O SENHOR DO TEMPO

Richard Linklater é, como ele mesmo diz, obcecado pela passagem do tempo

 

Por Elaine Guerini, de Los Angeles

 

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Seus filmes refletem o compasso do relógio, tanto na temática quanto na estrutura narrativa – como na trilogia iniciada com Antes do amanhecer. Em Boyhood – da infância à juventude, o diretor leva a preocupação às últimas consequências, registrando a vida de um menino dos 6 aos 18 anos. Não há necessariamente uma trama, já que a câmera segue os passos do mesmo ator (Ellar Coltrane), enquanto ele cresce diante do público e enfrenta os problemas típicos do amadurecimento. O resultado é um filme delicado e, ao mesmo tempo, poderoso, ressaltando a beleza da vida só com seus acontecimentos triviais.

– De onde vem a sua fixação pelo tempo?

– Cinema e tempo são a mesma coisa para mim, já que o tempo é o bloco de construção do filme. É brincando com ele que você manipula a plateia, fazendo a história ir para a frente ou para trás. Por mais abstrato que seja, é ele quem dá estrutura e forma à trama.

– Isolados, os momentos na vida do garoto parecem banais. Mas eles ganham força e profundidade no conjunto. Sempre soube que o efeito cumulativo funcionaria?

– Só torci para que desse certo. Queria um filme que, mesmo sem eventos grandiosos, mostrasse como as decisões do cotidiano traçam a nossa história. Essa janela de 12 anos dá essa dimensão, sobretudo por coincidir com os anos de formação do menino.

– Pela sua reputação, sente-se pressionado a encontrar sempre projetos originais?

– Penso primeiro na história que quero contar e deixo o formato se impor. Não sou tão doido a ponto de buscar ideias impraticáveis o tempo todo (risos). Mas é verdade que as melhores descobertas surgem durante as dificuldades.

– Teve medo que alguém copiasse a sua ideia? – Sim. Procurei guardar segredo. Mas ficava preocupado quando ouvia falar de projetos similares, como o de Michael Winterbottom (Todos os dias, registrando cinco anos). Eu tinha pesadelos, achando que alguém rodaria um filme em oito ou dez anos só pelo prazer de sair à frente.

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Os atores Ellar Coltrane e Ethan Hawke quando as filmagens foram iniciadas.

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Na foto, 12 anos depois, quando foram finalizadas

 

As várias faces de Jennifer Aniston

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Jennifer Aniston sabe que nunca se livrará totalmente da imagem da adorável Rachel, de Friends. “Mas isso não me impede de sair da minha zona de conforto”, diz à Status a atriz, decidida a se aventurar por personagens menos óbvias. Em Sem direito a resgate (este mês em cartaz), a loira encarna esposa ignorada pelo marido – ele nem dá a mínima quando ela é sequestrada. Em Cake, exibido no Festival de Toronto, Jennifer vai mais longe, vivendo mulher que sofre de dor crônica após quase morrer em acidente de carro. Para mostrar as cicatrizes no rosto da personagem, a atriz abandonou a maquiagem tradicional. “Foi libertador não precisar ficar bonita. É duro lidar com essa expectativa, até quando vamos ao supermercado.”

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Parceiro de Scorsese

Como Rodrigo Teixeira se tornou o produtor brasileiro mais bem-sucedido de Hollywood

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Não deve ser fácil impressionar Martin Scorsese. Mas foi exatamente o que o produtor Rodrigo Teixeira fez quando conheceu o cineasta de Touro indomável e Os bons companheiros, em sua casa, em Nova York. Por ter gostado de Frances Ha, filme de Noah Baumbach produzido por Teixeira nos EUA, Scorsese recebeu o carioca radicado em São Paulo para discutir parceria na realização de cinco filmes de baixo orçamento concebidos por jovens diretores. “Como Scorsese ama cinema, ele testou o meu conhecimento o tempo todo, perguntando sobre Jean Renoir e Glauber Rocha”, contou Teixeira, de 37 anos, hoje o produtor brasileiro mais bem-sucedido em Hollywood. Além da coprodução em andamento com Scorsese (os primeiros projetos serão anunciados nas próximas semanas), Teixeira assina os novos trabalhos de Gaspar Noé, Noah Baumbach e James Gray e desenvolve mais parcerias com a produtora de Brad Pitt. E como ele dá conta de tantos projetos ao mesmo tempo, incluindo filmes brasileiros, como Tim Maia? “Já estou acostumado. Minha cabeça nunca para”, disse ele, rindo.

 

Big Hero

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De olho no forte mercado do Japão, a Disney lança seu primeiro herói nipônico, prestando homenagem aos tradicionais mangás de ficção científica. Num cenário futurista chamado San Fransokyo (cruzamento entre San Francisco e Tóquio), o jovem Hiro Hamada e seu robô Baymax reúnem grupo de nerds para combater o crime nas ruas. Depois da apropriada première mundial na 27a edição do Festival Internacional de Cinema de Tóquio, Operação Big Hero chegará às salas brasileiras em 25 de dezembro.

 

Estreias do mês

1. dois dias, uma noite
Só a dupla Jean-Pierre e Luc Dardenne para imaginar a bela Marion Cotillard como operária suburbana. Mas vale a pena ver a francesa desglamourizada nessa crônica social que incita a solidariedade no trabalho, independentemente da crise econômica europeia.

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2. tim maia
Mauro Lima evoca a irreverência e a rebeldia do cantor, revivendo importantes passagens de sua vida – desde a adolescência pobre na Tijuca até os grandes hits musicais. Nos peque-nos detalhes, Robson Nunes (jovem) e Babu Santana (adulto) lembram o músico que deixou saudade.

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3. uma longa viagem
Drama histórico sobre traumas deixados pela Segunda Guerra. Nicole Kidman interpreta esposa que tenta ajudar o marido (Colin Firth) a superar seus fantasmas, enfrentando o seu torturador. Cinquenta anos depois, talvez a vingança não seja a saída.

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