UM AMOR DE MENINA

Roteirista do seriado Só Garotas, do Multishow, e do programa Esquenta, da rede Globo, Paula Gicovate estreia com romance perfeito para entender a cabeça da mulher do século 21

 

Por Ronaldo Bressane

 

STATUS 41 - APPROACH , ENTRELINHAS

Sem tocar o piegas e o sentimentaloide, Este é um livro sobre amor (Guarda-Chuva; 92 págs.; R$ 32) é o primeiro romance da carioca Paula Gicovate, 29 anos. Estreia no romance, bem dito, porque em roteiro ela já é quase veterana – está à frente do seriado Só garotas, do Multishow, rala no global Esquenta e publicou dois livros de contos. Fragmentário entre confissões, cartas, diálogos e pequenos textos que aproximam a prosa da poesia, o livro narra a educação sentimental de Ella, seus vaivéns entre amores, casos e rompimentos. Um livro perfeito para entender a cabeça da mulher do século 21.

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A estrutura do livro, baseada em capítulos curtos, parece um diário, um livro de cartas não enviadas e um blog. Como foi chegar a essa receita?
– Não foi uma opção inicial. Queria contar a história de como Ella se constrói a partir de seus amores. Tudo começou com a frase que abre o livro: “Ele disse que ao contrário do que eu pensava, eu nunca seria mulher de um homem só. Nunca de um homem só (nem dele)”. Só que eu não escrevia cronologicamente. Escrevia para cada um desses homens sem ordem, e no final tive um trabalho de montar os capítulos de acordo com cada personagem. Gosto que as histórias de amor se encerrem em seus capítulos, mas que se revisitem.

Declarar-se apaixonado hoje é um ato político?
– Nada é mais subversivo, e libertador, do que o amor. Declarar-se apaixonado, querer viver o amor (dentro de estruturas onde o amor romântico, monogâmico e eterno talvez nem caiba mais) é um ato político.

No livro há muitas menções a diálogos via internet, e-mails, chats. Na era virtual nosso corpo se divide em dois, se
multiplica ou se anula?
– Acho que se multiplica em dois. O mundo virtual nos dá coragem para sermos quem gostaríamos de ser, assumirmos outras facetas da personalidade; aproxima pessoas, e isso é maravilhoso. No entanto, essa aproximação causa distanciamento, porque a vida não pode ficar só ali. O olho no olho não vai ser substituído, nem deve.

Se um cara quiser entender como funciona a mente e o coração de uma mulher, seu livro seria indicado?
Acho bonito em ter publicado este livro a “memória compartilhada”, quando uma leitora me escreve dizendo que passou exatamente pelo que Ella passou. Talvez seja um certo espelho de relações modernas e existe um olhar feminino, mas Ella é apenas uma mulher. Queria que Ella fosse qualquer pessoa, não sei se representa uma geração – mas definitivamente representa algumas formas femininas de sentir. É um livro sobre sentimentos reais. Se as histórias são reais ou não, não importa, mas os sentimentos sim, cada um deles.

O que está escrevendo no momento?
– Um novo romance sobre amor e relações, porém menos fragmentado. Nos meus projetos autorais de roteiro, a literatura está inserida, e isso é algo que preciso me policiar sempre, senão os diálogos ficam muito literários. No Só garotas consegui levar para as personagens referências de literatura: a protagonista trabalhava em uma livraria e escrevia. Como escritora, me preocupo mais em escrever de forma clara sobre um sentimento do que em descrever cenários – talvez por isso a forma fragmentada tenha sido inconscientemente escolhida para este livro.

 

PROSA SAFADA

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Você já conhece bem Reinaldo Moraes, o maior escritor brasileiro vivo (mede 1,92m), pelas páginas finais de Status, nas quais o autor de Pornopopeia discorre bugalhos e groselhas sobre o zeitgeist masculino, chegando a informações bizarras ou insights geniais – tudo lambuzado em humor e sexo. Agora imagine todos esses textos reunidos em um lugar só. Em O Cheirinho do amor (Alfaguara: 264 págs.; R$ 29,90), reunião das crônicas publicadas na Status, percebe-se panoramicamente que a obsessão pelo nheco nheco é o modus operandi do priápico autor em relação à própria língua portuguesa – e da inglesa, francesa e latina, as quais o sexygenário também domina.

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