ROGÉGIO FLAUSINO

O vocalista do Jota Quest faz um balanço da carreira e fala sobre drogas, parcerias, sucesso, a vida de DJ, casamento e política

 

Por Piti Vieira

 

STATUS 42 - ENTREVISTA

 

O dono da cara e da  voz de um dos maiores grupos do pop brasileiro está com 42 anos, mas continua sendo sinônimo de festa. Quem acompanha o Jota Quest sabe como Rogério Flausino fica à vontade ao ocupar o centro do palco. Carismático, o mineiro de Alfenas, formado em informática, construiu uma imagem de um cara que frequenta todas as rodas, do samba à música eletrônica. E não tem problema em reconhecer que seu talento não está exatamente na sua voz. “Falam por aí que o Rogério Flausino como cantor é um ótimo animador de plateia. E eu concordo”, diz ele, com seu eterno bom humor. A Status foi até Belo Horizonte para conversar com o músico na produtora que o grupo de 18 anos mantém no bairro de Belvedere, onde também fica o estúdio em que eles gravaram grande parte de seus sete discos, o último deles, Funky funky boom boom, lançado em novembro do ano passado e que tem feito sucesso “até com a crítica artística”, o que não é normal para o Jota, segundo seu vocalista. “Você escuta e ele te faz bem. É uma retomada do início da nossa carreira, uma época em que as coisas eram mais simples, mais leves, menos pretensiosas, tudo mais divertido”, diz ele, que está casado há oito anos com a médica Ludmila Carvalho, com quem tem uma filha de 7 anos, a Nina.

Você imaginava que ia chegar tão longe?

Não, porque quando se está começando é tudo de ímpeto e instinto. Acho que todo mundo tinha na cabeça que se fizesse tudo certinho a gente chegava lá. Lá onde? Não sei. A gente só ia. Você só consegue ter uma noção melhor do sucesso com os erros. A gente queria ser como as bandas dos anos 80. Ir ao Chacrinha, ganhar disco de ouro, a música tocar no rádio, fazer show para um monte de gente. Essa era a viagem, as referências. Como o Chacrinha já tinha morrido a gente ia no Faustão, na Xuxa. E eu continuo achando que o caminho é esse. Ser uma banda popular, que toca para todo mundo. E tem dado certo.

Quando você compõe uma música, você faz questão de estar sozinho, em casa? Como funciona esse processo?

– “Vareia” (sic). Faço letra e música separados. Tenho um monte de música sem letra e um monte de letra sem música, que deixo anotadas no celular. Às vezes, elas cruzam com uma melodia que está na minha cabeça e nasce uma música. Mas, geralmente, gosto de fazer músicas para letras que não são minhas. Pego o violão e faço na hora. Quando escrevo uma letra não tenho certeza se aquilo é tão legal e fico na dúvida. Nunca acho que está bom. Os meninos (do Jota Quest) é que definem se é bom ou não.

A maioria das letras do Jota Quest é sempre sua?

Eu tomo conta dessa parte, mas tem parcerias, adaptações.  Os bons parceiros que o Jota tem são: (Wilson) Sideral, meu irmão, já fizemos vários hits (“Na Moral”, por exemplo), Nando Reis, Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, é uma listona, bicho.

No último disco você fez uma parceria com um sambista, o Xande de Pilares (ex-vocalista do grupo Revelação, hoje em carreira solo). Como foi?

Eu gosto de samba. Do papo do samba, da retórica. São letras muito mais legais, criativas, divertidas e bem sacadas do que as do pop-rock – tirando a galera dos anos 80. Nossa turma dos 90 não tem o bom humor que eles têm. Não que isso seja ruim, é só diferente. O samba é zoado. Sempre achei o Xande uma figura. Um dia ouvi no rádio a música “Só vai de camarote” e tuitei para ele falando que essa música é foda. Ele ficou louco, começamos a conversar e um dia ele mandou uma música, que se chama “É de coração” e me pediu para fazer o refrão. Eu fiz. Então, agora abriu a porta e ele sabe que pode me mandar uma música a hora que quiser.

O que pretendiam quando lançaram o Funky funky boom boom?

Esse disco propõe a retomada do início da nossa carreira. Isso aconteceu naturalmente, porque completamos 15 anos em 2011, com muitas comemorações, turnê, lançamento de discos e DVD, e, depois disso, demos um tempo para respirar e pensar o que queríamos para nós. Deu saudade de voltar para uma época em que as coisas eram mais simples, mais leves, menos pretensiosas, tudo mais divertido, quando a gente não discutia tanto.

Como é a relação de vocês?

É muito boa. A gente tem atrito o tempo inteiro, porque a gente fica o tempo inteiro junto. Mais do que com as nossas esposas. Estamos juntos todo fim de semana faz 20 anos. E quando a gente era solteiro não era só no fim de semana, era a semana inteira. A gente só começou a diminuir nossos encontros por causa da família. O grande barato da nossa história é que com o tempo entendemos que existe um equilíbrio de valores, de participação artística. Isso é importante para que a banda esteja sempre olhando para o mesmo lado. É igual casamento. Você começa a olhar demais para o lado…

Mas existem brigas.

Sim. Depois de 20 anos somos como irmãos. E irmão briga. Eu tenho dois irmãos e uma irmã. Só que eu convivo muito mais com esses irmãos do Jota do que com meus irmãos de verdade. E banda é foda, porque você manda o cara tomar no cu e cinco minutos depois tem que sentar do lado dele na van. Aí um faz piadinha, conversa vai, conversa vem e você nem percebe que já voltou a falar com quem tinha brigado. Atitudes que poderiam atrapalhar nossa união são divergências artísticas. Eu resolver cantar samba, por exemplo. Ou um deslize de integridade moral de algum de nós. Assim mesmo ainda mereceria uma segunda chance. Nós vamos durar muitos anos ainda.

 Você nunca pensou em carreira solo?

Tem essa história de que o vocalista pode sair a qualquer momento e seguir a vida dele sozinho. Eu sempre quis ser de uma banda. Às vezes penso em fazer um disco cantando Cazuza ou Lulu Santos. Uma homenagem. Mas sair da banda, não. Aliás, o Lulu me perguntou uma vez quando a gente ia fazer um disco só com músicas dele, de preferência antes que ele morresse, porque ele queria ir assistir. Eu disse que esse disco ia rolar, porque a gente é muito fã dele.

Com quantos anos você saiu de Alfenas?

Com 21 anos, depois que me formei em informática. Meus pais moram lá até hoje. Meu pai é dentista e professor de patologia na faculdade de odontologia e minha mãe é professora de literatura e gramática. Eu convivia nesse ambiente acadêmico, mas que também tinha um lado musical por parte da família da minha mãe. Meus avós cantavam, tinham um grupo de teatro que misturava muito com o circo, e eles incentivaram os filhos a tocar violão e a cantar também. Por causa deles eu tenho muita influência da MPB. Quando eu tinha 12 anos e o Sideral 9, a gente resolveu montar a nossa primeira banda. Com 14 anos eu já me achava um profissional, cantava na noite, ganhava meu dinheirinho. E assim foi até eu me formar na faculdade.

  Aí você veio tentar a sorte em Belo Horizonte?

Não saí de Alfenas para virar um músico profissional. Eu queria ir para São Paulo, mas pintou um estágio em uma agência de publicidade de BH, que era uma área pela qual eu me interessava. Vim para ficar 15 dias e nunca mais fui embora.

O Jota Quest entra em que momento na sua vida?

No fim do primeiro ano na cidade conheci o Johnny Quest, que era como o Jota se chamava na época, tocando em um bar. Fiquei louco com a banda e ia sempre assisti-los tocar. Me lembro de um dia estar vendo um show deles em um boteco e pintou lá o Samuel (Rosa, vocalista do Skank). Pensei: “Esses caras são enturmados. Vou ficar vindo toda semana aqui que vai pingar algo para mim”. Na época o vocalista era o Eduardo Garcia, que ficou com eles uns oito meses. Mas ele entrou numas de fazer carreira solo e saiu. Um dia eles me viram dando uma canja na banda de uns amigos em comum, acharam minha roupa e meu jeito estranho, mas perguntaram de mim. Não sei o que chamou a atenção deles, na verdade.

 Sua voz, talvez.

Falam por aí que o Rogério Flausino como cantor é um ótimo animador de plateia. E eu concordo. Enfim, não sei. Um dia, recebo um telefonema do Márcio Buzelin (tecladista), me chamando para fazer um teste. Como já tinha visto a banda ao vivo, disse que não sabia cantar em inglês igual ao outro vocalista, mas mesmo assim eles me chamaram. Era 1993. Quando cheguei, eles me reconheceram, mas não do show em que eles tinham me visto, e, sim, dos barzinhos onde tocavam. Vinte dias depois entramos em estúdio e gravamos uma fita demo de três músicas. Como eu trabalhava em agência e conhecia um monte de gente de rádio, comecei a distribuir as fitas e pedir para tocarem as nossas músicas.

 Foi uma época difícil?

Correr atrás era uma coisa que eu sempre tinha feito. Fechar show, imprensa, divulgação, colar cartaz, pedir favor era comigo mesmo. Então, se eu não era exatamente o cantor que eles sempre sonharam, que era uma negra americana com um vozeirão, eu tinha uma coisa que eles tinham também: a vontade de fazer acontecer, de entender que não é só fazer música, é mais. Tem que se entregar para o negócio. Durante dois anos a gente ensaiou todo dia, e todo mundo amarradão. E acredito também na iluminação. Por isso que me agarro tanto a essa oportunidade e respiro fundo diante das adversidades. Tem que passar por um funil tão pequenininho para conseguir ter uma projeção e um espaço como o que a gente conseguiu.

Qual foi o melhor e o pior momento da sua carreira?

Houve vários melhores momentos. O atual é excelente. Com a crítica artística falando bem do disco novo, o que não é normal para o Jota. As duas vezes que nos apresentamos no Rock in Rio também. Pior momento foi quando lançamos o disco “Oxigênio” (2000), após um momento de muito sucesso, que ficou totalmente esquizofrênico. As músicas não batiam umas com as outras.

O que você escuta de música?

Pop, em geral, tipo Justin Timberlake e Bruno Mars. Legião, Paralamas, Titãs, Roberto e Erasmo Carlos, Tim Maia. Tive uma fase de ouvir muita música eletrônica, mas hoje só ouço lounge. Eu tive uma fase DJ, tocava deep house. Cheguei a tocar em festas grandes pelo Brasil todo.

Como foi essa fase?

Comecei tocando em um club que o Marco Túlio (guitarrista) tinha em BH, eu abria a noite, e depois em festas pequenas, mais cedo e sempre na pista B para não ter pressão. Eu queria aprender. E aí começaram a pintar os convites para tocar em festas grandes e eu nunca podia por causa dos shows, mas acabava fazendo depois das apresentações do Jota. Mas comecei a ficar muito cansado. Era só doideira, doideira e doideira.

Você chegava a tomar alguma coisa?

Sim. Era o auge da música eletrônica e eu mergulhei mesmo, do jeito que tem de ser. Mas sempre fui muito comedido com essas substâncias. Graças a Deus eu não tenho essa coisa de querer sempre mais. Para mim, era recreativo total. Nunca usei para subir no palco. Isso rolou de 2001 a 2005. As noites viradas começaram a me atrapalhar.

Você ainda usa alguma droga?

Só álcool, que sempre me acompanhou, mas tenho bebido cada vez menos. Estou com 42 anos e sinto que meu organismo não absorve mais como antes, tenho que escolher o dia para beber. Hoje sou mais da turma do tio careta do que da turma que bota fogo no negócio.

Nem de vez em quando?

Não. Sou um pai de família trabalhador e gosto de ser o que sou. Não tenho mais tempo para isso. Tenho que cuidar do meu corpo e da minha mente. Preciso ficar são. Me faz bem.

O casamento teve alguma coisa a ver com essa decisão?

Não, minha mulher nunca me pressionou e nem precisava. Desde que me casei e fui pai, aos 35 anos, comecei a mudar meu estilo de vida. Com o nascimento da Nina isso ficou mais intenso ainda. O tanto que é gostoso ser pai. Como isso muda a percepção da vida. Eu já fiz tudo o que queria e agora é de outro jeito. E está muito bom assim. Mas pretendo ir ao Tomorrowland (famoso festival de música eletrônica que vai ter uma edição brasileira em maio de 2015). Uma coisa não tem a ver com a outra.

Você sentiu preconceito quando frequentou o universo da música eletrônica?

Às vezes sim, às vezes não. Eu gostava mesmo era de ir aos clubs. Mas eu sou tranquilão, safo para provocações. Sei quando é um fã ou quando estão me cumprimentando para zoar. Comecei muito cedo nessa profissão. Você também tem que aprender a se impor. Se não estavam gostando que eu estava lá, que vazassem. Eu ficava até o fim, o último a sair. E sou amigo dos DJs. Do Anderson Noise, do Marky, do Mau Mau, dos meninos do Clickbox, que até trabalharam nos dois últimos discos do Jota.

 Você gosta de ser uma celebridade?

Eu sou uma celebridade low profile e ser mineiro é bom porque aqui dá para ir almoçar e ninguém vai ficar tirando foto de você e da sua filha, o que não acontece no Rio de Janeiro, por exemplo. Mas não me atrapalha. Se vou a lugares com muita gente, sei que vou ser abordado. Tem que ter paciência. Então, me preparo ou evito frequentar esse tipo de lugar. Mas tem lugares que você precisa ir, como hospital. Você vai lá porque está doente ou alguma coisa está acontecendo. Em compensação, você vai ter um tratamento diferenciado. Isso é uma vantagem. Cinema eu vou. Supermercado não vou. Ficar três horas tirando foto com o povo não dá. No Mineirão eu vou de vez em quando, mas os cruzeirenses zoam geral. No shopping vou às vezes. Uma coisa que me irrita é ir à praia e ser fotografado. Depois tenho que ler na internet que estou exibindo a “pancinha na praia”. Faça o favor, né?

Você usa rede social?

Twitter e Instagram. É um vício. Mas só respondo coisa legal. Não fico discutindo nem faço ativismo.

Você é ligado em política?

Estou um pouco frustrado com o jeito que está a coisa. Mas situação e oposição estão misturadas. Não adianta eleger só o presidente da República, tem um monte de outros cargos importantes. Um cara só não pode mudar tudo. Tem o Congresso. É ali que o bicho pega. O que aconteceu em junho do ano passado demonstra que todo mundo está descontente com a roubalheira, falta de justiça, falta de vergonha na cara. E como vamos mudar? Eu acho que isso é um processo de médio prazo e a sociedade toda precisa trabalhar junta. Não são os políticos que vão mudar isso.

Você acompanhou as manifestações pelo País no ano passado?

Claro. O que não acho legal é a quebradeira, os black blocs. Acho isso uma palhaçada. Vale ir para a rua protestar, mas sem ignorância. Tem que ir na moral. Um erro não justifica o outro.

Você acredita em políticos?

Acredito que existam caras sérios ali. Meu pai foi vereador e um político honesto, tinha ideologia, aquilo não era a profissão dele. Por que não senta um monte de gente inteligente, temos tantas no Brasil, para elaborar um plano de educação a longo prazo que governo atrás de governo vai precisar cumprir? Um investimento vultoso para que daqui a 50 anos tenha gente chegando ao poder com uma outra mentalidade. É meio utópico falar esse tipo de coisa, mas, enfim.