VIDA DIGITAL

Como smartphones, relógios, pulseiras inteligentes e outros aparelhos eletrônicos nos elevaram à categoria de seres cibernéticos

 

Por Jr. Bellé

 

Encare a realidade: já não somos os mesmos seres humanos feitos apenas de carne e osso. Parte de nós é um emaranhado de fios de cobre protegido por carcaças de plástico, por bordas de aço, alimentado por baterias de lítio. Estão em nossos pulsos, bolsos, olhos, roupas e escrivaninhas. Já há mais em nossa memória externa – o HD, o pendrive, a nuvem – do que suporia o mais visionário dos neurônios. Ademais, com o perdão de Edgar Poe, depois do Google Glass, os olhos não são mais as janelas da alma. Tornaram-se verdadeiros portais que já não nos levam para dentro, mas para fora, para novas realidades e inéditos paradigmas.

O baluarte desses utensílios tecnológicos é certamente o smart-phone. Ele se tornou o canivete suíço com que os seres urbanos descascam os abacaxis virtuais e apertam os parafusos soltos pelo estresse da vida moderna. Sentimo-nos pelados e incompletos sempre que o esquecemos em casa, como se algo estivesse faltando. “Hoje o celular é uma caixa de ferramentas e o aparelho tecnológico que mais uso”, confessa Adriano Abdalla, 34 anos, diretor- geral de criação da Wunderman, agência especializada em estratégia nos meios digitais. “Uma vez que você tem um smartphone e conexão, tem praticamente tudo. Basta selecionar aplicativos certos e usá-los de maneira assertiva”, opina. Ele acredita que o Deezer e o Easy Taxi são exemplos de como esse progresso interfere diretamente em nossas vidas e economias: “Nesses dois casos, a meu ver, afetaram de forma positiva”.

Mas nem tudo são flores de pixel nesse jardim tridimensional. “Todos esses adventos devem vir colados com uma utilidade realmente mensurável, tangível.” Caso contrário, avalia Adriano, cairemos no abismo irreparável da futilidade. “Hoje vivemos uma época em que a tecnologia é usada sem limites, em qualquer ocasião. Mas, em algum momento, será preciso diminuir seu uso para que seja saudável”, diz ele. E prossegue. “Existem os mais variados gadgets e aplicativos, não dá para baixar todos. Cada um deve pensar sobre o que é útil para si”, recomenda. Trabalhando há mais de 15 anos com gadgets, ele receita o uso moderado para fugir do vício. “Os futuros apocalípticos retratados pelas distopias dependerão de como o ser humano vai lidar com esses avanços.”

Retrato do Futuro

O escritor carioca José Lourenço, autor de livros de ficção científica, é especialista em distopias. “Costumo dizer que é como uma lupa: pego determinado problema social ou avanço tecnológico e o aumento no futuro, imagino como serão os seus extremos e o impacto nas pessoas”. Foi assim em sua obra mais famosa, Rio 2054 (Editora Novo Século), em que a segregação social é elevada a níveis brutais, separando uma cidade nada maravilhosa entre ricos e pobres. “Júlio Verne fez isso muito bem. Orwell é outro que podemos mencionar, afinal vivemos num mundo em que empresas e órgãos governamentais podem nos vigiar integralmente.” Na Itália, essa vigilância está alimentando um problema. De acordo com a Associação de Advogados Matrimoniais, em 40% dos divórcios realizados no país, o WhatsApp é usado como prova. Em entrevista ao jornal inglês The Times, o presidente da associação, Gian Gassani, afirmou que o aplicativo é um facilitador da infidelidade e “encorajou o regresso do amante latino”.

Ao que tudo indica, a salvação está na própria tecnologia. Pessoas mais inteligentes certamente criarão gadgets mais seguros, ou ao menos pularão a cerca de maneira discreta. O professor de psicologia organizacional da Universidade de Amsterdã, doutor Jan te Nijenhuis, explica que esses avanços estão diretamente relacionados com o aumento nas pontuações dos testes de QI. “A tecnologia tem forte impacto sobre esses testes, o chamado ‘Efeito Flynn’”. Professor emérito da Universidade de Otago, James Flynn notabilizou-se por suas pesquisas sobre inteligência. “Ele comparou as pontuações de pessoas de várias gerações e descobriu que as nascidas em 1990, por exemplo, tinham índices melhores do que outras, nascidas em 1950, nos mesmos testes.” A explicação é simples: à medida que nos modernizamos, produzimos mais e melhores alimentos, o que faz nosso cérebro trabalhar melhor. A crescente quantidade de informação que desembarca em nossas ideias também é um fator relevante para esse aumento no QI geracional.

Qualificar nossa relação com a tecnologia é o ponto central para a especialista em interação entre humanos e máquinas, a doutora Ruth Wylie, da Universidade Estadual do Arizona. “É a tecnologia que permite que avós conversem com seus netos através de vídeo. Isso constrói vínculos humanos muito mais fortes do que uma ligação telefônica.” Ruth enxerga maravilhas no progresso. “As pessoas vão continuar a interagir com computadores e a usá-los para interagir uns com os outros. É provável que sua frequência e qualidade irão aumentar. Acontecerá o mesmo com a fidelidade dessas conversas e interações.”

STATUS 43 - VIDA DIGITAL