GOZAI EM PAZ

Não acredito que o meu velho conhecido vai declarar agora sua condição de necrófilo. E justo pra mim, que não o vejo há tanto tempo

 

Por Reinaldo Moraes

 

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Outro dia, fui a um enterro de alguém que morreu. Bom, por sorte morreu antes que o enterrassem, como reza meu incorrigível piadismo ginasiano. Por falar em piada, não faltaram piadistas sussurrantes durante o velório, ao qual compareci de manhã, antes do enterro marcado pras 11 horas. Nenhuma das piadas que ouvi, porém, chegou aos pés de uma historieta autobiográfica narrada por um sujeito que eu não encontrava fazia muitos anos. Formou-se advogado e chegou a juiz federal, cargo do qual acabou de se aposentar há pouco tempo, conforme me contou lá no velório. Aquele fantasma vivo do meu passado me puxou prum canto da morgue, junto a um janelão aberto pruma manhã de sol coalhada de trânsito e rumores de obras variadas, ambos segurando copinhos de plástico com um café até que razoável pros padrões funéreos das morgues que, vez por outra, sou levado pelo inexorável destino a visitar.

“Vou te confessar uma coisa,” ele começou, olhando furtivamente em volta pra se certificar de que ninguém mais o ouvia. “Cemitério me deixa de pau duro.”

Êpa, me inquietei. Não acredito que o meu velho conhecido vai declarar agora sua condição de necrófilo. E justo pra mim, que não o vejo há tanto tempo. Tenho cara de papa-defunto, eu? Vendo meu embaraço, o Betão – vamos chamá-lo assim – soltou uma risadinha mofina, marca registrada dele, e, como bom leitor de pensamentos, chutou: “Não é nada disso que você tá pensando. Também não me refiro a essas gurias aí…”, ele disse, arqueando as sobrancelhas na direção de duas amiguinhas de faculdade da filha do nosso finadíssimo amigo. “Olha só, que poemas…”, suspirava o Betão.

De fato, eram duas obras poéticas completas, as meninas, em seus vestidos pretos e curtos que lhes realçavam as bundinhas salientes e aquelas pernocas esplêndidas que deviam estar provocando tentativas de autoexumação entre os inquilinos permanentes da necrovila ao nosso redor, além de ameaças de infarte e perda momentânea da compostura por parte dos que ainda transitávamos por este vale de bobagens, como diz o narrador de um conto do Guimarães Rosa.

Mas, se não eram os dois pares das mais belas gâmbias do universo que tinham se deslocado até a morgue do cemitério pra reverenciar o pai da amiga gordinha delas, o que mais naquele cemitério poderia ensejar ereções espontâneas a seja lá quem fosse? Foi o que perguntei pro Betão, que esclareceu: “Não se trata do cemitério em si. Mas do enorme poder evocativo que os cemitérios têm pra mim.” E apontou pro centro da testa, onde ele supunha se alojar sua memória, depois pro peito, na altura do coração, tradicional abrigo dos sentimentos, e, por fim, pro pau, que dispensa apresentações e predicados.

Resumo a história. Em sua adolescência, no fim dos anos 60, na cidade de porte mediano do oeste paulista em que nasceu e se criou, Betão começou “a comer uma menina da escola”, fórmula canibalesca de tão machista para expressar a celebração do amor erótico com uma namoradinha, fixa ou de ocasião. O local costumeiro da celebração reunia algumas vantagens essenciais prum cara de 17 anos durango, numa cidade de interior, cujo pai não tinha carro: era ermo, com uma vizinhança sempre imersa em sono profundo, acessível numa pernada não muito longa, e absolutamente gratuito, bastando pra isso pular um portão dos fundos – dos fundos do cemitério local. E eles não eram os únicos habituês do funéreo motel, como viriam a descobrir.

O leito escolhido era um túmulo com uma campa de granito localizado numa quebrada arborizada do cemitério, debaixo de uma árvore de ampla copa, que, de dia, dava sombra aos amantes e, de noite, metia medo na menina, que via na galhada da árvore braços ameaçadores de esqueletos redivivos, quando estava deitada de costas, pernas abertas, acolhendo o vivíssimo mandruvá do seu parceiro. No inverno, ela usava um mantô emprestado da mãe pra forrar a campa fria, e o resto eram beijos e amassos.

Ouvindo aquilo, me lembrei no ato de um filme de terror bezão total que eu tinha pescado já pela metade numa madrugada dessas na TV. Nem lembro o nome daquela porra. Sei que peguei a cena em que o carinha e a mina (acho que era a Hilary Swank, mas não tenho certeza) vão dar uma bimba no cemitério de noite. No meio do frege, quando já tá pra gozar, o infeliz esbarra num anjo de cimento de um jeito tal que a cabeça do anjo se desprende do corpo e cai na cabeça do fodedor, no meio da cara dele, aliás, que vira um hambúrguer sanguinolento. A mina, horrorizada, corre pra fora do cemitério do mesmo jeito que eu corri pra outro canal.

Continuei, entretanto, a ouvir a história do Betão. Era o que de melhor se tinha a fazer naquele velório. A certa altura, meu velho conhecido introduziu um parêntese fescenino. Como o grande método anticoncepcional que ele e sua amiguinha empregavam era o coitus interruptus cun ejaculatio externum, mais de uma vez ele se viu esporrando no casaco de lã da mãe da mina, excelente senhora que viria a ser, poucos anos depois, sua legítima sogra.

Deixando o casaco engomado da sogra em suspenso, meu interlocutor chegou ao grand finale de sua história. Foi numa tarde quente modorrenta no tal cemitério de Botucatu. (Ops! Falei o nome da cidade. Agora já foi.) O jovem Romeu passou na casa da sua fresca Julieta convidando prum sorvete, que até foi comprado e sorvido pela dupla a caminho do cemitério, onde a garota viria a se regalar com outro sorvetão, “do tipo que devidamente succionado e delambido verte alegremente seu recheio amoroso”, nas parnasianas palavras do causídico. Ouvir aquela merda me despoletou uma risada curta e besta, recebida com olhares de educada reprovação pela turma do velório.

Betão, animado com a receptividade da plateia, que se resumia a mim, seguiu em frente: “Daí, cara, tava lá nóis na meteção, depois do lambe e chupa das preliminares, quando ouvimos passos amassando os pedriscos na alameda de terra, bem perto de nós.”

Eram muitos passos, ele contava. E avançavam rapidinho em direção ao motel particular do Betão e sua mina dadeira, como se dizia na época. Foi o tempo de catar as roupas e correr pro esconderijo que lhes pareceu mais seguro, uma cripta situada bem do lado da campa-cama deles. “Não ia dar tempo de botar a roupa e bolar uma rota de fuga. A chance de topar com alguém era total.” Betão abriu a porta de grade floreada e roída de ferrugem da cripta, torcendo pra ninguém ouvir-lhe os rangidos, e os dois entraram, fechando de novo a porta. Mofo e penumbra lá dentro. As paredes eram os beliches dos defuntinhos vedados com tijolo e cimento. “E tinha um altarzinho no fundo”, Betão lembrou.

Pelas grades da porta os pombinhos, ainda nus, viram a chegada de uma equipe de coveiros, que foi destampar a campa ainda quente da trepada, de modo a preparar o túmulo pra chegada do féretro de certa pompa que não demorou a dar as caras.
O enterro durou uma hora, ou um pouco mais, segundo o Betão. Teve uma reza quilométrica do padre até o ‘descansai em paz’, teve um pouco de chororô e teve o interminável trabalho dos coveiros com pá, colher de pedreiro, cordas e roldanas pra descer o caixão, mais tijolos e cimento fresco. “A gente conseguia espiar um pouco disso tudo pelas frestas no gradeado da porta, mas ninguém de fora via a gente”, diverte-se o ex-juiz ao relembrar a cena.

Enquanto isso, na reclusão penumbrenta da cripta, o que faziam os pombinhos clandestinos? Transformaram o jazigo em alcova ardente, dando libertino e silencioso prosseguimento à fodelança, de pé, de joelhos, “de todo jeito que dava pra foder a gente fodia,” abafando-se mutuamente as bocas com mãos e beijos. “Cara, foi a mais incrível trepada da minha vida! Um puta tesão cercado de morte por todos os lados. Gozei umas quatro, cinco vezes. A mina, umas dez,” devaneava o Betão. “Os mortinho devem ter ficado tudo de pau duro naquela cripta!”

Realmente, tava explicado o fenômeno da ereção necropolitana do figuraça. Já as pernas tão nuas, tão lisas, tão pernas que vos quero pernas daquelas lolitas de vestido preto, só mesmo Deus, se houver um, e gostar de pernas femininas, pra explicar.