GAROTO ESPERTO

O jovem carioca Rafael Sperling publica livros de contos detonando a estupidez moderna

 

STATUS 42 - APPROACH, ENTRELINHAS

O escritor André Sant’Anna, o gênio da burrice, já tem um legítimo seguidor: é Rafael Sperling, autor de um livro que, não por acaso, se chama Um homem burro morreu (Editora Oito e Meio; 130 págs.; R$ 40). Sperling, tal como Sant’Anna, navega no lugar-comum da cultura que não ultrapassa o 50 em testes de QI. Como isso rende boa literatura? Revelando a pretensa comunicabilidade, os meandros da falsa cultura e os clichês, convenções, hipocrisias, repetições da linguagem – território também familiar a autores como Beckett e Bernhard. Os contos do carioca de 29 anos transitam entre humor e horror. O de abertura, “Caetano Veloso prepara-se para atravessar uma rua no Leblon”, parte de uma conhecida sub-reportagem de um site de celebridades, e termina muito mal. “Insônia” fala de um menino insone que pega os pais no pulo.
O engraçadíssimo “A Branca de Neve era um tanto bonita” leva aos domínios da escatologia. Com questões cruciais como as do conto “Banho” (“Como saber se já terminamos o banho?”), Sperling traz escuridão onde parecia haver luz. Siga o papo.

STATUS 42 - APPROACH, ENTRELINHAS

A burrice humana é um tema aparentemente infindável. André Sant’Anna criou toda uma literatura sobre esse terreno. Você se sente confortável ao focar suas narrativas na estupidez?
Certamente, a burrice e a estupidez são assuntos que dão muito pano pra manga. Creio que me sinto confortável, já que escrevi, escrevi e escrevi sobre isso sem notar que o estava fazendo ao longo dos anos (o livro tem contos escritos entre 2010 e 2014), sobre pessoas fazendo coisas burras e se machucando (ou até morrendo), daí o nome do livro. O André, que sempre foi uma inspiração para mim, certamente é um mestre nisso, embora foque mais em criticar a maneira de pensar da sociedade brasileira, o que não é exatamente o meu caso .

Você coloca Dante Alighieri, Jesus Cristo, Hitler, Kafka, Branca de Neve e Caetano Veloso como personagens de seus contos. Não teme um processo?
É um risco que se corre. Usar ícones da cultura para falar o que queremos é sempre um recurso interessante, mas temos de saber lidar com as consequências. Imagina o Dante Alighieri me processando por difamação ou a Branca de Neve por ter sido abusada sexualmente?

A estupidez contamina. Ao transitar nos clichês, nos lugares-comuns e nas convenções, não teme ficar meio tonto?
É inevitável. Acho que escrever sobre isso é uma maneira de me descontaminar e transformar tudo numa brincadeira, já que estamos diariamente imersos nessa estupidez toda.

Sua linguagem exibe um farto uso de palavrões e cenas escatológicas. O leitor não pode ficar chocado? E mais: o que choca você?
Algumas pessoas se chocam, sim. Mas confesso que não penso no “leitor comum” quando escrevo. Acho que quem se choca é quem tem uma ideia mais engessada do que deve ser literatura. Vejo que o pessoal mais jovem, em geral, curte muito e não liga para esse tipo de questão. Sobre o que me choca, olha, pouca coisa. Até porque, com a internet, já vi de tudo um pouco. No entanto, não suporto ver sangue, isso sim, me choca (risos).

STATUS 42 - APPROACH, ENTRELINHAS

Tem um projeto literário? Pensa em sair dos contos para um romance?
Não sei se tenho algo que poderia chamar de projeto literário, até porque comecei escrevendo por acaso e meio que continua assim. A sensação que tive ao lançar os meus dois livros é a de que nunca mais publicaria nada que prestasse, ou, sendo mais específico um pouco, que não teria nada mais a dizer, a não ser me repetir. Dessa segunda vez só não foi mais forte a sensação, porque há uns dois anos tenho mexido numa ideia de romance (estaria mais para uma novela, imagino). Mas ainda não tenho ideia de como ou quando vou terminar. Já tem aí umas 40, 50 páginas de ideias, cenas, capítulos cuja ordem não importa muito. Vamos ver o que vai acontecer.

 

CÃES AO SOL

“Hoje é um dia muito especial, meus amigos: a jovem Ticiana vai me mostrar como a nova geração faz amor na intimidade do lar”, diz Terêncio. Ou: “Os solteiros usam o Facebook para buscar o sexo casual. Até que se casam… e voltam a buscar sexo casual no Facebook.” Com tirinhas como estas, Terêncio Horto demonstra todo o seu pessimismo, a sua desilusão e o seu modo elegante de escrachar a humanidade. Ele é um solitário escritor em crise de criatividade e quase sempre comparece, em seu figurino cabeludo-careca, diante de uma máquina de escrever com uma permanente página em branco. Terêncio é um personagem de André Dahmer, autor da tirinha Malvados, artista plástico e poeta carioca, um dos primeiros a sacar a dinâmica da internet. Em Vida e Obra de Terêncio Horto (Quadrinhos na Cia.; 256 págs.; R$ 52), Dahmer usa o personagem medíocre para enquadrar o zeitgeist com melancolia, espírito crítico e humor azedo.

STATUS 42 - APPROACH, ENTRELINHAS

 

 

SEM FREIO

“Pessoas difíceis de serem amadas são um desafio, e o desafio as torna mais fáceis de amar. A gente acaba sendo levado a amá-las. As pessoas que desejam amor fácil não querem amar de verdade”, reflete Reno, enquanto pilota sua motocicleta através dos amplos espaços de Nevada, EUA. Reno é uma motoqueira que se muda para Nova York para trabalhar com arte e motores. Conhece Sandro Valera, artista plástico herdeiro de uma grande fabricante italiana de motos – uma pessoa difícil por quem Reno obviamente se apaixona. Quando o casal viaja para a Itália, se envolve com terroristas radicais – estamos em 1975 e o país fervilha sob os ataques das Brigadas Vermelhas. Apaixonada, brilhante e louca por um pé-na-jaca, Reno é quem narra tudo, sem jamais apertar o freio. Com Os Lança-Chamas (Intrínseca; 352 págs.; R$ 40), a jornalista nova-iorquina Rachel Kushner conquistou os principais prêmios literários de 2013, foi escolhida a autora do ano em dezenas de revistas – e ainda por cima produziu um panorama incandescente dos loucos anos 70.

STATUS 42 - APPROACH, ENTRELINHASSTATUS 42 - APPROACH, ENTRELINHAS

 

MAKES ME WONDER

STATUS 42 - APPROACH, ENTRELINHAS

Se existe rock de arena é porque existiu Led Zeppelin. E a história do Led é a história de Robert Plant. Carismático, gente fina e libidinoso até o último fio de cabelo louro, era um pobretão viciado em blues e soul music que trabalhava na construção civil quando conheceu o aristocrático gênio Jimmy Page. O resto, conta deliciosamente o jornalista musical Paul Rees em Robert Plant: uma vida (LeYa; 320 págs.; R$ 50), é história: oito meses depois eles lançavam o primeiro álbum e assaltavam o mundo com a mistura pesada de blues, folk e psicodelia; além do mergulho no binômino sexo-drogas e relações com o satanismo. A ressaca foi pesada para Plant: perdeu o amigo John Bonham, baterista do Led, o filho de 7 anos e quase morreu em um acidente de carro. Mais tarde também perderia os famosos agudos. Mas nunca perdeu a pose fidalga – e sobreviveu para contar sua improvável história.

STATUS 42 - APPROACH, ENTRELINHASSTATUS 42 - APPROACH, ENTRELINHAS