O REI DE IBIZA

Excêntrico! Desbocado! Incontrolável! Bem-vindo ao mundo do artista plástico Olivier Mourão, o mineiro que conquistou Ibiza com invejável círculo de amizades: Mick Jagger, Paris Hilton, Kate Moss, Mario Testino e o nosso Boni

 

Por Michael Koellreutter, de Ibiza  |  Foto Katja Meuller

 

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A caravana é formada, invariavelmente, por limusines prateadas. Dentro dos carros, a música é ensurdecedora e todos só bebem (adivinhem por quê?) suco de laranja. As limusines partem da marina Botafoch, onde ancoram milionários iates em Ibiza, cruzam a cidade e desembarcam seus tripulantes no famoso club Privilege, point de esculturais mulheres douradas, seguranças irritados e clubbers fantasiados. No comando da frota, um brasileiro: o artista plástico Olivier Mourão, o homem que movimentou o verão da famosa ilha espanhola com uma constelação de celebridades. Estamos na ousadíssima Super Mart Xe, festa regada a sexo e fantasia, tendo como madrinha a atrevida e polêmica socialite americana Paris Hilton. Protegida por grades de ferro, uma ruiva, turbinada e escultural, está de prancheta em punho para checar a guest list. Após passar por ela, todos, sem exceção, serão revistados por truculentos bodyguards. Em companhia de Olivier, o líder da trupe, está uma falsa loira brasileira, saltitante e deslumbrada. A fila é imensa! Ao perceber os seguranças, a loira se dirige ao líder.

– Loira: “Acabei de comprar um ecstasy aqui na fila. O que faço?”
– Olivier: “Põe no sutiã, Xuxu”
– Loira: “Mas eu não uso sutiã!”
– Olivier: “Então, Xuxu, põe na calcinha.”
– Loira: “Mas eu não estou de calcinha!”(a loira engole a pílula, desta vez sem suco de laranja…)

Olivier Mourão, famoso pintor, decorador, colecionador, agitador das noites de Londres e Ibiza, nasceu em Divinópolis, Minas Gerais. Garoto prodígio, ele foi apelidado pelo colunista Wilson Fade, de Belo Horizonte, de “O Menino Pintor”. Aos 7 anos, fazia retratos elogiados pela crítica. Adulto, seus quadros já ocupavam, entre outras, as paredes da então primeira-dama Maria Thereza Goulart, mulher do ex-presidente João Goulart, e do banqueiro Aluízio Faria, ex-dono do Banco Real e atual dono do Banco Alfa. Com o tempo, Olivier começou a decorar mansões, criar cenários, organizar banquetes e promover excêntricas festas, nos anos 60 e 70, hoje lembradas com saudade. Foi por causa de uma delas (proibida pela polícia) e da censura do governo do general Emilio Garrastazu Médici ao seu programa de TV, que resolveu dar adeus a Belo Horizonte num gesto teatral!… Subiu no telhado do edifício mais alto da capital mineira, vestido de Nero e gritou para as câmeras como se tivesse o poder do imperador romano: “Se não sair daqui, vou botar fogo na cidade e acabar de uma vez com seu provincianismo!”

Exilou-se em Londres. Sua primeira exposição, organizada pelo embaixador brasileiro Celso Souza e Silva, foi repleta de celebridades, com quadros comprados pelo cantor Jimmy Page, vocalista do Led Zeppelin, e pelo consagrado marchand Martin Summers, que notou em Olivier, cujas obras chegam a valer 120 mil libras (R$ 470 mil), fortes influências de Picasso e Matisse. Um dos próximos compradores seria o baixista Ron Wood, dos Rolling Stones, a quem Olivier apresentaria a futura mulher, tornando-se padrinho do casamento. Sua casa, uma espécie de museu subterrâneo no aristocrático bairro de Holland Park, tem sido frequentada, através dos anos, por um leque que vai do fotógrafo David Bailey a Mario Testino; do cantor Mick Jagger à modelo Kate Moss, esta sua vizinha. O The Times definiu-o da seguinte forma: “Uma Luz Brasileira Brilha em Londres”.

Com os top DJs Danny Rampling e Nicky Holloway, o promoter Olivier Mourão migrou para Ibiza em 1981, onde juntos implantaram a “balearic music”, transformando a ilha numa colônia dance britânica. “A balearic music misturou a melodia house à percussão dos tambores ibicencos”, conta Olivier. “Ao mesmo tempo, o ecstasy melhorava de qualidade. Com o MDMA (fórmula do ecstasy) vieram as variações: primeiro o Double Dove e finalmente o maravilhoso White Diamond, ambos fabricados nos melhores laboratórios de Amsterdã. O ecstasy, como está em todos os livros, foi fundamental para a revolução que levou toda a Europa para Ibiza.”

Na ilha, as festas de Olivier começaram nas praias, com shows e fogos de artifício. Mas logo foram proibidas pelo Parlamento, já que, sendo na praia, Olivier não pagava imposto. Empenhado em continuar a dar prazer a muita gente (e chateação a outras), construiu um night club particular em sua mansão, eleita recentemente pela Architectural Digest a número 1 de Ibiza, dentre 50 analisadas. Com música alta, carros mal estacionados e congestionamentos, para enorme desespero da vizinhança insone. A polícia foi chamada tantas vezes que o Parlamento novamente foi acionado, multando Olivier em 300 mil euros por festa. Quem pensa que termina por aí engana-se: Oliver transferiu suas festas , antes regadas a Dom Pérignon safra 67, para limusines, onde conduz seus célebres convidados para os night clubs.

Estamos de volta ao Privilege, o maior nightclub do mundo (13.000 pessoas), e, em diferentes dance floors, cenas teatrais: drag queens, performers, mulheres nuas purpurinadas se beijando em cachoeira, inúmeros trapezistas (também nus), casais em explícitas performances sexuais. Um Homem Aranha está sentado numa latrina lendo jornal!… Incríveis, as modelos de top less circulam em altíssimas pernas de pau! Como se equilibram?! Há inúmeros anões fantasiados, bobos da corte com chapéus de guizos, malabares, engolidores de fogo… Olivier tem entre os convidados o americano Robert Carilli, o homem que trouxe a Guess? e a Diesel para o Brasil. Apesar de tantas atrações, Robert (americanérrimo…) só tem olhos para as tantas mulheres bronzeadas e turbinadas.

– Robert: “Com a facilidade que hoje se tem para colocar silicone, mulher sem peito é ‘falta de higiene’”.
– Olivier: “Ora, Robert, não exagere… Falta de higiene, não! Mas é, sem dúvida, falta de educação! Quem gostaria de ter em sua mesa uma mulher despeitada?”.
Em tempo: Paris Hilton, americana, considerada uma sex symbol “despeitada”, está ali!

 

Ibiza brasileira

“A história da fervida noite de Ibiza está diretamente ligada também ao Brasil”, conta Olivier. “O movimento dance na ilha começa, na década de 80, exatamente aqui no club Privilege, quando se chamava Ku, cujo bar VIP era liderado pelo paulista Brasilio de Oliveira, um dos melhores amigos de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o nosso Boni (coincidentemente de mesmo sobrenome), outra personalidade marcante da ilha, há mais de 30 anos, desde a época em que mandava na TV Globo. Adiante, Brasilio se tornaria diretor do Privilege e hoje é ele quem faz a La Troya, no Amnesia, uma das mais disputadas festas de toda a Europa. A atração deste ano foi Paris Hilton como DJ e também madrinha desse picadeiro em que estamos.”

Olivier explica que o diferencial da fuzilante noite de Ibiza está no espírito teatral e na valorização de personagens excêntricos. Foi Brasilio, por exemplo, quem, por indicação de Olivier, lançou o polêmico anão Holly, tido como o maior pênis da ilha. Há anos, Holly exibe no palco do club Amnesia seu “mastro” descomunal, cercado de belas dancers na famosa “Festa da Espuma”. Foi Olivier também quem introduziu a dançarina Sheila Fernandes, a brasileira que se mudou definitivamente para a Espanha, após turbulenta separação do marido: numa cena de ciúmes, Sheila colocou vidro na cocaína do cônjuge viciado, cujo apelido era “Capeta”. Chegando a Ibiza, tendo escapado da cadeia, tatuou no ventre: Deus salve a minha alma. E na virilha inteiramente depilada escreveu: Do Capeta. Em tempo: Sheila não se incomoda em desfilar nua, na famosa praia de Salinas, mostrando sua “arte” para todos.

Outra personagem marcante dessa cidade sulfurosa foi achada também por Olivier e levada para o KM5, um mix de galeria, restaurante e bar dançante, onde ele expõe seus quadros todos os anos. Uma barwoman curvilínea, aliciante, escultural. Pergunto: “Quem é a divina?”. Ele responde: “Chamava-se Orlando. Há cinco anos, fez uma operação e virou Olga. Daí casou e, acredite se quiser, teve filho! Coisas que só acontecem em Ibiza”. Olga, na verdade, casou-se com Pablo, um dos go-go boys da disco Pacha, e adotou uma criança a quem apresenta, na praia, como seu filhote.

“O que diferencia a Europa da América é que a diversão e a cultura andam juntas. Observe que o movimento de Ibiza começou com o ecstasy e a acid house. Como a música é a arte mais fácil de ser assimilada, puxa a moda, a decoração e as artes plásticas. Veja o interior dos clubs criados por inventivos designers e o look das pessoas nas ruas. É um liquidificador de criatividade! O problema do Brasil é que as coisas chegam filtradas via Nova York e deixam as pessoas completamente perdidas. As pessoas não vivem os movimentos culturais. Ficam sabendo através da TV, do Fantástico (risos). Já vi vários brasileiros chegando aqui e perguntando qual a melhor boate. As boates terminaram nos anos 60, antes de eu chegar aqui, e, até onde eu sei, Ibiza nunca teve uma boate!… (gargalhadas). Daí você chega no Brasil e vê pessoas se intitulando DJs, tocando CDs em festas! Como vai fazer a música, mixar e voltar na hora, ao vivo, tocando CD? Você imagina um Carl Cox tocando CD?! Dizem que o Carnaval é o maior espetáculo da Terra. Só que, no Brasil, o Carnaval é anual.

Em Londres, é semanal. O mundo de um Carnaval diário: Ibiza caiu sob medida…”

 

Convidados alucinados

A cultura está presente já na arquitetura da cidade fortificada. Afinal, trata-se de uma ilha pirata, que tem como herói o corsário Miguel Lovatelli, que, a serviço dos reis espanhóis, saqueava navios trazendo os tesouros para o interior das imensas muralhas. “Uma cidade louca”, diz o príncipe polonês Thomasz Lubomirski, um dos estudiosos da história ibicenca. “Talvez a única no mundo que tem, já na entrada, um monumento em homenagem ao pirata!” Thomazs, cuja família exilou-se em Londres, é sócio de Olivier e ligado à Coca-Cola em três Estados do Brasil. Juntos, preservando a arquitetura mediterrânea, montaram a suntuosa mansão onde famosos DJs tocam e clubbers dançam, cercados por obras de Picasso, Portinari, Fornasetti, Matisse, estátuas dos séculos XIV e XVII, móveis venezianos, poltronas vitorianas, uma pilastra que pertenceu a um palácio indiano do século XVIII, raridades egípcias e etruscas. Um equilibrista, como se auto-define, Olivier se orgulha: “Apesar dos cristais e dos imensos vasos chineses, nunca nenhum deles foi derrubado com tantos convidados alucinados!”

Vale contar que a grande sensação da exposicão de Olivier, este ano, em Ibiza, foram os retratos que pintou da Duquesa de Alba e de Kate Middleton, trazida até ele pela amiga Camila Al-Fayed, a bela filha do bilionário Mohamed Al-Fayed, dono da Harrods e ex-sogro da princesa Diana. Camila sempre vestiu a princesa Kate em sua refinada loja, que, aliás, foi decorada por Olivier. No vernissage, o artista entrou na galeria KM5 montado num cavalo, cercado de mulheres de top less! Na esticada, todos foram ao Amnesia, onde Paris Hilton atuava de DJ na famosa festa La Troya. Terminada a gig, miss Hilton se juntou aos demais na área VIP e, ao ver os fotógrafos, não pensou duas vezes. Subiu numa das mesas dançando e pulando, derrubando bolsas, batons e carteiras. No que Olivier, ao ir embora, não hesitou em comentar: “Que verão! Essa mulher está mais acesa do que abricó de vagalume!”