WOLINSKI: A MORTE DO GÊNIO DO EROTISMO

Assassinado, aos 79 anos, no ataque ao jornal Charlie Hebdo, o cartunista Georges Wolinski, que colaborou com a Status na década de 1970, deu de presente ao mundo alguns dos mais sensuais e eróticos personagens dos quadrinhos

 

Por Jr. Bellé

 

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Georges Wolinski jamais abaixou a pena. Ereto como seus cartuns eróticos, tão insubordinado quanto seus desenhos políticos, mais afiado que a ponta de seus lápis de cor, o mestre do quadrinho francês deixará uma multidão de órfãos que acompanhavam seu trabalho nos jornais Hara-Kiri, L’Humanité, Liberátion, Paris-Match, L’Écho des savanes e no Charlie Hebdo. O quadrinista brasileiro André Dahmer não exagerou em nada em sua afirmação ao G1: “Assassinaram o maior cartunista em atividade no mundo. Um homem que influenciou três gerações de desenhistas”. Wolinski foi morto em 7 de janeiro de 2015 na redação do jornal francês Charlie Hebdo, atacada por dois homens armados com metralhadoras AK-47 que gritavam o nome do profeta Maomé. Além dele, outras 11 pessoas foram assassinadas, entre elas dois policiais e também os cartunistas Stephane Charbonnier (Charb), Jean Cabut (Cabu) e Bernard Verlhac (Tignous).

O EROTISMO

Os traços escrachados de Wolinski tinham vocação para esculhambar tabus, especialmente os religiosos, políticos e sexuais. Esquerdista resoluto – dizia que o humor era exclusividade da esquerda, cujo compromisso com o status quo era unicamente de combatê-lo e modificá-lo -, tão logo estalou Maio de 68, fincou posição no fronte da crítica social furiosa. Com a mesma impetuosidade, levantou a bandeira da revolução sexual criando personagens voluptuosas e libertinas. Por conta disso, foi acusado de ser um autor erotômano e misógino. Em entrevista ao jornal Estado de São Paulo em 2007, rebateu a crítica: “mulher liberada, aquela que corre atrás do seu desejo e o manifesta para o homem”.

O estudo “The Humorous Erotic in French Post-1968”, da pesquisadora e especialista em quadrinhos e graphic novels pelo Dartmouth College – EUA, Annabelle Cone, traça um paralelo entre a arte dos contemporâneos Wolinski e a cartunista Claire Bretécher, também conhecida pela acidez sexual e esquerdista. De acordo com Cone, “uma grande liberdade sexual que confunde os papéis tradicionais dos gêneros é recorrente na expressão dos dois, com personagens masculinos e femininos questionando sua própria masculinidade e feminilidade”. Cone reforça a importância de Wolinski durante as décadas de 1970 e 1980, quando o conteúdo sexual era proeminente e necessário, afinal a arte precisava conversar com aquela sociedade em transformação. Foi durante a década de 1970 que Wolinski colaborou com a Status, chegando a criar dois personagens, sempre com a pegada sensual, a cara da revista. Essa dedicação ao erotismo, que em muitos momentos flertou com a pornografia, fez nascer uma “nova e mais séria graphic novel, naturalmente muito mais experimental, poética e artística”, o que só foi possível com a emergência de títulos e editoras independentes.

Foi nas páginas de uma destas publicações, a Charlie Mensuel, que nasceu a controversa e fatalmente sexy Paulette, um dos mais famosos personagens de Wolinski, criado em parceria com Georges Pichard. Paulette costumava aparecer em trajes sensuais – baby-dolls transparentes e lingeries -, quando não nua e escancarada, sempre sedenta por sexo. Seduzindo e deixando-se seduzir, Paulette impunha sua posição dominante diante de uma sociedade machista.

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Ela era parte uma série de personagens femininas fortes – ainda que criadas por homens – que sintetizavam o espírito de libertação sexual. Entre elas estava Barbarela, do francês Jean-Claude Forest, e Valentina, do italiano Guido Crepax. Valentina também protagonizou as publicações independentes francesas Hara-Kiri e Charlie Mensuel, as quais Wolanski foi colaborador e editor.  O sucesso de Paulette foi tamanho que a L&PM traduziu e lançou uma compilação com duas HQ’s em 1991. Quatro anos antes, a mesma editora lançava Wolinski – 25 anos de desenhos muito conhecidos, pouco conhecidos e desconhecidos. Infelizmente, ambos os livros estão atualmente fora de catálogo.

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Em entrevista ao jornal A Crítica, em 2007, durante passagem por Manaus, em que foi jurado do Amazonas Film Festival, Wolinski diz: “Com Paulette, o que queríamos mostrar era a mulher livre, que era capaz de olhar para um homem e dizer, ‘Quero transar com você’”. Pouco depois, como uma enunciação do ativismo artístico que caracterizou sua vida, ele completa: “Humoristas raramente são filhos de gente rica, pois desde cedo eles mandam os filhos para escolas caras, que os ensinam a ser pessoas ‘sérias’. E o humorista não pode ser religioso: humor e religião não se bicam. O humorista não gosta de mentiras, e a religião, a meu ver, é uma mentira”.

OS PRIMEIROS DESENHOS

Wolinski nasceu na cidade de Túnis, em 1934, filho de pais judeus oriundos da Polônia e da Itália. Pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, mudou-se para Paris com mãe (o pai fora assassinado quando ele tinha apenas dois anos) e pouco menos de uma década depois ingressou no curso de arquitetura. A aventura acadêmica durou pouco, Wolinski abandonou os estudos para mergulhar de cabeça nos quadrinhos, primeiro na revistaRustica e posteriormente no lendário jornal mensal Hara-Kiri, publicado pela primeira vez em 1960 e um dos carros chefe da Éditions du Square, editora especializada em humor. A estreia de Wolinski na Hara-Kiri já dava o tom combativo que aquela década enunciava. Entre os quadrinhos épicos do autor destacam-se Ils Ne Pensent Qu’ à Ça, Histoires Inventées e Hit-Parades. Nove anos depois, o jornal passou a publicar uma edição semanal chamada Hara-Kiri Hebdo, o embrião que em breve daria origem ao Charlie Hebdo.

A DÉCADA REVOLUCIONÁRIA

Repare que voltamos ao fim da década de 1960, quando a Hara-Kiri e Wolinski afrontavam as fronteiras da Guerra Fria engajando-se de corpo e alma, de verbos e rabiscos, na versão contemporânea da Comuna de Paris, o imprescindível Maio de 68, quando manifestações estudantis contra a reforma na educação se alastraram pela França ganhando adesão da classe trabalhadora, que culminou na mais emblemática greve geral daquele século. De tão combativa e libertária, logrou alinhar os discursos de Stálin (URSS), Lyndon Baines Johnson (EUA) e Charles de Gaulle (França). O inédito uníssono dos mandatários, obviamente, se voltou contra o levante. Nesta época, Wolinski criou o jornal L’Enragé em parceria com outra lenda do cartum francês, Maurice Sinet, mais conhecido como Siné. Na L’Enragé, Wolinski publicou alguns de seus mais ácidos desenhos em série, entre eles Je Ne Veux Pas Mourir Idiot e Pas Que la Politique Dans la Vie.

O PARTO DE CHARLIE HEBDO

Foi a morte do presidente Charles de Gaulle, em 1970, que decretou o fim da Hara-Kiri, cuja manchete de seu semanário Hebdo não esperou sequer o corpo do general esfriar para tirar uma onda. O então ministro do interior francês, Raymond Marcellin, proibiu a circulação do periódico, que instantaneamente reviveu com um novo título: Charlie Hebdo. De acordo com Wolinski – que naquele ano se tornou editor-chefe do periódico, posto que manteve até 1981 – tratava-se de uma “homenagem” a de Gaulle maquiada na referência direta a outra revista do grupo Éditions du Square, a Charlie Mensuel. Em 1977, Wolinski se tornou cartunista editorial do diário comunista L’Humanité. Em vida, ele influenciou gerações e gerações de cartunistas ao redor do mundo. Agora, morto de forma covarde e trágica, seu trabalho ganhará proporções ainda maiores.