GOSTO DE SANGUE

Durante o dia, eles vestem ternos, gravatas e tailleurs bem cortados. À noite, esses homens e mulheres de negócios deixam a formalidade de lado e sobem no ringue em busca de adrenalina. Eis o White Collar Boxing, uma modalidade que virou febre na Inglaterra e conquista cada vez mais executivos dispostos a pagar caro para trocar socos

 

Por Daniela Paiva, de Londres Fotos Steve Mepsted

 

STATUS 42 - VAI ENCARAR?

O rosto do consultor de Recrutamento Danny Stoykov resume bem o desfecho de sua luta de estreia

“Nervosismo é fraqueza”, dizia Danny Stoykov, 25 anos, um consultor de recrutamento búlgaro radicado em Londres. “Nervosismo é fraqueza”, repetia o jovem, enquanto se aquecia disparando jabs, diretos e cruzados no ar. “Nervosismo é fraqueza”, tentava se convencer antes de subir no ringue.

Não teve jeito. Nenhum mantra foi capaz de protegê-lo de um rolo compressor que atendia pelo nome de Timothy Youdeowei, oponente mais forte, rápido e dono de uma técnica apurada. Naquela noite de sexta-feira, ao subir no ringue do amplo e acarpetado London Irish Centre, centro comunitário que difunde a cultura irlandesa no bairro de Camden, Stoykov foi esmagado. Três rounds de dois minutos e muitos golpes certeiros foram suficientes para o búlgaro sair com a boca deformada, cortes no lábio superior e vários hematomas nos olhos. “Eu fiquei surpreso com o quanto ele era rápido”, disse entre toalhas, algodões e papéis usados para estancar o sangue que escorria na sua cara. O prêmio pelo espetáculo? Esqueça. Na verdade, Stoykov pagou para lutar numa modalidade que tem virado febre entre executivos ingleses: a White Collar Boxing.

Trata-se de um tipo de boxe amador cujo público-alvo é formado por profissionais do “colarinho branco”, sem qualquer preconceito de gênero. Os motivos para a prática são os mais variados. Alguns desejam aliviar o estresse de suas ocupações burocráticas e rigidamente hierárquicas. Outros estão lá para manter a forma. E há aqueles que buscam pura e simplesmente uma boa dose de adrenalina. O fato é que esses homens e mulheres treinam com o intuito de subir no ringue e levar à lona quem estiver no corner oposto. No caso de Stoykov, como se sabe, as coisas não saíram como o planejado. “Mas estou me sentindo bem, fiz isso pela experiência”, diz. E também para aliviar o estresse da difícil semana que teve na Thorn Baker, empresa de RH onde trabalha. “Já tenho luta marcada para 20 de dezembro”, conta. Até lá, colegas e chefes já terão se acostumado com os seguidos ferimentos e lesões.

Quanto à segunda-feira pós-surra, garante que será um dia “normal, como qualquer outro”. Mas é justamente para não mais viver unicamente dias quaisquer que muita gente decide trocar socos em cima do ringue.

Toda luta tem seu preço

O inglês Scott Borthwick, 27 anos, garante que sua academia, a White Collar Boxing London, não é apenas a pioneira, mas também a maior da modalidade em Londres. Está localizada numa zona pouco atraente do sudeste da capital, no subsolo de uma loja chamada Knights Gym. O andar superior é uma mistura de quinquilharias e equipamentos de malhação. Para se ter uma ideia, o visitante é recepcionado por um manequim travestido com uma armadura da Idade Média. O espaço tem dois balcões, esteiras e banheiros. Difícil imaginar alguém correndo e transpirando naquele aperto. A academia, propriamente dita, está escondida no andar debaixo. É espaçosa, possui armários, vários sacos de areia, halteres e aparelhos de musculação, além de dezenas de luvas, protetores de cabeça e bucal. Em destaque, no canto, está o ringue. Homens e mulheres trocam de roupa na maior desinibição do mundo. Nada é muito luxuoso, mas há o necessário para todos treinarem.

O desprendimento com a opulência não significa que esta é uma modalidade popular. Custa caro entrar para o clube da luta dos engravatados: 625 libras (R$ 2,4 mil). A soma equivale a dez semanas de treino aos sábados e opcionais às terças, aconselhamento nutricional, bem como a logística completa na noite da grande luta. Para que o momento de glória – ou fracasso – dos lutadores não seja solitário, o pacote inclui também uma cota de 25 ingressos a 25 libras (R$ 95) para a geral e 40 libras (R$ 155) para a área VIP. Os bilhetes devem ser revendidos para a família e amigos, que têm como missão lotar qualquer espaço em que o ringue seja armado. Desde 2009, o White Collar Boxing London promove de oito a 16 eventos por ano. Scott “importou” a ideia dos Estados Unidos. A prática surgiu em Nova York nos anos 80, ganhou fama com as lutas undergrounds nos anos 90 e em filmes como Clube da luta, de David Fincher. O combate inaugural, com formato de espetáculo para colarinhos-brancos, ocorreu em 2000.

A exposição e o sucesso da prática estimularam outras academias e promoters da Grã-Bretanha a investirem no boxe. “Recebo diariamente dezenas de ligações e e-mails de pessoas me pedindo dicas de como montar um evento”, revela Scott. Há alguns meses, um amador morreu após uma luta, o que provocou polêmica em relação à efetiva segurança das pessoas envolvidas (leia box na pág. 59). Nada que alterasse a agenda da Boxing London, que, segundo o treinador, recebe entre 600 e 800 pessoas anualmente: “Tudo é feito da maneira correta, garantindo a segurança de todos”. Isso inclui um check- up completo antes de qualquer luta. Cada evento é desenhado com um conceito específico – nome, tamanho e até espaço podem mudar. O que não muda é o pano de fundo: sempre uma causa social. O maior dos eventos até agora teve como público-alvo o banco privado Arbuthnot Latham. O projeto foi bastante direcionado, algo pouco usual para a Boxing London, e integrou uma iniciativa do próprio banco em prol de uma instituição que auxilia crianças carentes. Foram 1.500 pessoas presentes e 23,2 mil libras (R$ 90 mil) em arrecadações.

Isca no metrô

Para alistar novos competidores, Scott aposta numa tática simples e eficiente. Ele distribui panfletos em pontos estratégicos, como estações de metrô, áreas bancárias e regiões com alta concentração de executivos. Danny Stoykov recebeu um desses na estação Bank e mordeu a isca: a promessa de que subiria no ringue em menos de três meses. Para efeito de convencimento, usam frases como: “treine como um profissional de boxe por dez semanas”, “seja o herói no seu local de trabalho e a celebridade entre os seus amigos”, e por aí vai. “As pessoas nos procuram porque querem melhorar o corpo ou levantar dinheiro para a caridade”, enumera Scott. “Ou simplesmente porque chegam a uma certa idade em que precisam de um novo desafio”, pondera. Não há maiores restrições para a prática. O segredo, de acordo com o treinador, é organizar a escalação no ringue não só por peso e altura, mas também de acordo com a evolução no treinamento.

Treino é jogo

A Status acompanhou o final da jornada da turma que lutaria no dia 19 de setembro. Foram duas sessões aos sábados, das 10h às 12h. O treino começa com corda para o aquecimento e um cooper pelas redondezas. O ponto de encontro depois dessa etapa é uma quadra esportiva pública, que fica próxima à academia. Na sequência, Scott comanda uma série de corridas de explosão. O dia, porém, não está para George. Ele tem 46 anos e uma barriga cultivada por décadas de sedentarismo, além de seguidas recaídas em gelados pints nos irresistíveis pubs ingleses. “Durante 25 anos, a minha agressividade ia para as reuniões, para a mesa de escritório”, compara, antes de completar. “Achei que lutar seria uma boa maneira de extravasar isso em vez de gritar com as pessoas.”

George acredita que encontrou no boxe uma forma de remediar o coração, de lidar com o duro período pós-separação, especialmente pelo fato de a ruptura envolver diretamente seus quatro filhos. “É uma maneira saudável de soltar a frustração”, afirma. E lá vai o esbaforido George na rabeira da fila composta por jovens com 15 anos a menos. “Vamos, George!”, “Você pode, George!”, “Mais uma, George!”. Só dá ele nas palavras de incentivo. “Tenho que compensar, pois perdi duas semanas por conta das férias”, confessa o corretor de imóveis, empapado de suor.

Na dianteira da fila, a produtora de vídeo Emily Williams, 27 anos, diz que entrou na jogada buscando adrenalina. Loira, olhos azuis e jeito de boneca, Emily está mais para a sessão da tarde do que para UFC. “Assisti a algumas lutas na TV, mas nunca até o final. É muito agressivo para mim”, diz Emily. Ela confessa que os treinos são duros, e que os últimos antes do combate levaram-na às lágrimas. “Eu decidi me inscrever para melhorar a forma, mas isso é muito mais difícil do que pensei. Nunca havia feito algo parecido.” Para superar o conflito interno, ela o transformou num desafio pessoal. “Eu me sentiria muito pior se desistisse.”

Choro não é exclusividade de ninguém na Boxing London. “Chorei em todos os treinos nas primeiras cinco semanas”, relembra a executiva LJ Sheldrake, 27 anos, que trabalha na área de RH. “Tenho pesadelos constantes. Sonhei que lutava usando salto alto, que esquecia as luvas na hora da luta.” Ela é mais uma que encarou o boxe pelo desafio e pela adrenalina. Com corpo sarado, é do tipo que adora correr maratonas e praticar ciclismo. No entanto, volta e meia quebra todas as regras, embrenha-se na noite e se acaba no pub. Mas mesmo essas escapadas estão rareando. “Há três meses que não fumo ou bebo”, orgulha-se.

A segunda etapa do treinamento é dedicada aos movimentos técnicos e simulações da luta. Cronômetro à mão, Scott conduz um circuito que conta com a velha e boa pancadaria no saco, assim como combates dentro e fora do ringue. Tudo leve e em clima amigável, apesar dos hematomas e cortes quando um golpe, inesperado, de repente, encaixa. Em cima do ringue, o contador Will Dee, 25 anos, completa mais um round de pé. O adversário chama-se Tom Pedrick, astro da academia com um ano de treino. Apesar de mais baixo, é superior em agilidade e conta com jabs e cruzados certeiros. Como é só de mentirinha, Tom exige, acelera, testa Will, mas não o machuca. Soa o gongo. Substituição. Will fica e outro top colarinho branco é convidado a subir. “Não vai ser pior do que isso. Meu novo adversário não tem vindo muito aos treinos. Estou confiante”, diz Will. Mas reconsidera. “Acho que dez semanas não são suficientes.”

Costelas quebradas

Ninguém apanhou tanto quanto Danny Stoykov na London Irish Centre, mas não significa dizer que os demais saíram ilesos. A maioria não esquecerá dos sopapos tomados no evento que a White Collar Boxing London batizou de Carpe Diem. Ao redor do quadrilátero há um cordão de cadeiras que divide a geral da área VIP. Os troféus estão na mesa dos juízes. Um para cada competidor, independentemente do resultado. A equipe médica está posicionada e garante toda sorte de ampolas, tubos, máscaras de oxigênio, ataduras e diversos equipamentos de primeiros socorros. São dois paramédicos para os 22 competidores, um técnico e um assistente.

Scott Morgan é o responsável pelo time. No que diz respeito ao boxe amador, garante que estão preparados para tudo, até para ressuscitação, “mas o mais comum é nariz ou costela quebrados e ombro deslocado”. No camarim, os futuros lutadores se despem dos trajes de escritório e guardam blazers, calças e saias em uma arara. A pose começa a mudar quando o calção largo, a camisa e o tênis entram em cena. Amigas dentro e fora do ringue, LJ Sheldrake e Emily tiraram folga e curtiram o dia juntas assistindo a filmes, batendo papo sobre qualquer coisa que não fosse luta. “Eu só quero entrar, bater e tomar uma cerveja depois. Muita cerveja”, vislumbra LJ.

Há um quê de formatura no ar, com os pais e amigos circulando o ringue, agarrados a copos cheios e aguardando o grande momento. LJ foge do camarim e recepciona a mãe, Dee, 50 anos, e a irmã Sarah, 26. “Eu não quero vê-la machucada, mas não aguentaria ficar em casa”, reconhece a elegante matriarca. Árbitro no centro do ringue, voluptuosa morena em trajes mínimos segurando uma placa de um lado, versão loira do outro. Tudo pronto para o desfile dos campeões. Eles entram, tiram fotos, mandam beijos para o público aboletado de pé ao redor das cordas. Os competidores usam protetor de cabeça, bucal e luvas. A entrada no ringue imita direitinho o espetáculo profissional, com música e cara feia. Os mais confiantes chegam a ensaiar alguns soquinhos no ar.

Emily “The Weapon” Williams se esforça ao máximo para fugir dos golpes surpreendentemente rápidos e precisos da adversária. O sangue verte de seu nariz, a derrota é inquestionável. Notando a inconformidade de Emily, o juiz vem consolá-la. “Estou chateada”, resume, sem mais. Já Dee é o retrato do sofrimento materno ao ver a filha dirigindo-se ao ringue. Caminha de um lado para o outro, mãos apertadas no pescoço, corpo e expressões contorcidas. A luta não é fácil. Mesmo assim, LJ é mais potente e está bem preparada, a vitória espera apenas o gongo. “Eu me senti culpada. Tive que deixá-la bater um pouco”, brinca LJ minutos depois, agora com pinta de modelo em seu justíssimo vestido rosa.

 

Tragédia no ringue

Em junho deste ano, Lance Ferguson-Prayogg, 32 anos, morreu após uma luta de white collar boxing em Nottingham, a duas horas de trem de Londres. Apesar de o evento não ter nada a ver com Scott, a mídia correu atrás do treinador. “Isso poderia ter acontecido com qualquer um. Ninguém falou mais nada sobre a autópsia e a causa da morte. Não tinha nada a ver com o boxe. Ele obviamente tinha um defeito congênito”, afirma. Lance desmaiou no ringue e foi levado ao hospital, onde teve uma parada cardíaca fulminante.

STATUS 42 - VAI ENCARAR?

A Status entrou em contato com o British Boxing Board of Control (BBBC), órgão que regulamenta o esporte na Grã-Bretanha. A resposta enviada por Robert W. Smith, secretário-geral, percorreu o noticiário na época: “O British Boxing Board of Control não apoia o white collar boxing, que não é licenciado pelo órgão, e não tem qualquer envolvimento com a prática. O boxe pode ser uma atividade perigosa e qualquer pessoa pode sair machucada.”