O HOMEM MAIS PROCURADO DO MUNDO

Ele era um pacato pai de família, o melhor jogador de futebol de seu bairro e, de repente, virou a cara do mal. Quem é, de fato, Abu Bakr al-Baghdadi, o líder jihadista do estado islâmico que espalha medo e terror por onde passa

 

Por Ruth Sherlock, de Bagdá

 

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A única vez que esse educado aluno de óculos brilhou foi no campo de futebol, ao jogar no time da mesquita local. “Ele era o Messi do nosso time”, disse Abu Ali, um colega do time e frequentador da mesquita, fazendo a comparação com o craque argentino Lionel Messi. “Ele era nosso melhor jogador.” Abu Bakr al-Baghdadi, o incrível atacante, agora é um dos mais procurados líderes jihadistas do mundo. As pessoas que conviveram com Baghdadi falam sobre a vida de um homem que deixou de ser um tímido estudante religioso, que repudiava a violência, para tornar-se um notório e perigoso extremista, autonomeado califa e suposto herdeiro de Osama bin Laden.

Nascido Ibrahim Awad Ibrahim al-Badri em uma família de pregadores, o agora líder do Estado Islâmico passou sua infância no coração da cidade sunita de Samarra, ao norte de Bagdá. No entanto, foi na capital iraquiana que ele passou seu período de formação, estudando para sua graduação e mestrado e depois seu doutorado na Universidade Islâmica. Durante mais de uma década, até 2004, ele viveu em um quarto anexado a uma pequena mesquita local em Tobchi, um bairro pobre e em ruínas, habitado por muçulmanos xiitas e sunitas na periferia oeste de Bagdá. Visitamos a área, passando pela mesquita onde ele provavelmente viveu e percorrendo vielas estreitas repletas de lixo e móveis abandonados. Talvez seja pelo azar de ser associado ao legado de Baghdadi que Tobchi hoje é um bairro tão tenso.

Com o primeiro-ministro do Iraque dando ordens para capturar qualquer um, mesmo que remotamente associado a Baghdadi, a simples menção do nome do líder jihadista já é o bastante para ser preso, ou algo pior. As ruas de Tobchi são isoladas do resto de Bagdá por barricadas de entulho improvisadas. Os moradores permanecem dentro de suas casas enquanto milicianos xiitas fazem buscas por simpatizantes do Estado Islâmico, cuja linha de frente com Bagdá está agora a poucos quilômetros de distância.

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Sentado em sua sala de estar com as cortinas fechadas enquanto seu irmão observava atentamente as milícias do lado de fora, Abu Ali disse: “Quando Ibrahim al-Badri chegou em Tobchi, ele tinha 18 anos de idade. Ele era uma pessoa tranquila e muito educada. Não era um pregador como dizem”, acrescentou, referindo-se a um perfil publicado recentemente pelo Estado islâmico que descreve Baghdadi como um grande imam. “Nossa mesquita tinha seu próprio imam. Quando o imam se ausentava, estudantes de religião o substituíam. [Baghdadi] às vezes liderava as orações, mas não pregava os sermões.” Todavia, Abu Ali admitiu que: “Ele tinha uma bela voz, perfeita para as orações”.

Ele conheceu Baghdadi através de atividades de grupo promovidas pelo clero da Mesquita. “Nós jogávamos futebol. No tempo de Saddam, todos nós viajávamos para lugares fora de Bagdá, como o distrito de Anbar, para piqueniques, ou íamos nadar.” Abu Ali, um homem com mais de 1,80 m de altura, descreveu a aparência do jovem: “Ele era um pouco mais baixo que eu e tinha uma barba média”. Abu Ali disse que havia visto o retrato policial, publicado na internet pelo governo dos Estados Unidos com uma recompensa de US$ 10 milhões por sua captura: “Eu o reconheci na foto. Exceto que, quando eu o conheci, ele usava óculos. Ele era muito míope”.

O futuro jihadista tinha sido um “Salafi conservador” praticante do Islã, disse seu antigo vizinho. “Lembro-me de um incidente em que havia um casamento na vizinhança e homens e mulheres dançavam e pulavam alegremente na mesma sala. Ele passava pela rua e viu aquilo. Ele gritou: ‘Como podem homens e mulheres dançarem juntos dessa forma? É antirreligioso’. Ele acabou com a dança.” Ao concluir seu doutorado com ênfase no estudo da Charia no início deste milênio, Baghdadi casou-se e, menos de um ano depois, nasceu seu primeiro filho. O menino tem hoje aproximadamente 11 anos. Quando começou a guerra contra o então ditador iraquiano Saddam Hussein e, em seguida, quando os aliados invadiram o Iraque em 2003, Baghdadi continuou a viver a vida de um homem de família. “Ele não mostrou nenhuma hostilidade aos americanos”, disse Abu Ali. “Ele não passava a impressão de ser um dos cabeças quentes. Ele deve ter planejado tudo em silêncio.”

O drama de Baghdadi veio um ano mais tarde, quando ele teve um desentendimento com o proprietário da mesquita local, que era também seu senhorio. Em seguida, foi expulso de sua casa e depois de Tobchi, relembram os moradores. “O proprietário da mesquita queria que ele se juntasse ao Partido Islâmico, um grupo político do qual fazia parte”, disse Abu Ali. Possivelmente pelo fato de a doutrina Salafista considerar que os partidos políticos são um sacrilégio, desafiando o primado de Deus, Baghdadi tenha recusado. O desentendimento evoluiu para bate-bocas, e “acabaram brigando”.

Em 2004, o proprietário da mesquita ordenou que ele deixasse sua casa. E então, como os moradores de Tobchi compartilhavam das mesmas afiliações tribais que o proprietário da mesquita, Baghdadi percebeu que já não era bem-vindo no bairro. “Agora o proprietário da mesquita vive no exterior. Ele tem medo de retornar ao Iraque no caso de Abu Bakr al-Baghdadi querer buscar vingança”, acrescentou Abu Ali. O morador de Tobchi disse que pouco se sabe do que aconteceu depois com o jihadista, que passou a ofuscar o líder da
Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, como o extremista mais violento, psicótico, com seus homens frequentemente realizando decapitações e crucificações de seus acusados, bem como rotineiramente recorrendo à tortura.

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Além de tomar a cidade de Raqa, hoje o centro do estado islâmico, os extremistas se apossaram de armamentos pesados como mísseis.

CRIA DOS AMERICANOS

O perfil de Baghdadi, traçado para a reportagem por Ahmed al-Dabash, líder do Exército Islâmico do Iraque que lutou contra a invasão dos aliados em 2003 e cujo grupo agora está lutando ao lado do Estado Islâmico de Baghdadi com a intenção de destituir o primeiro-ministro iraquiano, corresponde ao perfil relatado pelo morador de Tobchi. “Frequentei a Universidade Islâmica com Baghdadi. Estudamos no mesmo curso, mas não éramos amigos. Ele era quieto e retraído. Ele ficava sozinho”, disse Dabash. Mais tarde, quando ele ajudou a fundar o Exército Islâmico, Dabash lutou ao lado de líderes da milícia que cometera alguns dos piores excessos de violência e que mais tarde viria a se tornar a Al-Qaeda. “Eu conhecia todos os líderes [insurgentes] pessoalmente. Zarqawi [ex-líder da Al-Qaeda] era mais que um irmão para mim”, afirmou. “Mas eu não conhecia Baghdadi. Ele era insignificante. Ele costumava liderar as orações numa mesquita perto da minha região. Ninguém prestava atenção nele.”

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Opositores são mortos e crucificados em praça pública

Relatórios da inteligência dos EUA indicam que, antes de 2005, al-Badri havia se mudado para a poeirenta cidade de Qaim, na província sunita iraquiana de Anbar. Então conhecido pelo pseudônimo de Abu Duaa, ele foi acusado de estar ligado à tortura e execução pública de civis locais. Contudo, segundo Hisham al-Hashimi, estrategista de segurança iraquiano que conheceu Baghdadi pessoalmente, foi durante um período que passou numa prisão americana que se consolidou o gosto de al-Badri pelo extremismo. No final de 2005, Baghdadi foi preso no enorme Camp Bucca administrado pelos EUA. Mas, mesmo enquanto esteve sob a guarda dos americanos, Baghdadi passava a imagem de ser tão inofensivo que acabou sendo solto. Como não o identificaram como sendo um indivíduo particularmente perigoso, os guardas soltaram Baghdadi quando a prisão fechou, em 2009. “Ele era um cara mau, mas não era o pior dos piores”, contou ao Daily Beast o coronel Kenneth King, então oficial comandante do Camp Bucca. Seu comentário de despedida – “Verei vocês em Nova York” – não foi entendido como uma ameaça pelos guardas.

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Na prisão, acredita-se que Baghdadi teria se tornado radical por influência dos jihadistas da Al-Qaeda, grupo que espalhava o terror após a invasão iraquiana com os atentados suicidas diários em vilas e cidades. Após sua soltura, ele reafirmou sua filiação à Al-Qaeda no Iraque, um grupo que, mesmo depois de seu líder Abu Musab al-Zarqawi ter sido morto em um ataque aéreo dos EUA em 2006, era conhecido por sua extrema violência. Seus membros rotineiramente decapitavam as vítimas com facas enferrujadas, amarravam bombas suicidas nos deficientes mentais para então detoná-las remotamente quando a pessoa entrava em uma multidão e escondiam explosivos em cadáveres para matar as pessoas que iam aos funerais.

FRIO E CALCULISTA 

Um ano mais tarde, em 2010, Abu Omar al-Baghdadi, sucessor de Zarqawi, também morreu em um ataque aéreo dos EUA. Foi então que, pela primeira vez, o nome Abu Bakr al-Baghdadi tornou-se conhecido. Foi uma ascensão vertiginosa; o tranquilo estudioso de repente emergiu como o homem escolhido para liderar o Estado Islâmico do Iraque da Al- Qaeda. “Por que escolheram Baghdadi especificamente para liderar ainda é um mistério. Havia muitos outros que estavam na organização há mais tempo”, contou Hashimi. “Ele foi escolhido por um Conselho Shura [uma assembleia consultiva religiosa], na província de Ninevah, no norte do Iraque. E lá nove das 11 pessoas votaram a favor de Baghdadi.” A decisão seguinte de Baghdadi, que consolidou sua reputação, foi enviar seus homens para lutar na guerra civil na vizinha Síria.
Juntamente com milhares de combatentes estrangeiros, incluindo da Grã-Bretanha, Baghdadi e seus homens tomaram a cidade de Raqa, no norte da Síria, das mãos do regime sírio e de grupos insurgentes locais. Em seguida, capturaram a maioria dos campos de petróleo do país, nas províncias vizinhas de Deir al-Zour, criando uma fonte lucrativa de receitas à medida que os jihadistas vendiam o petróleo para outras partes da Síria e o contrabandeavam para a vizinha Turquia. Durante dois anos, o grupo – então rebatizado Estado Islâmico do Iraque e al-Sham – aumentou em tamanho e influência, mesmo rompendo com a Al-Qaeda após Baghdadi ignorar as ordens de Ayman Zawaheri, chefe atual da Al-Qaeda, para que mantivesse sua organização estritamente dentro do Iraque.

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Diariamente civis que vão contra a doutrina dos jihadistas são executados.

Baseado na Síria, e tendo construído redes de apoio locais no Iraque, Baghdadi desferiu seu golpe mais ambicioso: retornando alguns de seus homens para o país, ele tomou Mosul, segunda maior cidade do Iraque, localizada no norte, e em seguida avançou rumo a Bagdá, expulsando o exército iraquiano da maior parte do norte do país. Uma eficiente propaganda ajudou o avanço, com os aliados de Baghdadi no Twitter e outros sites de mídia social postando imagens grotescas dos massacres cometidos pelo grupo. As imagens de mais de uma centena de soldados xiitas de Tikrit, deitados numa vala ao largo de uma estrada com as mãos amarradas às costas enquanto eram sumariamente executados, espalharam o medo entre as populações xiitas locais, levando dezenas de milhares de pessoas a fugir de suas casas.

No entanto, as ambições do ex-aluno nerd não pararam por aí. Recentemente, no início do festival sagrado muçulmano do Ramadã, Baghdadi emitiu um comunicado “festivo” anunciando a realização de sua antiga ambição de criar um “Estado Islâmico”. Seu grupo, ele disse, já não era mais o Isis, e sim os líderes de um Estado Islâmico ocupando o território que outrora pertenceu ao norte da Síria e do Iraque. Ele é conhecido por ser mais calculista do que seus antecessores, supostamente abortando missões caso as considere perigosas demais para seus homens. Sua organização está mais bem estruturada do que nunca, com funções específicas para seus subordinados, tais como gestão de finanças ou propaganda. Contudo, em meio a essa calma, há uma psicopatia de sangue-frio que não deixa que Baghdadi se esqueça de buscar vingança contra seus opositores. Jamal al-Hamdani, um dos dois homens no Conselho Shura que não votaram em Baghdadi para se tornar líder, foi mais tarde assassinado por causa dessa objeção.

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A festa dos membros do grupo ao tomar a cidade de Raqa

Agora, o líder emitiu declarações exigindo primeiro a queda de Bagdá e depois a inclusão do Golfo e da Jordânia em seu califado. Na verdade, ele se vangloriou em seu discurso gravado de que seus homens não parariam de conquistar territórios até que chegassem a “Roma”. Essas declarações são em sua maior parte uma propaganda fervorosa. Ao longo da história, as tentativas de criar um califado islâmico acabaram fracassando. Depois de 2003 no Iraque, o Estado Islâmico do Iraque entrou em declínio quando suas políticas extremistas foram rejeitadas pelos sunitas iraquianos que eles tentavam dominar. No entanto, num período de três anos, o ex-amante de futebol fez com que seu grupo deixasse de ser um movimento secundário para tornar-se a maior, mais bem equipada e financiada milícia da atualidade. Fica claro que por trás do silêncio calculista há em Abu Bakr al-Baghdadi uma ambição desmedida, e ele nunca mais será subestimado.