SEMPRE PARCEIROS

Acostumados a enfrentar os oceanos dos quatro cantos do planeta, os surfistas de ondas gigantes Carlos Burle e Pedro Scooby deram um tempo na busca por adrenalina e posaram especialmente para status neste ensaio de moda esporte

 

 Por Piti Vieira

 

48

Burle usa camisa Mormaii R$ 120 e bermuda Redley R$ 290 | Scooby usa long john Nike (acervo pessoal)

 

Pedro Vianna, 26 anos, mais conhecido como Scooby, é um dos principais nomes da nova geração do surf brasileiro, marido de Luana Piovani, 36 anos, e pai de Dom, 2 anos. Por conta de seus aéreos, ele chegou a ganhar dois campeonatos cariocas de surf quando ainda não tinha completado 16 anos, mas largou tudo, desiludido com o mundo das competições. Apoiado pela família e bancado pela Nike (hoje ele também é patrocinado por Red Bull, Sony, Furnas e Hotel Urbano), o carioca – criado entre o Recreio e a Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, onde aprendeu a surfar com o pai – transformou a praia em escritório e passou a viver como gosta, viajando o mundo e surfando ondas perfeitas. Até 2010, quando sua vida mudou.

Scooby e um amigo tinham ido surfar em Puerto Escondido, no México. O que eles não sabiam é que um gigantesco swell estava a caminho da cidade na costa do Pacífico. “De repente, começaram a baixar na praia os maiores big riders do mundo. Eu fiquei olhando aquilo e pensando em só assistir, já que não tinha levado prancha adequada”, diz ele. Só que a fase de espectador durou pouco. Um conhecido cedeu sua prancha e o brasileiro caiu na água. “O mar estava gigante. Depois de uns dez minutos, a Maya (Gabeira), que também estava na água, gritou: ‘Vai!’ Eu fui e acabei pegando a melhor onda do dia, com direito a tubo. Quando saí do mar, o Twiggy (Grant ‘Twiggy’ Baker, sul-africano, atual campeão mundial de ondas grandes pela Associação dos Surfistas Profissionais) veio me dizer que tinha sido animal e a praia toda estava batendo palma.”

Com a performance, Scooby foi finalista nas categorias Ride of the Year e Tube Award (versão remada) na edição 2011 do XXL Big Wave Awards, a mais importante premiação anual de ondas grandes do mundo. Ele não ganhou, mas acabou apadrinhado pelo maior big rider da história do Brasil, o pernambucano Carlos Burle, 47 anos, que desde então vem trabalhando para fazer o carioca passar de promessa a realidade no panteão mundial dos surfistas de ondas gigantes. “Faz cinco anos que comecei a trabalhar com o Scooby e o treino há três anos. Ele tem muito talento e surfa qualquer tipo de onda. Antes tive uma experiência muito boa com a Maya Gabeira, que também é muito dedicada e profissional”, diz Burle. Com 25 anos de experiência, ele é hoje um dos maiores nomes do surf de ondas grandes e suas vitórias nas principais competições do segmento atestam sua capacidade como atleta profissional – não à toa, é o único brasileiro a participar do Eddie Aikau, evento de ondas grandes reservado apenas aos 28 atletas mais respeitados pela comunidade do big surf, realizado no Havaí.

Em busca de recordes

No ano passado, uma tempestade que atingiu o Atlântico Norte, com ventos de até 200 km/h, fez com que toda a costa europeia recebesse mais uma ondulação de proporções faraônicas. Liderados por Burle, Scooby, Felipe “Gordo” e Maya foram à Praia do Norte, em Nazaré, Portugal, tentar superar o americano Garrett McNamara, que havia surfado uma onda de 30 metros no local em janeiro de 2013. Após cair em uma onda, Maya tomou uma série na cabeça, precisou ser resgatada por Burle e quase morreu. Inconsciente, foi reanimada com sucesso pelo big rider na areia. Como se não tivesse tido emoção suficiente para um dia, o pernambucano ainda teve fôlego e sangue-frio para voltar ao mar e surfar uma onda que media entre 32 e 35 metros, segundo um software desenvolvido por um professor da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa. “A maior lição daquele dia foi a de que o preparo físico nunca pode ser negligenciado para evitar os riscos, seja de se machucar, seja de morrer. Surfamos ondas grandes e precisamos aprender a lidar com essas situações. Mas o mais importante foi que a equipe saiu ilesa e a nossa missão foi cumprida”, diz Burle, casado e pai de uma menina de 16 anos e de um garoto de 4.

“Ele é meu mentor. É com ele que converso antes de qualquer negociação de contrato, patrocínio, preparo físico, tudo. É realmente um cara que está me ajudando muito e quer passar o que sabe para mim, tipo sr. Myagi e Daniel San do Karate kid”, diz Scooby. “O universo das ondas grandes é bem maior do que apenas surfar. Existe toda uma logística. O Scooby não sabia pilotar jet ski e hoje manda muito bem. Fico feliz quando encontro alguém totalmente receptivo. Não acredito que escolhemos pessoas para trocar experiências, mas sim que nos conectamos com quem temos sintonia. Eu me alimento da energia dele e ele se alimenta da minha experiência. Tem sido legal pra caramba”, completa Burle. Os dois, que moram no Rio de Janeiro, passam grande parte do ano à procura das maiores ondas do planeta, tudo registrado para seus respectivos programas no canal a cabo Off, Desejar profundo e Pedro vai pro mar. “Eu moro no Leblon e ele na Barra, mas a gente se fala quase todo dia”, diz Scooby sobre o mestre e, principalmente, parceiro.