raras exceções, para filmes centrados no estudo de personagens”, diz. E prossegue. “Este é o meu interesse, daí a vontade de fazer algo em parceria com meu amigo Spacey na TV, a semente de House of cards.” O diretor abre um sorriso para lembrar que, em projetos futuros, no cinema ou na tevê, seu guia é cada vez menos a bilheteria e mais o desejo de criar obras parelhas às que marcaram sua adolescência. Todos os homens do presidente, Muito além do jardim, All that jazz – o espetáculo vai começar, esse é o cinema americano que gosto, centrado em temas adultos. Você pode resumir o conjunto de minha obra como uma homenagem a esses filmes, ou com o desejo de fazer coisas tão boas quanto essas. Quando jovem, sempre quis entrar no mundo mais complexo de meus pais. Veja bem, é claro que gostei de Guerra nas estrelas, mas não fui uma criança louca por tudo o que tinha espada de laser”, diz, antes de voltar para a sala de mixagem a fim de botar um ponto final em sua Garota exemplar.