O EXCÊNTRICO

Movido a adrenalina e perigo, Andy Lewis é o cara que mais desafiou os limites do slackline. Dono de vários recordes do esporte, neste ano ele esticou a fita entre dois balões a 1.220 metros do chão para assinar mais uma marca inédita na modalidade

 

Por Mario Mele

 

STATUS 42 - SANGUE FRIO

foto Barcroft (Other Images)

Do alto, era possível ver a imensidão de areia se perdendo na curvatura da Terra, um cenário que já deixaria tonta a maioria das pessoas. A 1.220 metros do chão, dois balões de ar se posicionaram lado a lado sobre o deserto de Nevada, nos Estados Unidos. Entre eles, foi esticada uma estreita fita de náilon de 12 metros de comprimento. Estava pronto o cenário para o americano Andy Lewis, 28 anos, tentar bater o recorde mundial de travessia de highline – esporte irmão do slackline, praticado a dezenas ou centenas de metros do solo –, a mais alta realizada até hoje. “O mais difícil foi lidar com o alto grau de exposição”, disse Andy à Status. “Só quando fiquei em pé na fita é que tive a real sensação do quanto eu estava vulnerável. Aquilo parecia realmente perigoso.”

Equipado apenas com um paraquedas nas costas e mais nenhuma outra proteção, Andy tinha um problema a ser resolvido: o vento. Por isso, uma equipe monitorou a previsão do tempo e escolheu um dia de total calmaria. Mesmo assim, o americano teria que lidar com as sacudidas dos balões, que inevitavelmente refletiriam na fita. O jeito foi treinar por partes. “Primeiro me equilibrei com os balões amarrados a uma altura de dez metros. Em seguida, fizemos o mesmo a 180 metros e, dessa forma, me adaptei à situação que encontraria no desafio”, diz ele.
Quando o highline dos balões foi para valer, Andy não errou. Apesar dos trancos imprevisíveis, conseguiu concluir a travessia sem queda. Em seguida, comemorou com a tripulação, composta por amigos e pilotos, e se jogou para mais um salto de base jump. “Quase todo o meu tempo, dinheiro, energia e pensamento são voltados a esse esporte. É o que me faz ser quem eu sou”, diz ele.

No limite

Incrivelmente, a coisa mais difícil que Andy Lewis fez na vida até hoje não foi o highline mais alto e, sim, o mais longo. Ele mesmo garante que, em 2011, foi ousado em atravessar o Great Bongzilla, uma linha de 55 metros de distância e 60 metros de altura no deserto de Moab (EUA), sem usar uma corda de segurança que o manteria preso à fita em caso de queda. Nesse estilo extremo conhecido como free solo, Andy já completou mais de 60 highlines e, naquela ocasião, bateu o recorde de distância, que persiste até hoje. “É claro que tenho medo da morte”, garante ele. “Você pode estar craque em andar de um lado para o outro na fita, mas, quando faz isso correndo risco, parece que tudo muda.”
Andy é um sobrevivente. Em 2003, um ano antes de ter sido apresentado ao slackline, ele literalmente quebrou a cara num grave acidente de mountain board, o skate na terra, em que fraturou vários ossos e esfolou 25% do corpo. “Demorou, mas aprendi a gostar desse acidente porque, antes dele, eu ainda não era uma pessoa totalmente desprendida ou que realmente compreendia a plenitude da vida”, filosofa. “O slackline me ajudou a descobrir isso.” Não significa dizer que ele ache que vá morrer cedo, mas aceitaria numa boa se, de repente, acontecesse. Na verdade, viver com intensidade é o que interessa e é por isso que Andy ama o free solo, enquanto a maioria dos highliners odeia. Em 2011, a Big Up Productions – uma espécie de 20º Century Fox dos filmes outdoor na devida proporção – lançou Sketchy Andy (Andy Esboçado, numa tradução livre), um documentário curta-metragem que tenta entender sua excêntrica personalidade movida a adrenalina e perigo.
No filme, além dos arriscados highlines, Andy escala e salta de base jump do topo de prédios e montanhas. É apenas a sua rotina real, cheia de energia, mas que extravasa da tela. No entanto, para quem assiste, resta a conclusão de que ele é um completo sem noção. “Acho que o meu vigor é recarregado à noite”, diz ele, sem zombar. “Gosto de ir a festas às vezes, mas normalmente durmo cedo porque descansar é mais importante.”

De dia, se não há um slackline por perto, ele pode ser visto andando de skate, surfando, fazendo malabares ou tocando no violão as músicas que compõe. “Slacklife” é uma expressão tatuada em seu antebraço esquerdo que descreve o sentimento de levar a vida na corda bamba. É também o nome de uma música de sua autoria. “O slackline é minha religião, totalmente baseada em liberdade. Durante a travessia na fita, esqueço a estupidez e a violência que existem no mundo. O equilíbrio é só o que importa naquele momento. Falo: ‘dane-se’ para o resto”, diz a letra.

Pura diversão

Quando o slackline começou a ser praticado por escaladores do Vale do Yosemite, na Califórnia, no fim dos anos 1970, Andy Lewis ainda não era nascido. Hoje, ele é de longe a maior referência mundial desse esporte, em todas as vertentes. No trickline, por exemplo, cujo objetivo é fazer manobras com o corpo sem perder o equilíbrio na fita, ele completou, em 2006, o primeiro backflip (mortal para trás) com aterrissagem perfeita. Em competições, o americano também barbariza. Entre 2008 e 2011, venceu todos os campeonatos mundiais de trickline e, em 2012, conquistou a Copa do Mundo de Slackline, disputada em Munique, na Alemanha.

O carioca Allan Pinheiro, expoente do slackline no Brasil, que conheceu o californiano Andy durante o Mundial na Alemanha, lembra que ele também ajudou a criar regras e a estabelecer os critérios de avalição desse esporte. “Andy é uma pessoa inspiradora, com uma forte personalidade que acabou contribuindo para o desenvolvimento do esporte”, diz ele. O americano, porém, não se considera pioneiro em nada e relativiza sua importância. “Tudo o que tenho feito durante esses anos foi por pura diversão. Se represento a evolução do slackline, é porque não mantive nada em segredo. Compartilhei minhas conquistas com a comunidade e, dessa forma, ajudei novos atletas a melhorarem suas manobras e a empurrarem os limites ainda mais além.”

Há pouco mais de um ano, Andy veio com alguns amigos ao Brasil para sondar o potencial do highline por aqui. No eixo Rio-Niterói (RJ), estabeleceram diversas linhas, como a Tartaruga Sinistra, uma travessia na Pedra da Gávea de 47 metros de extensão e 300 metros de altura, na qual Andy pediu para ir primeiro. À noite, aproveitou para fazer saltos de base jump passando rente a cabos de alta tensão. Para Allan Pinheiro, que ciceroneou o grupo naquela ocasião, foi um aprendizado. “Passei a ver o highline sob uma nova perspectiva. Venci meus medos com alegria e diversão”, diz ele.

Fama e Madonna

Andy já apareceu em programas de auditório do Japão, da China e da MTV americana. Teve um vídeo gravado em 2010 e colocado em seu canal no YouTube , o MrSlackline, que bombou quando ele encarou o highline do Lost Arrow Spire – um dos mais clássicos do mundo, no Vale do Yosemite, na Califórnia – sem corda de segurança e pelado. “Foi um jeito de eu me punir por ter desistido dez vezes antes daquela tentativa”, justifica o maluco. Mas nada deu mais o que falar do que quando ele esticou sua fita durante o show da cantora Madonna no intervalo do Super Bowl de 2012. A apresentação durante a decisão da principal liga de futebol americano levou o slackline à maior audiência de sua história: 68.658 pessoas no estádio e 111,3 milhões de telespectadores só nos EUA.

Usando uma roupa de imperador romano, Andy teve 30 segundos para mostrar suas manobras. No final, ainda ganhou um beijo da popstar e, na mesma semana, um perfil no caderno esportivo do jornal The New York Times. Com o título “That Guy in the Toga? Call Him a Slackliner” (em português, “Aquele cara vestindo toga? Chame-o de slackliner”), a matéria mostrava como se sentia um jovem que deixava a pacata cidade de Moab (Utah), no interior dos Estados Unidos, onde ele ainda mora, para conquistar o mundo com suas habilidosas performances de equilibrismo. “Eu ensinei a Madonna a andar no slackline e ela aprendeu rápido. Queria sair com ela, agora que está solteira”, brinca Andy, que é noivo de Hayley Ashburn, uma garota atlética de 20 e poucos anos que também respira slackline e base jump.

Andy acredita que seus minutos de fama ajudaram na popularização do esporte. “Divulgar o slackline ainda me toma tempo e dedicação, mas tem sido algo positivo, mesmo que eu precise vestir uma toga”, diz ele, com razão. De cinco anos para cá, o slackline se alastrou pelo planeta, com comunidades desses atletas espalhadas por quase todos os países. “Daqui a pouco, o slackline estará nos XGames (as ‘olimpíadas’ dos esportes radicais). Consigo facilmente vê-lo também como uma das dez modalidades do decathlon moderno e, assim, estar dentro das olimpíadas”, diz ele.

O americano, claro, é quem mais banca essa expansão e tem colhido patrocínios, que o tornaram o slackliner mais bem-sucedido até hoje – ele é patrocinado pela maior fabricante de slacklines do mundo, a Gibbon Slacklines, pela marca americana de calçados para escalada Five Ten e pela GoPro. Com o dinheiro que tem ganhado, ele fundou, há pouco mais de um ano, a Slackline Brothers, uma marca que fabrica roldanas e outros equipamentos específicos para a modalidade. Mas não deixou de viajar pelo mundo e anda em mais de 100 linhas de highline todo ano. Seus planos vertiginosos também vão bem. “Em breve vocês verão o primeiro salto de base jump com aterrissagem em um slackline”, planeja ele. Vindo do excêntrico equilibrista, é melhor acreditar.

STATUS 42 - SANGUE FRIO

Andy teve 30 segundos de fama mundial quando andou sobre a fita durante o show da cantora Madonna no intervalo do Super Bowl de 2012, usando uma toga

 

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