A ARTE DE COMPRAR ARTE

Um olhar minucioso e boas dicas podem levar o melhor das melhores galerias até a parede da sua casa. Saiba como

 

Por Jr. Bellé

 

STATUS 43 - ARTE

Atente para esses números: desde 2010, o mercado de arte vem crescendo, em média, 22,5% ao ano. Mais: 33% das galerias existentes no País foram criadas na década de 2000 e outras 33% surgiram depois de 2010. O levantamento, feito pela Associação Brasileira de Arte Contemporânea (Abact), em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), revela muito do crescente interesse do brasileiro por pinturas, fotografias e esculturas. Revela também uma questão crucial para quem pretende entrar nessa onda. Como começar uma coleção de arte?

O PASSO A PASSO

O primeiro passo é, literalmente, dar um passo. É claro que não se trata de qualquer passo, e sim de um que conduza para dentro de uma galeria. “Frequentar exposições é muito importante. Apenas o convívio com a arte proporciona um olhar seletivo, bem treinado. A formação vem com a familiaridade com a obra e com o ambiente das exposições”, explica Raquel Arnaud, proprietária de uma das mais tradicionais e prestigiadas galerias do Brasil, para a qual empresta seu nome. O segundo passo, de acordo com Raquel, é optativo, pois se trata de uma escolha financeira que deve responder à pergunta: quanto você quer gastar? Raquel recomenda começar por peças habitualmente mais baratas. “Há arte para todos os bolsos. As gravuras costumam ter um preço mais acessível do que outros trabalhos, então é um bom caminho. No entanto, é importante lidar com galerias que façam um trabalho sério e possam indicar artistas cuja trajetória e produção sejam de fato relevantes”, explica.

Ser prudente na escolha da galeria e do galerista que auxiliará na compra é imprescindível para o terceiro passo – ou segundo, caso queira pular as gravuras: apostar em jovens talentos. “Uma galeria confiável só mostra obras de artistas com uma trajetória promissora. Esses são critérios importantes para identificar talentos. Nesse sentido, apostar na valorização de novos artistas é um ótimo caminho”, diz. Caso o comprador sinta que fez um mau negócio, ou de repente passe a não mais admirar a obra que adquiriu, Raquel recomenda que volte até a mesma galeria para tentar vendê-la ou trocá-la. “Outra opção viável é colocar a obra em leilões de arte”, completa.

Mas essa aposta em novos talentos pode ser bastante rentável. Quando o artista plástico paulistano André Sztutman vendeu sua primeira obra, em 2007, o valor não chegou sequer a R$ 1 mil. “Era uma pintura-objeto, uma amarração de uma série que se chama, justamente, Amarrações, e que eu gostava muito”, conta Sztutman. À época, ele era um proeminente estudante de artes da Faap que mantinha um trabalho intenso fora da faculdade, participando de exposições e dedicando-se a espaços de arte fora do circuito. “Estudei e trabalhei com o Osmar Pinheiro, fiz de tudo na Casa da Xiclet, um espaço cultural independente de São Paulo. Também frequentei o Ateliê do Centro com Rubens Espírito Santo. Enfim, transitei entre grandes nomes, mas me dediquei também à arte independente”, conta. Essa trajetória fez com que, no começo de 2014, ele vendesse uma pintura a óleo por R$ 3,5 mil. O comprador pode se considerar um sujeito de sorte. A partir desse ano, André passa a ser representado pela Warm – especializada em arte contemporânea – e os primeiros trabalhos levados à galeria já alcançam a cifra de R$ 7,5 mil. “Sempre fui arredio a galerias, mas achei que agora chegou a hora de dar esse passo. Elas são importantes na legitimação do nosso trabalho, também na parte de divulgação e venda. É claro que agora meus trabalhos vão valorizar bastante, mas quero que isso aconteça aos poucos, sem atropelos, por isso estamos até segurando um pouco esse aumento. Apostar em novos artistas é um ato de coragem”, completa.

Quem apostou no talento de Sztutman foi Gabriel Caramelo. Ele é fundador e diretor da Warm, que abriu as portas com uma grande festa em novembro passado, no bairro paulistano de Pinheiros. “Nossa proposta é fugir da frieza tradicional das galerias e, como o próprio nome sugere, ser acolhedor, quente.” De acordo com Caramelo, o mais importante quando se começa a investir em arte é comprar algo de que você verdadeiramente goste. “É comum ver gente comprando arte e só pensando no retorno financeiro, mas isso nem sempre acontece, são apostas. Caso você tenha uma obra que o agrade, ela nunca será um dinheiro jogado fora”, opina. Identificada a obra de seu desejo, é hora de investigar. Pergunte sobre o currículo do artista, pesquise, sonde, realmente escrutine a trajetória profissional. “Você não está comprando a obra, mas sim o artista. O que fará um artista se valorizar serão as exposições em museus, galerias e residências em que ele passar. Por isso é importante conversar com galeristas e procurar espaços de arte reconhecidos.” Mas fica a pergunta: como ganhar esse traquejo tão necessário nos negócios da arte sem arriscar muito dinheiro? Felipe Chaimovich, curador do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), tem a resposta na ponta da língua. “Meu conselho para quem está começando é se associar aos clubes. Isso vai dar uma boa noção da prática do colecionismo”, diz.

VIRE UM CURADOR

O Clube de Colecionadores do MAM é provavelmente o mais significativo em atividade no Brasil. A excelência acirra a procura, mas há um limite de 100 associados por clube. “Temos três. O mais antigo, fundado em 1986, é o de gravura. O de fotografia é de 2000 e o mais recente, de 2003, é o de design”, explica Chaimovich. O valor da anuidade para qualquer um dos três clubes do MAM é de R$ 4.750.

O funcionamento dos clubes é simples. No caso do MAM, cada um conta com um curador específico que escolhe cinco artistas por ano. Essa seleção é então submetida ao conselho e à curadoria-geral do museu. Uma vez aprovada, cada um desses 15 artistas terá um orçamento para produzir uma obra inédita com tiragem de 100 peças, uma para cada associado. “Outras duas obras entram para o acervo do MAM, e o artista fica com dez cópias de seu trabalho”, explica. Caso o desejo for realmente iniciar uma coleção e não apenas adquirir obras aleatórias, Chaimovich reforça a necessidade dos clubes, particularmente para a compreensão de como formar uma linha curatorial. “Entender a natureza de uma coleção passa por entender a prática da curadoria de arte. Afinal, cada colecionador vai acabar se tornando o curador da própria coleção.”

STATUS 43 - ARTE

Quadro de Rodrigo Torres, da galeria A Gentil Carioca, produzido em 2014

STATUS 43 - ARTE

Obra de Jesús Rafael Soto, da galeria Raquel Arnaud, feita em serigrafia no ano de 1970.