A VILA DOS CONDENADOS

Metade da população de Miracle Village, na Flórida, é composta por criminosos sexuais. É a maior comunidade do gênero nos Estados Unidos

 

Por Jr. Bellé | Fotos Sofia Valiente

 

STATUS 42 - TOP SECRET

 

Quase despercebida, uma pequena comunidade descansa a sudoeste do imenso lago Okeechobee, ao longo da ensolarada estrada Mucky City Road, na cidade de Pahokee – sul da Flórida. Até cinco anos atrás, essa região era conhecida como Pelican Lake e não passava de um vilarejo pobre sem grandes mistérios. Suas seis ruas, duas avenidas e 52 casinhas brancas abrigavam somente as famílias de cortadores de cana aposentados. Muitos deles, imigrantes que deixaram a América Central na década de 1960 para ceifar a imensidão verde que rodeia o lugar por dezenas de quilômetros e intermináveis latifúndios. Mas tudo mudou em 2009, com a chegada dos novos vizinhos. Naquele ano, Dick Witherow e os pastores da congregação Matthew 25 descobriram o terreno, compraram parte de sua extensão e o transformaram completamente. A vila, então, foi rebatizada com o sugestivo nome de Miracle Village e se tornou o lar de mais de 130 criminosos sexuais. Mas por que todos esses condenados viveriam juntos no meio do canavial a convite de um pastor?

A explicação está na legislação norte-americana. A maioria deles acaba de sair da prisão e está submetida a rígidas regras de liberdade condicional que os empurram para longe dos centros urbanos. As leis de grande parte dos Estados americanos ditam que criminosos sexuais morem a, no mínimo, 300 metros de distância de pontos de ônibus, escolas, parques, playgrounds ou qualquer lugar onde crianças possam se aglomerar. A legislação da Flórida é ainda mais rigorosa e aumenta o raio de restrição para um quilômetro. Somado ao preconceito e à natural preocupação dos proprietários, essa imposição torna a procura por um lar pós-cárcere uma tarefa quase impossível. Não à toa, portanto, Miracle Village se tornou um oásis para eles. Ela fica a oito quilômetros do município mais próximo, Pahokee, com menos de dez mil habitantes, e a 65 quilômetros da área de West Palm Beach. Significa dizer que essa comunidade tão peculiar oferece lares dentro das normas estaduais. Além disso, dentro de seus domínios os dramas se ombreiam e os estigmas parecem cruzes menos pesadas de se carregar.

Você é culpado?

Há uma primeira e essencial pergunta a ser respondida por todos que chegam e desejam ficar em Miracle Village: você é culpado? “Se você não se sente culpado, não precisa de nós. Se você não se responsabilizar pelo que fez também não precisa de nós”, diz à Status Pat Powers, um corpulento senhor de 67 anos. Ele explica que para ser aceito na comunidade é imprescindível ter coragem para dizer essas palavras: “Eu destruí minha vida e a vida de outras pessoas. Eu machuquei alguém”. Pat era professor de raquetebol quando, em 1989, envolveu-se com alunos menores de idade. Passou 12 anos preso. Atrás das grades, abraçou o cristianismo. “Ainda tive mais dez anos de liberdade condicional e, no meio disso, conheci Dick”, lembra. No mesmo ano em que Pat cometeu seus crimes, o pastor Dick Witherow (1934-2012) e sua esposa, Maggie, decidiram ajudar, de uma vez por todas, criminosos sexuais a enfrentarem a árdua transição entre as grades e a liberdade. Eles aproveitaram sua experiência em trabalhos assistenciais com ex-detentos e criaram uma congregação religiosa chamada Matthew 25. Miracle Village seria sua grande obra, ela ofereceria um lar seguro às pessoas mais desprezadas pela sociedade. Mas erguer esse oásis não seria nada fácil.

A vila não está às margens do lago Okeechobee por escolha dos pastores, ela teve de se mudar inúmeras vezes. A primeira casa foi comprada por Dick e Maggie, em junho de 1991, em West Palm Beach. Permaneceram na área por 11 anos, mas, em 2002, tiveram que deixá-la por desentendimentos quanto aos termos de locação. Um ano depois, Dick conheceu Pat e o aproximou do trabalho da Matthew 25 a ponto de nomeá-lo diretor- executivo, cargo que exerceu até o início de 2014. Pat é um dos fundadores da Miracle Village, esteve ao lado dos pastores na longa caminhada até Pahokee. “Viajamos por todo o Estado por cinco anos. Vimos uma porta atrás da outra se fechar na nossa cara.” Porém, em meados de 2008, ao costearem o lago Okeechobee se depararam com o que parecia ser uma miragem. Tratava-se de um pequeno vilarejo repleto de casas velhas, muitas delas abandonadas, onde a umidade vinha da costa. “Deus nos guiou até aqui para vivermos ao lado de trabalhadores e fiéis. Juntos, transformamos esse lugar numa tranquila e pacífica comunidade”, conta Pat.

O local estava melhor por fora do que por dentro. Havia uma infestação de ratos que fugiam para o canavial sempre que perseguidos. As casas, que aparentavam ser belas, estavam literalmente desmoronando. Não havia segurança alguma. Pat lembra do lento e custoso trabalho que tiveram para limpar e desinfetar a área antes de começar a reforma das casas antigas e a construção de novas. Algumas famílias deixaram o lugar assim que a Matthew 25 apareceu trazendo consigo os primeiros condenados. No entanto, a maioria dos habitantes permaneceu e, desde então, não há registros de desentendimentos entre eles.

Atualmente, quem dirige a Matthew 25 é Tom Barrett. Procurado pela reportagem de Status, ele não quis dar entrevista. “Nossos residentes têm reclamado e deixado claro que preferem manter sua privacidade”, disse Barrett. Há, evidentemente, o medo dos moradores de se expor e sofrerem preconceito. E, apesar de tentar passar uma borracha no passado de olho no futuro, não há como fugir do estigma de criminoso sexual – delito que rende a “pena de morte” pelo código da bandidagem. Alguns até tentam recomeçar a vida, mas o caminho é tortuoso. Um dos moradores de Miracle Village, por exemplo, um homem de meia-idade que não quis revelar o seu nome, foi abandonado pela esposa e família depois da condenação. “O que ele mais desejava era encontrar um novo amor, uma nova parceira”, diz a fotógrafa americana Sofia Valiente, 24 anos, que, durante um ano e meio, visitou e pernoitou na vila a fim de captar a rotina dos residentes. O resultado é o livro Miracle Village, que ela acaba de lançar pela Fabrica, centro de pesquisa em comunicação do Instituto Benetton. Ela explica que havia no homem um desejo por intimidade e uma angústia por uma paixão que o fizesse redescobrir o prazer de estar vivo. “Certa noite nós estávamos numa espécie de bar – que fica no meio do nada, pois é próximo à vila – e ele estava conversando com uma garçonete por quem tinha uma queda”, lembra Sofia. O homem retornou ao bar com frequência. Primeiro, eles trocaram olhares, depois telefones e então a relação começou a avançar alguns centímetros para além da amizade. “Foi nesse momento que ele decidiu abrir o jogo e contar sobre sua condenação, explicar o que havia acontecido e como ele já tinha superado aquela fase.” De nada adiantou. “Ele nunca mais a viu”, lembra Sofia. A garçonete desconectou a linha do telefone, pediu demissão e desapareceu. “Ela ficou aterrorizada com ele assim que conheceu seu passado. É um estigma, uma cicatriz que jamais cura.”

Os moradores de Pahokee também têm dificuldade em conviver com os condenados em liberdade condicional. “Eu não acho que isso seja qualquer tipo de milagre”, afirmou Kathy em entrevista à BBC inglesa. “Talvez seja para esses criminosos sexuais, mas para mim isso parece mais um pesadelo na rua Elm”, diz, referindo-se ao filme A hora do pesadelo, a estreia do personagem Freddy Krueger no cinema, cujo título original é A Nightmare on Elm Street. O medo de Kathy, que pediu para não ter seu sobrenome revelado, é mais do que compreensível: ela foi estuprada quando ainda era adolescente e mesmo décadas depois do ataque ainda luta para conviver e superar aquela terrível memória. Já o prefeito da cidade é mais flexível. “Eu sei que, a princípio, havia uma grande oposição a eles, pois tudo girava em torno da proteção ao nosso maior ativo: nossas crianças. Mas estamos indo adiante, este é um país de segundas e terceiras chances para pessoas que cometem erros. Enquanto a força policial estiver envolvida e não existir problemas, a comunidade irá aceitá-los”, diz Colin Walkes. Ele faz menção à atuação da polícia local, que envia semanalmente um detetive até Miracle Village. Chad Stoffel, 38 anos, o atual diretor da Miracle Village, explica as restrições e as possíveis penas para quem não andar na linha. “Todos nós precisamos atualizar nossos registros de duas a quatro vezes ao ano. Se você atrasar essa atualização um único dia, enfrentará de dois a cinco anos de prisão. É preciso registrar tudo, de seus veículos até seus e-mails. Se um de nós tiver um e-mail não registrado, a pena é de cinco anos de prisão.”

Ponte chamada música

Chad chegou à comunidade em janeiro de 2010, preso por manter relação amorosa com um adolescente em 2003. Na época, ele era um talentoso professor de música que lutava diariamente contra sentimentos indesejados. Ele sentia-se atraído por pessoas do mesmo sexo, mas sua formação religiosa dizia que aquilo era muito errado. Um pecado gravíssimo. Ele lembra que toda noite, chorando, perguntava a Deus por que ele o fazia sentir aquilo. “Eu me odiava”, diz à Status. Além do mais, sua crença garantia que a tentação por homens simplesmente desapareceria caso ele assim desejasse. Ou seja, só dependia de sua própria vontade, e Chad estava disposto a tentar de tudo para mudar suas preferências sexuais. Mal sabia que essa firme disposição seria a prova cabal que selaria sua sentença. Diferentemente da maioria dos casos, a condenação de Chad foi pautada unicamente em sua confissão. Mas ele não a fez na delegacia, tampouco no tribunal. A polícia a colheu nos registros de um centro de terapia cristã que ele acudira com a promessa de que seria curado da homossexualidade. Sua vítima, um aluno menor de idade, recusou-se a prestar queixa e não testemunhou contra o agressor.

A fala doce e o jeito meigo são as principais ferramentas diplomáticas de que Chad lança mão para aproximar Miracle Village das comunidades vizinhas. Ele crê que essa aproximação é o remédio mais eficaz de que dispõe para diminuir o estigma que os acomete. Por conta desse talento social, Pat Powers o considera o porta-voz desse diálogo, o engenheiro responsável pela ponte que conectará realidades tão conflitantes. Chad não se esquiva da responsabilidade: “Meu futuro agora é auxiliar outros criminosos sexuais. Tive muito apoio aqui, ter esse tempo para reconstruir minha vida foi excelente. Agora, há muita coisa a se fazer pelos que chegarão”. O fato é que a atuação de Chad tem sido decisiva. Sua mais importante vitória aconteceu dois anos e meio atrás, na igreja metodista de Pahokee. O comando da congregação havia mudado e estava na mão de uma nova pastora chamada Patti Auperlee. Por um motivo que Chad conheceria pouco depois, Patti parecia bastante solidária aos residentes de Miracle Village. Ele contou à pastora sua história e recebeu como resposta um convite para que tocasse violão nos cultos de quinta-feira. Assustado com tamanho altruísmo, Chad prometeu considerar a oferta. Para convencê-lo, Patti decidiu falar de seu passado. Revelou que foi molestada quando criança, e então o fuzilou com uma pergunta: “Você acredita no poder transformador do Espírito Santo?” Atualmente, Chad é o líder do coral da igreja metodista de Pahokee. “Quando chegamos, a comunidade local ficou revoltada, mas usando a música como uma ponte, fomos capazes de conquistar o coração de Pahokee, que hoje nos abraça como irmãos”. A história do envolvimento entre as duas congregações está no documentário Banished!, produzido pela rede australiana SBS em maio de 2014.

Chad, que em breve terminará de cumprir a liberdade condicional e poderá mudar-se para a cidade, sabe que sua vida jamais será a mesma. Ainda lhe cabe uma longa e tormentosa trajetória como líder local: “Encontrar emprego, por exemplo, é muito difícil para todos nós por conta da distância até a cidade. Se combinarmos isso ao estigma torna-se quase impossível.” Ninguém vive sem dinheiro, os residentes pagam aluguel para ter direito a um quarto privado e todos dividem as áreas comuns – salas, cozinhas e banheiros. “Ninguém fica à toa por aqui. Os residentes que conseguiram empregos vão trabalhar nas cidades. Outros vão até lá buscar alguma ocupação que pague alguma coisa ou se dedicam a trabalhos voluntários. Nós todos tentamos recompensar a nossa pequena comunidade da melhor forma possível.” A administração de Miracle Village fornece transporte para os residentes irem até a cidade fazer compras. “Outra forma que encontramos de contribuir foi distribuindo vale-refeição aos que demoram até conseguir uma colocação.”

A Mathew 25 recebe cerca de 20 pedidos de ingresso semanalmente, mas a seleção é criteriosa. Ela é coordenada pelos próprios moradores em conjunto com pastores locais. “Nosso processo determina se os novos residentes se encaixam ou não em nosso modelo. Não aceitamos estupradores seriais ou pedófilos clinicamente diagnosticados. Fazemos o possível para manter nossa comunidade segura.” Para a fotógrafa Sofia Valiente, o fato de eles estarem tão apartados da sociedade, e tão conectados uns com os outros, faz com que, ao menos dentro de Miracle Village, o estigma se dissipe: “Ali dentro, juntos, eles já não são mais leprosos”.

STATUS 42 - TOP SECRET