CUIDADO: ORGASMOS À SOLTA

É sério o negócio. Muito sério. O cara se diz acometido por mais de 100 orgasmos diários, há dois anos já. Não sei como ele mede isso  

 

Por Reinaldo Moraes    

 

 

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O genial cartunistaAngeli tinha um personagem engraçadíssimo, um tipinho pré-pornô chamado Osgarmo, o ejaculador hiperprecoce. Osgarmo, que faz tempo não dá as caras nas tiras do Angeli, era um personagem pré-pornô porque gozava muito antes de sequer ver alguma mulher pelada na sua frente, quanto mais trepar com ela. Era “o sujeitinho vapt-vupt”, como o desenhista o apresentava. De libido sempre engatilhada, mal uma fulana lhe estendia a mão para um aperto formal, e ele já – ffff… fff… ff… a!…aah!… aaaaah!!! – se esvaía num gozo molhado de deixar uma poça seminal no chão. Lembro de uma tira em que o afoito Osgarmo gozava enquanto se vestia para receber a visita de uma garota. Quando ela, por fim, aparecia na porta, o coitado já estava todo desmilinguido e ensopado de tanto gozar.

Além de precoce, Osgarmo era um ejaculador compulsivo, e ainda deve ser, seja lá onde estiver. Neste exato instante, por exemplo, já deve estar se desmanchando em porra frenética só de pensar que algum escriba licencioso, como este que voz fala, possa estar citando sua pessoa num artigo pruma revista como a Status, onde abundam (ops!) mocinhas pra lá de totosas em trajes mui generosos com as retinas do leitor interessado na fruta.

Pois me lembrei de cara do Osgarmo quando li sobre as desventuras de Dale Decker, um americano de 37 anos que sofre de síndrome de excitação sexual persistente, ou PSAS, na sigla em inglês. É sério o negócio. Muito sério. O cara se diz acometido por mais de 100 orgasmos diários, há dois anos já. Não sei como ele mede isso. Talvez tenha uma espécie de gozômetro acoplado aos genitais, ou algo assim. Os episódios orgásticos são involuntários, diz ele. Dale goza à toa e sem foder ninguém. Os orgasmos involuntários é que estão fodendo com ele.

Tudo começou em 2012, quando, ao se levantar bruscamente de uma poltrona, Dale deslocou uma vértebra. Era um pequeno e corriqueiro acidente que deveria deixá-lo tão somente com aquela dorzinha filha da puta na coluna por uns dias, do tipo que, inclusive, desestimula qualquer atividade sexual. Em vez disso, teve como sequela uma enxurrada de orgasmos, tornando-se um ejaculador serial. Pra se ter uma ideia da gravidade do perrengue, no próprio dia em que deu o nó na cacunda, ele sofreu cinco orgasmos a caminho do hospital. Os médicos afirmam que traumas nos nervos pélvicos podem desencadear uma hipersensibilidade na área recreativo-reprodutiva, a tal da excitação sexual persistente. Fatores neurológicos, vasculares e hormonais também podem estar implicados na disfunção, assim como os efeitos colaterais de certos remédios.

A síndrome do tesão constante não é nenhuma novidade para os médicos, em especial os ginecologistas, que costumam diagnosticá-la em mulheres. A doutora Francisca Molero, por exemplo, vice-presidente da Federação Espanhola de Associações de Sexologia e estudiosa da síndrome, diz que nunca viu ou soube de nenhum caso de PSAS masculino. Numa interpretação algo feminista do problema que acomete Dale, a dra. Molero não dá mole:“Ereções espontâneas nos homens sempre existiram e nunca foram vistas como algo negativo. Ao contrário, são contempladas como um apreciado sinal de virilidade. Já a excitação feminina é encarada como algo a se esconder.”

A médica espanhola admite, porém, que há uma lacuna de conhecimento sobre a conexão entre o cérebro e a resposta genital. Assim, diz ela, o caso de Dale Decker poderia, de fato, se encaixar na síndrome do orgasmão doido, que ocorre sem que o paciente esteja pensando em sexo. Sua mente pode estar focada nos anéis de Saturno, no último modelo de iPhone ou no coque da Marina Silva. Mesmo assim, vindo do nada – chuá! –, um orgasmo.

Dale Decker que o diga. Tempos depois de ser diagnosticado com a PSAS, eis que seu pai resolve bater as botas. No velório, de joelhos diante do caixão do velho, com toda a família em volta, o cara tem um orgasmo. E foi só o primeiro de uma série de nove, como registrou seu gozômetro, sem arredar pé, ou melhor, joelho, do chão. Vamos combinar que gozar nove vezes seguidas ao velar o cadáver do pai deixaria no chinelo até o mais desbragado dos necrófilos saídos da cabecinha destrambelhada do Sade, o divino marquês da putaria escatológica.

“Desagradável e horrorosa” é como Dale descreve a experiência, embora confesse que, no plano estritamente físico, cada orgasmo lhe proporciona o prazer normalmente associado a esse velho e fundamental fenômeno da natureza. Quer dizer, o cara goza bem gozado, mas fica supermal depois, pois as pessoas nunca vão entender como é que um filho pode ficar ensopado de esperma em meio a contorções e gemidos do mais rasteiro filme de sacanagem no velório do seu amado genitor.

Se vivesse sozinho numa ilha deserta, gozar 100 vezes ao dia poderia até se transformar numa distração e tanto. Nem daria tempo de sentir solidão. O grande problema é sair gozando adoidado em público ou – pior! – na frente dos filhos. Ou da mãe, das tias, da vovozinha. Outro dia, segundo ele conta, a gozaria se manifestou num armazém, “com 150 pessoas em volta me olhando”. Imagino o cara com um ketchup na mão, recém-tirado da gôndola, tendo um orgasmo tão forte que o faz apertar o frasco de plástico até a tampa explodir e o tomate líquido jorrar vermelho pro alto, numa espetacular metáfora visual do ejaculão que está acontecendo à sua revelia nas internas da cueca. Ou do fraldão geriátrico – fraldão orgástico, no caso – que a essa altura ele já deve estar usando.

E já pensou o cara pegando o Júnior no colo, “vem cá no colinho do papai, vem”, e tendo uma ereção seguida de uma estertorante gozada? Mal, né? Ou no aniversário de 5 aninhos da linda filhota tendo um orgasmo ao acender as velinhas, outro ao puxar o “parabéns a você” e mais uns três ou quatro até o “muitas felicidades, muitos anos de vidaaa…aaaaah!….” Nem o mais empedernido dos pedófilos, com ou sem batina, aprovaria tamanha exuberância.

Se a síndrome da excitação sexual persistente é um pesadelo pro Dale Decker, que se viu obrigado a largar o emprego e a viver confinado em casa, pra mulher dele as coisas não são mais fáceis. Diz a senhora Decker que toda a responsabilidade de sustentar a família e criar os filhos recaiu de uma hora pra outra sobre seus ombros. Ô dó! E pensar que, enquanto ela tá lá no trampo, dando duro das 9 da manhã às 5 da tarde em tarefas burocráticas e pentelhas, o maridão fica no sofá com caixas de papel absorvente ao lado, vendo beisebol na TV, tomando cerveja, comendo batatinha chips e gozando sem parar. E à noite, no recesso da alcova conjugal, nem pensar em sexo, apesar das constantes ereções do marido. “Às vezes até rola”,diz ela,“mas é sempre frustrante pra nós dois”.

Frustrante por quê? É o que eu me perguntei ao ler isso. Afinal, qualquer mulher com tesão pelo marido gostaria de tê-lo numa eterna prontidão para o sexo. Mas parece que algo ali não dá muito certo, embora a mulher não entre em detalhes. Talvez, imagino eu, não seja lá muito inspirador trepar com um cara que goza involuntariamente como quem respira. Ou que goza até dormindo, toda noite, como o Dale. Por conta disso, aliás, o casal decidiu dormir em camas separadas. Se dormir ao lado de um maridão que ronca já é um suplício pra qualquer mulher, suportar um que se põe a gemer e tremer e se contorcer e ejacular a cada 15 minutos deve ser puro inferno.

“Quero minha velha vida de volta”, suplica o supergozador. E quase posso ouvi-lo acrescentar: “Quero de volta meu pau mole! Quero assistir beisebol na TV sem gozar na calça cada vez que o Red Sox acerta uma tacada. E até mesmo quando não acerta”.

Deixo aqui sinceros votos pra que Mr. Decker se cure da orgasmorreia que o acomete. Mas torço também pra que, uma vez curado, ele não se deprima mortalmente de saudades do tempo em que era capaz de gozar assistindo ao horário político na TV ou passando manteiga no pão.